PartidAs

Um encontro pela democracia em um lugar democrático

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Nadine Borges*

Depois do Brasil inteiro ter sido surpreendido por uma conversa que não pode, em hipótese alguma, envolver pessoas que exerçam qualquer atividade pública; uma conversa que foi um festival de crimes e de acordos financeiros sem qualquer preocupação com políticas públicas, temos o dever de ocupar a orla de Copacabana com milhões de pessoas no próximo domingo, dia 28/05/7, às 11h.

Não podemos aceitar uma conversa como a que aconteceu entre um Presidente da República com alguém que é o maior empresário no ramo de venda de proteína animal do mundo, um empresário com dezenas de frigoríficos nos Estados Unidos, um empresário que comprou parlamentares para serem favoráveis ao impeachment que afastou a Presidenta Dilma em 17 de abril de 2016, um empresário que fez fortuna acobertado pela cúpula de parte do Poder Executivo, Legislativo e Judiciário, um empresário ladrão, um homem que enriqueceu roubando.

Depois de tudo isso, o Sr. Fora Temer continuar governando esse país é uma afronta a qualquer trabalhadora ou trabalhador que acorda cedo todas as manhãs para fazer a máquina girar.

É por isso que estaremos todas em Copacabana no próximo domingo, dia 28/05/7, às 11h, para exigir DIRETAS JÁ ao lado de artistas, cantores e pessoas que nem sabemos o nome, mas que certamente não querem destruir o futuro das próximas gerações. Estaremos ao lado de Teresa Cristina, Caetano Veloso, Maria Gadu, Criolo, Cordão da Bola Preta e mais um monte de gente que não tem medo de lutar pela democracia.

Não importa em quem votamos pra Presidente na última eleição, não importa se temos ou não vínculo com partidos, não importa se nos consideramos de esquerda ou de direita. Nada disso importa agora, a única coisa que importa é não permitirmos que nenhuma reforma estrutural no Estado brasileiro seja votada no Congresso Nacional enquanto o Brasil for presidido por Michel Temer.

A única votação que podemos admitir é a de seu impeachment – o que só dificilmente ocorrerá, já que a presidência da Câmara, não por acaso, é de um aliado seu, o Sr. Rodrigo Maia.

Não podemos e não vamos aceitar eleições indiretas. Isso é criminoso porque esse Congresso claramente não tem autoridade para presidir um processo desses, num momento em que os presidentes das duas casas são investigados por corrupção.

Não queremos ser governadas pelo Judiciário. Queremos votar!

Vamos lutar ao lado de milhões de mulheres para termos eleições diretas e exigir a saída do Fora Temer da Presidência da República.

A decisão cabe ao povo, não ao Judiciário.

Chega de permitir que os conglomerados econômicos empresariais nacionais e internacionais, a grande e média mídia/imprensa (Globo, Folha de SP e outras) e o Poder Judiciário ditem os rumos da política desse país. 

Às Ruas!

Somos muitas, somos muitos.

Às Ruas!

VAMOS LOTAR COPACABANA NO PRÓXIMO DOMINGO, DIA 28/05/17, a partir das 11h com música, com alegria e com muito amor pra mostrar que não renunciamos aos nossos direitos!

A única renúncia que aceitaremos é a de Michel Temer.

FORA TEMER!

DIRETAS JÁ.

(*Nadine Borges é advogada, professora, militante e ativista de direitos humanos, integrante da PartidA e Fora Temer).

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Discriminação, Feminicídio, Feminismo negro, Invisibilidade, Mulher Negra, Racismo, Violência

“Dororidade … o que é? Ou o que pretende ser?

Seria a Dor e a nem sempre Delícia de se Saber ou de não se Saber

Quem Somos….

Nossa História Importa…Nosso Turbante Importa…. Nossa Vida

Importa…Dororidade…”

 

Por Vilma Piedade*

 

Entendo que todo conceito carrega um mundo de significados e significantes…não é estático e pressupõe… Reflexão… Crítica… Discursos… Significar.. . Ressignificar… Multiplicidade.. .Transformação… tudo junto . esse complexo conceitual parece funcionar como norteadores da questão. Logo, o conceito não é algo acabado, pronto, imutável e descolado do seu tempo. É circular.

E estou aqui inaugurando um conceito – Dororidade – e convidando vocês para participar dessa história e escutar o texto..

A Filosofia aponta que não há conceitos simples. Tudo isso para afirmar que não existem conceitos sozinhos, pois todo conceito tem sempre um componente e este sempre nos remete a outro conceito. Circularidade.

Mas, qual a finalidade, no nosso caso, de ter um novo conceito – Dororidade? Será que como Mulheres Feministas, Sororidade não nos basta? E Sororidade não é o conceito que ancora o Feminismo?

O lugar de fala é um lugar de pertencimento. Falo desse lugar como Mulher Preta. Ativista. Feminista. De Axé. Mas também falo de um lugar das minhas Ancestrais, marcado pela ausência histórica. Lugar- ausência marcado pelo Racismo. E, é desse lugar digo que Não. Sororidade une, irmana, mas não basta.

O que parece nos unir na Luta feminista é a dor. A dor da violência que sofremos no cotidiano. Seja física, emocional, patrimonial, moral. No nosso caso, ainda temos a violência racial. Dororidade quer falar das sombras. Da fala silenciada, dentro e fora de Nós. Da dor causada pelo Racismo. E essa Dor é Preta.

Dororidade carrega, no seu significado ,a dor provocada em todas as Mulheres pelo Machismo. Contudo, quando se trata de Nós, Mulheres Pretas, tem um agravo nessa dor, agravo provocado pelo Racismo. Racismo que vem da criação Branca para manutenção de Poder… Aí entra a Raça. E entra Gênero. Entra Classe. Sai a Sororidade e entra Dororidade.

Como nos alerta Ângela Davis in Mulheres, Raça e Classe – “Raça, Classe e Gênero entrelaçados, juntos, criam diferentes tipos de opressão. Classe informa a Raça; Raça informa a Classe”.

Já Lorde fala que não há Hierarquia de Opressão. Mas aqui , prefiro ficar com Djamila Ribeiro, em seu prefácio no livro de Ângela Davis – Mulheres, Raça e Classe – há uma hierarquia de Gênero no tocante a Nós, Mulheres, Jovens, Meninas Pretas – somos mais vulneráveis à violência sexual, ao Feminicídio.

Voltando, sabemos que o Machismo Racista Classista inventou que , Nós – Mulheres Pretas -somos mais gostosas, quentes, sensuais e lascivas. Aí, do abuso sexual, estupros, naturalizados na senzala até hoje, foi um pulo. Pulo de 129 anos e passamos a ser estatística. Os dados oficiais sobre violência sexual falam disso. Estamos na frente, morremos mais nas garras desse Machismo do que as Mulheres Brancas… A equação é simples- Mulher Preta é Pobre; Mulher Pobre é Preta…pelo menos na sua grande maioria. Nesse ponto, recorro mais uma vez ao pensamento de Ângela Davis,

“…precisamos pensar o quanto o Racismo impede a mobilidade social da População Negra…”

Foi-se a Abolição Inconclusa e a Carne Preta ainda continua sendo a mais barata do mercado…

Dororidade. Sororidade. Não há dor maior ou menor. Dor não se mede. É de quem sente. Há dor. Dor dói e ponto. E a nossa dor é Preta.. E a Pele Preta ainda nos marca e nos mata na escala inferior da sociedade.

Tem uma dor constante que marca as Mulheres Pretas no cotidiano – a dor diante de uma perda. E nesse jogo cruel do Racismo quem perde mais? Quem está perdendo seus filhos filhas? Todos Pretos. Todas Pretas. A resposta tá estampada nos dados oficiais- IPEA- sobre o aumento do genocídio da Juventude Preta. Dororidade.

É, no nosso caso , a história é diferente, ou , parafraseando Lélia Gonzalez…”…Cumé qui é…” Por que é o Racismo que nos dilacera. Não há dor maior ou menor. Dor não se mede. É de quem sente. Há dor.

Dor dói e ponto. E a nossa dor é Preta. É assim que entendo o Racismo. Dororidade.

A Dororidade se instaura desde que que nossas Ancestrais foram escravizadas aqui. Nossa história, nossos valores civilizatórios foram extirpados, violentados, assim como Nós.

Opressão e Privilégios. E deixo com vocês essa questão… Dororidade.

 

Vilma Piedade – autora do conceito de “Dororidade

*Vilma Piedade é professora de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira formada pela UFRJ com pós-graduação em Ciência da Literatura. É mulher Preta. Ativista. Feminista. De Axé. Integrante da RENAFRO. PartidA RJ. Articulação de Mulheres Brasileira (AMB). Revisora/Relatora da Conferência de Durban.

 

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Discriminação, Invisibilidade, LGBT, Mulheres Trans, PartidAs, Sexualidade, Violência sexual

O corpo trans: interseccionalizar e ressignificar

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Lana de Holanda*

Até um ano e meio atrás, a visão que as pessoas tinham sobre meu corpo gerava uma interpretação diferente da que fazem hoje. É como se eu tivesse atravessado uma ponte invisível que leva a dois mundos totalmente diferentes.

Na verdade, a ponte que eu decidi atravessar era a que me levaria de um mundo introspectivo e cercado de pensamentos depressivos, para um universo onde eu tivesse mais paz comigo mesma. A ponte da transição. Saía da passividade (causada por diversas opressões sociais, nomeadas transfobia) de ser identificada e lida enquanto homem, e assumia a identidade que sempre tive: a de uma mulher.

Todo esse processo de “sair do armário” não foi simples, como vocês podem imaginar. Foram anos para entender quem eu era (ou “o quê” eu era), e alguns outros anos para ter a coragem necessária de me assumir para as demais pessoas. Essa coragem, na verdade, não era algo opcional. Se tratava de me assumir ou sucumbir.

O que eu não esperava (ou não tinha raciocinado muito a respeito) era ver como o lugar do meu corpo na sociedade mudaria radicalmente.

De menino apontado como desengonçado, para mulher elogiada como elegante. De magrelo, pra esguia. E principalmente: de uma pessoa que passava despercebida, para alguém que se tornara o centro das atenções na maioria dos lugares onde transita.

Falando assim parece ótimo. E ser chamada de “elegante” vez ou outra é realmente bom. Ajuda a alimentar o amor próprio que foi anulado por tanto tempo. Mas nem sempre é bom. Ser o centro das atenções não é necessariamente algo positivo. A pessoa que simplesmente passava, agora é alvo de olhares inquietantes e questionadores. Antes era “meu irmão”, agora é “safada”. Antes era “cara” agora é “putinha”.

Sim: ter me assumido enquanto mulher trans parece ter dado liberdade para as pessoas me objetificarem e me tratarem como bem entenderem. Os homens cis, na imensa maioria das vezes, me olham como um objeto inanimado – que em alguns momentos causa repulsa, em outros causa desejo. E sabemos que é dessa combinação doentia que nasce o ódio que vitimiza mulheres trans e travestis todos os dias. Afinal, estamos no país que mais mata pessoas trans no mundo; e que é também o país que mais assiste pornografia relacionada a esse público.

Nessa equação louca de olhares e sentimentos causados involuntariamente pelo meu corpo, eu me dei conta do paralelo existente entre as mulheres negras e as mulheres trans.

No que se refere à interpretação que fazem dos nossos corpos, ambas são alvo de desejo e de diversas fantasias. Mas pelos locais em que estão historicamente (e compulsoriamente) inseridas na sociedade, ambas não parecem ser dignas de afeto e de constituírem relações completas. É como se a função da mulher trans e da mulher negra fosse exclusivamente servir ao prazer do macho alfa. Exceções existem, mas são realmente exceções.

Nem preciso pedir pra vocês imaginarem, nesse caso, a situação da mulher que é trans. E negra. O nível de opressão e objetificação certamente são elevados ao máximo.

Lana: Nosso corpo é político!

No sistema capitalista, ao qual estamos infelizmente inseridas, corpos são tidos como propriedades. No caso da mulher trans e da travesti (assim como da mulher negra, mesmo que cis) esses corpos são tratados como coisa pública, onde qualquer um parece poder tocar e frequentar a hora que bem entender. Daí as solidões que permeiam essas vidas.

É preciso pensarmos o tempo todo na significância do nosso corpo, e o quanto ele pode ser político. Repito: nosso corpo é político!

O corpo feminino (seja ele trans ou cis, negro ou branco) é um forte símbolo de resistência. Alguns indiscutivelmente serão mais violados (mesmo que simbólica e silenciosamente) que outros, mas todos devem ser ressignificados.

Passou da hora do nosso corpo deixar de ser entendido como coisa, e passar a ser visto como potência. Pois é isso que todas nós somos de fato: potências.

 

*Lana de Holanda é mulher trans, feminista, escritora. É criadora da página “Transgressiva” no Facebook, colunista do HuffPost Brasil e assessora parlamentar da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ)

 

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PartidAs

Barbárie: menina de 12 anos vítima de mais um estupro coletivo no Rio de Janeiro

imagem para estupro coletivo
Nadine Borges*

Uma menina de 12 anos foi vítima de um estupro coletivo aqui perto de onde moro – perto sim, perto demais, na cidade ao lado.

Barbárie é o nome disso, além de crime.

E o que há de pior nessa barbárie contra as mulheres/meninas/crianças é que, assim como tantas outras, nossa capacidade de prevê-las está cada vez maior, mas nossa capacidade de evitá-las não.

Temos nos rendido cada dia mais à cultura do medo: medo de andar na rua, medo de sair de casa, medo de descer no ponto à noite, medo de ser mulher. Um medo alimentado pelo capitalismo.

Não nos iludamos porque, como mulheres, somos importantes pra fazer essa máquina girar com nosso encarceramento no lar e no trabalho em espaços de submissão.

Não nos querem livres nas ruas e não nos querem na luta política, porque nós temos chances reais de enfrentar essa cultura da violência, sempre machista e opressora.

Que a luta dessa delegada para investigar esse crime tenha um fim justo e seja mais um passo na luta pela não repetição.

Que possamos receber essa notícia em um sábado de maio, um mês marcado por tantas violências contra as mulheres, e refletir sobre o papel da mulher na sociedade que nos toca viver.

Que os crimes de maio não sejam esquecidos, nenhum deles.

Que saibamos nos levantar e romper com todas as formas de submissão das mulheres em casa, no casamento, no namoro, na rua, no trabalho, na escola, na firma, nos sindicatos, na igreja, no futebol e nos partidos políticos.

Não podemos aceitar viver em uma sociedade que faz isso com suas crianças e meninas.

Estou com o estômago embrulhado. Estou convicta que somos muitas!

É por isso que o lema “mexeu com uma, mexeu com todas” precisa nos tirar de casa para ocuparmos as ruas e todos os espaços de poder.

Não temos o direito de deixar de lutar, sob pena de perdermos mais direitos. Principalmente, o direito ao futuro de nossas meninas, que merecem viver e conhecer um mundo livre da violência machista e das práticas patriarcais.

(*Nadine Borges é advogada, professora, militante e ativista de direitos humanos, integrante da PartidA e Fora Temer).

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Blog da partidA, PartidAs

carta ao nosso encontro

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Manaus, 30 de abril de 2017.

Prezadas companheiras da partidA,

Escrevo esta carta tendo em perspectiva os limites de um lugar de fala. Os limites do lugar de fala estão, no entanto, diante de limites do lugar de escuta aos quais todas estamos condenadas. Ligamo-nos portanto, inicialmente, por um desejo que nos leva umas às outras e que, ao mesmo tempo, nos impede de chegar tão perto. No entanto, por meio da reflexão cuja qualidade almeja ser a sinceridade, espero poder respeitar esses limites e torná-los potentes como lugares a um só tempo críticos e criativos.

O que venho chamando de feminismo dialógico nada mais é do que o esforço conceitual de pensar esse encontro tenso e intenso de fala e escuta entre nós. Nós, que somos sujeitos históricos heterodenominados mulheres, sujeitos que assumimos nossas marcações politizando, desse modo, a condição de nosso aprisionamento na alucinação machista. É a fantasia perversa do machismo que desmontamos com nossos gestos.

Tornamo-nos feministas no momento de uma virada pessoal e cultural, subjetiva e objetiva, dessa grande mudança que é, ao mesmo tempo, particular e histórica a que chamamos feminismo. O feminismo é fundamentalmente o processo de chegada à consciência e ao corpo a um só tempo, uma forma de contraconsciência  em relação ao delírio machista e racista que é o capitalismo. A transformação concreta acerca dos direitos das minorias políticas, sabemos, não existe sem o feminismo.

Ora, não podemos perder de vista que somos maioria em termos populacionais, mas também somos maioria enquanto alvo de toda violência, seja ela física ou simbólica. No entanto, e justamente por esse último aspecto, somos minoria no que concerne ao poder e participamos de seus jogos sempre em um lugar subalternizado, marginalizado ou excluído. É essa mesa na qual estão sentados os sacerdotes do racismo-machismo, mesa na qual jaz o cadáver ainda quente da democracia brasileira, que somos chamadas a virar por meio de nosso movimento.

O feminismo modifica a estrutura da sociedade ao questionar as condições de raça, classe, gênero, idade, normalidade, corporeidade e sexualidade armadas sobre o grande sistema religioso da certeza paranoica que é o machismo estrutural. O combate à paranoia machista – sempre racista – nos obriga a ações e instaura o feminismo para além do que entendemos como racionalidade e como lógica, como uma politização que leva em conta o corpo vivo. Nosso lugar é o da crítica a toda uma ordem biopolítica. É, portanto, a crítica da razão patriarcal, da razão machista e racista que pomos em movimento em sentido teórico e prático.

Nesse sentido, o feminismo é um paradigma teórico, mas também uma ética e uma política – uma ético-política – , forma e conteúdo da luta cujo procedimento é a desmontagem dos processos de poder como dominação, exploração e humilhação dos corpos marcados como sexuais, sensuais, maternais, marginais, negros, deficientes ou consumidores. É nesse sentido uma inevitável ressignificação do sujeito mulher sempre e essencialmente desamparado e violentado na lógica da razão machista.

Tendo isso em vista, me autorizo a escrever a vocês para falar da vocação de nosso movimento segundo meu ponto de vista, um ponto de vista inevitavelmente limitado. Falo em vocação pensando na voz que se projeta, na vocação que é interna à palavra que nos deu origem. Porque nosso movimento é como uma espécie de “fiat lux” que se pronuncia em um gesto sempre criativo acionado por cada uma de nós, como espero poder expor ao longo dessa carta. Ele surge de uma inspiração poética como aquelas que se tem nos bons encontros.

A partidA nasceu no contexto de reflexões sobre o feminismo nas quais estamos todas envolvidas de um modo ou de outro. Ela nasce de uma pergunta feita a companheiras feministas brasileiras sobre a fundação de um partido feminista no começo de 2015, quando o autoritarismo e o machismo avançavam e os sinais de um Golpe de Estado passaram a nos preocupar. Se a palavra partidA, nosso nome próprio, nasce da pergunta, é porque essa pergunta, essa dúvida, é seu nome secreto. Com isso, quero dizer: somos ainda uma pergunta. E talvez seja nosso dever filosófico-político permanecer nesse lugar.

Naquele momento histórico, ainda parecia possível esse tipo de iniciativa, ainda que soasse absurdo para muitas, o que ficou claro nos encontros iniciais que tivemos. Entre o sim e o não, optamos, como coletivo, pelo sim e pelo não. Não ao partido. Sim à partidA. O tempo histórico nos provou que aquele esforço seria realmente em vão na prática. Vivemos o Golpe de Estado politicamente traumático, eticamente perverso e estrategicamente perfeito num acordo machista, preconceituoso e racista que é parte das velhas e astuciosas estratégias capitalistas. Ao mesmo tempo, por que a história avança por contradições, comprovou-se que um partido feminista, ainda que concretamente impossível, seria realmente urgente. O sequestro do significante “mulher” por um atual partido machista é mais uma prova da perversão da política nacional que nos amedronta e envergonha. Esse exemplo vale para quem não desejou – e para quem assumiu o não desejo da outra – naquele momento o desejo de um partido feminista, independentemente dos motivos para essa rejeição. Agora, o aprendizado acerca das oportunidades históricas deve nos fazer ver o surgimento do partido perverso – em sentido estrito de uma inversão cínica – como uma ironia do destino.

Se impõe, portanto, a todas nós, uma reflexão crítica e autocrítica acerca do lugar histórico que ocupamos como feministas em uma país como o Brasil, um país no qual é possível surgir uma configuração do poder tal como o partido da mulher brasileira. O horror precisa ser contemplado com lucidez para ser parte do aprendizado nos processos de luta.

É nessa linha que podemos dizer que nosso movimento que funciona como um partido, e que se denomina desde o seu nascedouro como partidA, precisa ser repensado no contexto da sobrevida da política brasileira e da morte da democracia em seu estágio atual. Fazer política hoje implica também levar a sério esse luto no contexto da luta. E é nesse luto, uma atitude historicamente feminina, que podemos crescer em nossa luta.

Dito isso, me parece produtivo que nos dediquemos à meditação acerca do ato que instaura o nosso movimento-partido como um ato eminentemente poético. Ele se deu no Rio de Janeiro, no dia 25 de maio de 2015. Menciono essa efeméride mais por amor à memória feminista do que por idealizações quanto à origem. Mais por saber que vetores da memória movem os corpos em uma economia de emoções do que por dever historiográfico. Outras reuniões aconteceram no mesmo ano em São Paulo, Porto Alegre, Goiânia, Palmas, Belo Horizonte, Belém e outras cidades e podem, com tranquilidade, ser consideradas igualmente fundadoras, pois não somos fundamentalistas cronológicas e não incorreremos no erro de hierarquizar o tempo de nosso surgimento no Brasil. Sabemos que a origem no tempo cronológico quer dizer bem pouco quando comparado ao tempo de sua cotidiana originariedade. Em palavras simples, qualquer movimento se faz, se desfaz e se refaz a cada dia. Ao mesmo tempo, não podemos perder de vista os fatos concretos que constroem narrativas e significações.

É nesse sentido que eu gostaria de colocar em cena imediatamente a questão da potência teórica e prática de cada encontro que realizamos em nome da partidA. Justamente por nosso desejo desierarquizante, desejo que é constitutivo do movimento e longe do qual ele estaria completamente aniquilado, devemos sempre, a meu ver, cuidar de não hierarquizar nossas relações, e podemos fazer isso não hierarquizando nossos encontros. De modo que seria interessante ter em vista que o encontro que hoje chamamos de nacional não pode ser mais importante do que o pequeno encontro municipal ou até mesmo social que cada uma de nós realiza com as mais diversas companheiras em qualquer lugar do país. Do mesmo modo, o grupo que hoje se reúne, só pode fazê-lo chamando para si a humildade de estar de algum modo solitário diante das milhares de companheiras que não estão em presença física ou que, pelos mais diversos motivos, sentem-se afastadas hoje do movimento.

O lugar da presença que certamente motiva ações dos grupos que hoje tentam organizar a partidA segundo as melhores intenções, precisa ser autocrítico no sentido do poder que se assume em relação ao contingente de muitas companheiras cuja potência de expressão deve ser resguardada. A partidA não pode ser um mecanismo de exclusão ou de exclusivismo político. Tampouco pode estar presente em nossa lógica ou em nossa epistemologia o fisiologismo ou o descarte de pessoas. A partidA é, antes, integradora de minorias e de singularidades. Nesse sentido, termos como “orgânicas” e “colaboradoras”, que chegaram a ser usados por algumas de nós, me parecem totalmente nocivos ao que desejamos do movimento e, por isso, devem ser revistos urgentemente sob pena de burocratização e engessamento. Esses termos, bem como outros que não promovem a fratria e a sororidade, criam hierarquias, valorizam e desvalorizam pessoas, incluem e excluem dos lugares politicamente criativos que é tarefa da partidA construir. Devemos tomar cuidado com a máscara da estratégia, pois, caso as estratégias não sejam, ao mesmo tempo, negativas das estratégias, elas podem estabelecer parâmetros alheios ao desejo interno que constitui o movimento.

Penso que todas estamos sujeitas às artimanhas do poder. Nesse sentido, a importância deste momento está em revisarmos as armadilhas nas quais somos colocadas como pessoas comuns que inevitavelmente somos e que, na contramão, defendem uma ético-política feminista, esta sim capaz de desmascarar as artimanhas do poder se levada até as últimas consequências.

No entanto, não devemos nos assustar com isso, com a burocratização, com resvalos autoritários ou engessantes que possam surgir. Atentas ao ser próprio de nosso movimento, devemos saber que essas armadilhas fazem parte do metabolismo do poder e que aquilo que podem ser correções de rumo no contexto tradicional, devem ser momentos curativos no contexto feminista. O que estamos fazendo hoje é aproximarmo-nos do poder, e isso é perigoso. Penso, portanto, que nossa autocrítica é um cuidado no sentido mais feminino do termo. E me sinto profundamente reconciliada com certa ideia de “feminino”, neste momento, porque pessoalmente sempre preferi o feminismo como guerra por oposição ao cuidado. Para mim, hoje, ver a dialética entre essas formas de ação me surge como um caminho a seguir.

Tendo em vista o ato próprio de qualquer movimento que é a autocriação diária, e mais ainda do nosso movimento em sua nomeação simbólica e criadora de imaginário, gostaria de sugerir uma reflexão sobre nosso devir. Sobre o que somos e podemos nos tornar tendo em vista o que experimentamos até aqui.

Com esse objetivo, sinto-me obrigada a contar a vocês, minhas companheiras de luta feminista, sobre a minha própria relação com a partidA tentando escapar de um individualismo branco, sexista e burguês, risco de toda fala que não se expressa como um lugar dialógico aberto à outra, seja essa outra quem for.

É nesse sentido que preciso afirmar – como cada uma pode fazer, caso deseje –  meu lugar de fala. A questão do lugar de fala tem sido importante em nossas elaborações teóricas e também eu tentei contribuir com alguns textos recentes, motivo pelo qual não me estenderei na elaboração deste aspecto enquanto, ao mesmo tempo, peço a consideração e o respeito feminista de buscarem oportunamente ler o que eu tentei expor dentro de meus limites. Aqui, gostaria de fazer este pedido amorosamente, pois não há nada mais feminista do que a escuta atenta e dedicada. Todas nós que escrevemos, seja filosofia, teoria política, literatura ou reportagem, sofremos do mal da desconsideração. A voz falada ou escrita sempre foi negada às mulheres. E, no caso que me diz respeito, também gostaria de dizer que não é fácil ser uma filósofa brasileira, latino-americana e mulher. Já sofri todo tipo de sexismo e de desvantagem, violências simbólicas e concretas no âmbito acadêmico, por ser mulher. Não costumo falar das particularidades da minha vida pessoal em público, pois a condição de vítima sempre é interpretada no mundo machista como culpa da própria vítima e eu prefiro, por destino ou temperamento, outros caminhos. Além disso, não escrevo, neste momento, tendo em vista os antagonistas do feminismo, mas apenas as companheiras nas quais deposito afetos e muita confiança.

Nessa perspectiva, o  feminismo é, para mim, um dever que deriva da reflexão que não teme as consequências de sua própria seriedade e de sua inadequação em um mundo machista em todos os seus níveis. Se sobrevivi nos meios acadêmicos, midiáticos, literários, privados e públicos em geral, e se estou aqui a escrever esse texto para conversar com minhas companheiras de luta – que considero companheiras de vida – é porque sou feminista e durante toda a minha vida, mesmo antes de dar esse nome a uma postura política, eu agi como uma feminista e apenas por isso sou capaz de suportar pessoalmente o que significa ser mulher em uma sociedade como a nossa.

Mas digo tudo isso porque me parece importante colocar em questão mais um aspecto que, neste momento, ou em qualquer outro, acaba sendo considerado menor. Penso que todas nós lemos os textos sobre a partidA que nos servem tanto de fundamentação teórica, bem como de relato do seu advento. Refiro-me a alguns textos de minha própria autoria e também de Carla Rodrigues, de Élida Lima, Terezinha Vicente e outras. Como a história das mulheres é uma história de esquecimento e de negligência em relação à produção teórica, científica, artística e literária de mulheres, não podemos considerar que as participantes do movimento não os conheçam sem que isso se torne um problema entre nós, um problema a ser facilmente resolvido a partir de leituras  básicas. A contribuição das professoras, filósofas e jornalistas – apesar do preconceito que pesa sobre quem leciona e até se expressa hoje em dia – não deve ser apagado. Esse apagamento é machista e mesmo as mais cuidadosas feministas podem incorrer nele. O mesmo vale quando pensamos na questão das mulheres negras, suas vidas, seus textos, que nos alertaram para tantas coisas. A negligência de quem participa do movimento em relação a esses textos configura a nossa própria participação no esquecimento do trabalho teórico das mulheres que é característica do patriarcado.

É tempo de pedir que me perdoem aquelas que possam sentir-se incomodadas neste momento com o tom pessoal deste relato, mas me parece que o feminismo, como postura ético-política nos exige esse lugar altamente confessional ao qual damos hoje o nome de lugar de fala. Historicamente o feminismo se constituiu como uma subjetividade a partir de textualidades que assumiram lugares de fala. O lugar de fala, como eu disse em outro momento, não é simplesmente o lugar da dor, mas o lugar onde nos dispomos ao diálogo. O lugar de fala feminista é mais um desnudamento e uma posição antidefensiva e antirreativa que se tem diante das companheiras, porque se trata de falar com quem pode nos escutar. O machismo é todo um processo, toda uma lógica do silenciamento, a lógica autoritária provocadora de um mutismo que atinge todos os corpos marcados como femininos. Um mundo sem diálogo, um mundo sem diferença e sem singularidades, é o seu objetivo.

É nesse sentido que eu gostaria de voltar a pensar a partir da metáfora constitutiva do nosso movimento, a metáfora que é o nosso nome próprio. A metáfora que se aciona a cada vez que dizemos ou escrevemos o nome partidA. Eu falo agora pensando na reflexão sobre a língua que encontramos nos textos de Glória Anzaldua e de Silvia Cusicanqui, filósofas latinoamericanas, uma chicana, a outra índigena Aimara. Apenas por lê-las é que me dei conta, e me sinto autorizada a dizer poeticamente, que a palavra partidA sai da minha boca como uma potência de luz, articula-se na minha língua dentro da minha boca e nesta língua brasileira, que nos impede de traduzir o termo com tranquilidade para outras línguas desde aquele dia 25 de maio de 2015. Pariu-se um dia como Afrodite, se me permitem dizer, e é parida a cada momento em que a dizemos e a ouvimos na boca de outras. Ao sair da minha boca, ao criar corpo na minha voz, eu a descubro como conceito. E falo que parte de mim, que parte de cada uma a cada vez que é pronunciada. E precisa ser pronunciada para ganhar corpo e, como corpo político, lutar contra o avanço do capitalismo-machismo-racismo. A partidA está no meu corpo que é o nosso corpo. É assim que podemos falar dela. Ela é o meu corpo e é o corpo de todas nós, como voz que se faz corpo e que se refaz como voz.

E neste momento, pergunto a cada uma: quem, sendo feminista não tem um compromisso com o corpo-voz das mulheres e de todos aqueles que são violentados física e simbolicamente pelo arranjo do poder entre machismo, racismo e capitalismo?

Desde aquele ato intuitivo, poético e político ao mesmo tempo, que nos deu lugar, me sinto completamente convocada pela metáfora que nos une. Devemos prestar atenção nesse aspecto, é uma metáfora política o que nos une e nos reúne. É uma palavra que nos liga a um compromisso criativo. Uma metáfora que tem função autopoética a cada vez que está na boca – essa cavidade uterina e, como tal, criativa – de cada uma de nós. Uma metáfora autopoética que não cessa, que não para, que é infinita em sua função auto-criadora.

Me parece portanto que, desde o início, cada uma de nós foi essencialmente convocada como participante de um movimento poético. Essa convocação não foi estratégica, não foi um programa de poder. Se há alguma intencionalidade nesse processo é o da recriação diária dessa metáfora viva capaz de levar a novos lugares políticos.

Apenas por ser poético, nosso movimento é político. Por isso ele é contra-hieráquico. Alguém pode, diante dessa colocação, dizer que a poesia é frágil comparada às forças do poder. Mas um pensamento como esse seria apenas a confirmação da adesão à lógica machista com a qual raciocinamos quando ainda não temos o feminismo como ressignificação política que se dá porque uma desmontagem das lógicas tradicionais entrou em cena.

O feminismo é uma utopia prática. É isso o que podemos considerar autopoético em nosso movimento. Uma utopia micrológica realizável a cada momento. Esse momento autopoético é sem dúvida o que nos livra de hierarquias e de disputas internas de poder. Por isso, nossa organização não pode ser diferente de uma auto-organização no sentido dado pelo filósofo da biologia chamado Ernesto Maturana: como autopoesis da natureza, a da arte, a da cultura, a autopoiesis da política. E para retomar uma teoria que não está mais tão na moda, mas que pode nos servir de design político, a partidA deve ter a estrutura de um fractal para poder reproduzir-se sem limites senão os da responsabilidade e do respeito feminista. É esta estrutura fractal que devemos sustentar no que podemos chamar hoje de práticAs como face autorealizadora do que enunciamos há tempos sob a expressão “princípiAs”.

A meu ver, um chamado à responsabilidade política feminista nos obriga, neste momento, a experimentamos uma reorganização, mas apenas no contexto da auto-organização a ser preservada na microfísica do cotidiano e do poder a ser combatido na proposta do nosso movimento-partido.

Nosso objetivo como movimento que funciona como partido é mudar, nos próximos pleitos, o cenário político no que concerne à participação das mulheres e ao lugar do feminismo. Acreditamos que é o feminismo como movimento de politização crítica das mulheres que pede passagem como ação transformadora. Por isso, é preciso investir todos os nossos esforços em formação, filiação, candidaturas, campanhas políticas e eleições. Isso pode se dar nos mais diversos âmbitos das politicas comunitárias, universitárias, estudantis, partidárias e públicas. Em 2017 e 2018 precisamos convocar campanhas de filiação enquanto protagonizamos as nossas personagens políticas para podermos candidatar e eleger feministas em 2018 e nos anos vindouros.

Nosso movimento-partido tem como função histórica causar efeitos concretos de desmontagem no poder tradicional estabelecido. Somos, nesse sentido, um movimento teórico e prático, mas eminentemente pragmático. Não é nossa função atuar em esferas nas quais atuam outros movimentos, ainda que haja momentos excepcionais. Nossa função é empoderar e protagonizar feministas para a participação no poder com o objetivo de transformá-lo em uma direção democrática feminista.

Todas as nossas estratégias e táticas devem se desenvolver nessa direção evitando distrações e descaminhos que possam comprometer o movimento e sua qualidade ativista-partidária. Por isso, quando muitas de nós se perguntam “que feminismo?” ou “qual feminismo?” devemos promover, é necessário responder com a pluralidade. Precisamos manter a pluralidade das perspectivas, fazendo do dissenso uma sabedoria política para além de disputas sofísticas. Nossa ético-política feminista pretende construir a democracia feminista com ativistas feministas das mais diversas tendências e ajudar lideranças de todas as gerações a ocuparem o poder contra qualquer arrivismo. Escapamos assim de transformar o feminismo em uma ideologia substitutiva do machismo em política.

Desejamos o feminismo como antissistema feito de feminismos em dissenso, desejamos o feminismo como forma ético-política na qual o singular e o coletivo, a teoria e a prática definem potências concretas de transformação social. Nosso movimento quer transformar o poder. Não desejamos o poder pelo poder típico da estrutural social anticomunitária machista. O feminismo dialógico visa à transformação do todo social caracterizado pelo patriarcalismo capitalista e racista.

Isso só se dará em nosso momento histórico se promovermos essa mudança concreta e ao mesmo tempo simbólica que implica que as feministas estejam no poder. Ocupar, por meio da filiação, da candidatura, da campanha, e, por fim, da eleição, todos os partidos de esquerda, é o vetor que firma nosso movimento no chão contra qualquer idealização machista que tem esfacelado a esquerda até agora.

Por isso, feministas do Brasil, com dignidade e coragem, ocupemos os espaços de poder!

Pois todas sabemos que a revolução será feminista ou não será.

Marcia Tiburi, professora de filosofia

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