Discriminação, Invisibilidade, Mulher Negra, Mulheres com Deficiência, Mulheres Trans, PartidAs

Comissão da Mulher do IAB: um marco

Deborah Prates*

A mulher com deficiência está construindo uma história de inclusão no Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB). Sou a única pessoa com deficiência a integrar seus quadros em 174 anos de existência. E no último abril tive a honra de ser nomeada presidente da sua Comissão da Mulher.

Senti uma inenarrável emoção pela confiança em mim depositada, principalmente por tratar-se de uma comissão que não é exclusiva das pessoas com deficiência (PCD).

Sempre sonhei derrubar o cruel gaveteiro, figurativamente construído pela preconceituosa sociedade. Em cada gaveta encontrava-se um seguimento populacional: pessoas com deficiência, negros, mulheres, idosos, crianças, refugiados, nordestinos, humanos em situação de rua, etc. Com a Comissão da Mulher esse móvel veio abaixo. E que maravilha, essa bagunça humanitária! Desse marco para a frente, veremos todo mundo junto e misturado.

Na nossa proposta de fala e escuta, pretendo dar voz a todas as mulheres que, comumente, são excluídas das rodas de conversas. Assim, nos eventos da Comissão da Mulher do IAB, obrigatoriamente, deverão haver várias representações de mulheres que, em tese, ainda estão sem voz.

No dia 30 de maio, por exemplo, foi realizado o primeiro evento, intitulado “O mercado de trabalho para a mulher brasileira nos tempos atuais”. Além das mulheres brancas, privilegiadas, tive a felicidade de contar com três palestras de mulheres sempre esquecidas pela sociedade.

A advogada Maria Eduarda Aguiar relatou os percalços enfrentados pela mulher transexual, enfatizando “a invisibilidade, ocasionada pelo machismo estrutural e cultural, o abandono familiar, a falta de capacitação ocasionada pela prematura evasão escolar.” Esclareceu que “5% das mulheres transexuais conseguem um emprego formal e 90% estão na informalidade e ou prostituição, tendo que brigar pelo respectivo nome social.”

A presença da advogada negra Ana Carolina Lima, por sua vez, trouxe a consciência de que “não é tarefa fácil transformar o olhar social para com a mulher negra, antes vista como serviçal.” Assim, ter conquistado o título de doutora não foi tarefa fácil. Aduziu que “há ainda muitos olhares de estranhamento no meio jurídico, ora por ser mulher e, ainda mulher negra.”

Eu falei sobre a ausência de oportunidades para a mulher com deficiência. Lembrei que, enquanto as mulheres sem deficiência estão dando os primeiros passos rumo à igualdade de gênero, as mulheres com deficiência ainda estão em fase gestacional.

Até agora, o modelo social das deficiências está na figura do homem branco, adulto, heterossexual e com lesão medular, focado no contexto americano de 1948. Assim, as mulheres com deficiência, simbolicamente, têm valor social menor que homens sem e com deficiência e, também, menor valor que as mulheres sem deficiência. Logo, o mercado de trabalho para elas está absurdamente fechado.

A ideia de boa aparência, afinal, imposta pelo capitalismo, repele todo corpo que não caiba na fôrma da indústria da moda. O ser que habita um corpo diferente está fora! Fora da vida… Além disso, a educação para essas pessoas é muito precária, ante a ausência de todo tipo de acessibilidade – o que lhes retira bem mais as chances de trabalho.

É preciso reconhecer, ainda, que a lei de cotas – que já existe há 26 anos – não pegou. Em 2016, mesmo com a vigência da LBI (Lei Brasileira de Inclusão) o TST pacificou o entendimento de que, por ausência de capacitação das PCD, as empresas não podem ser punidas por não preencher as cotas. Absurdo! Afinal, também é da sociedade (empresas cidadãs) a obrigação de capacitação das PCD.

Regentes republicanos, no sentido lato sensu, é o que nos falta. Com a república, afinal, vêm a responsabilidade e a responsabilização. A democracia precisa ser temperada com a república! Ah, se tivéssemos esta consciência, que maravilha viver!

O Poder Judiciário, no entanto, dá o mau exemplo à sociedade. Prova disso está na imposição de um PJe (Processo Judicial eletrônico) inacessível, o que baniu as advogadas cegas da advocacia. A ata de reunião do CNJ de número 40, de 12 de setembro de 2013, comprova a intenção de EXCLUIR do trabalho esse seguimento quando registra para a eternidade: “(…) que, como há a possibilidade de capacitar idosos, mas não de melhorar a visão dos deficientes, devemos atender os demais.” Diante dessa desumanidade do CNJ, como exigir da sociedade que reconheça a competência das PCD para o mercado de trabalho?

Apesar desses problemas, nossa! Como o público se interessou em conhecer essas escondidas informações! De fato, é o diálogo o melhor caminho para as necessárias transformações. Aquele nosso primeiro evento ressignificou tantas ultrapassadas convicções. São com esses pequenos e contínuos exercícios de acessibilidade atitudinal, que não custam dinheiro, que transformaremos este Brasil tão desigual. Tiramos os presentes do piloto automático.

Agora, já estou trabalhando no projeto do próximo evento, intitulado “O preconceito contra as mulheres positivas e as infecções sexualmente transmissíveis”. Essas mulheres, insensatamente, são deixadas à margem da sociedade. Grande parte dos seres humanos sequer as cumprimentam pegando-lhes nas mãos – e, quando o fazem, correm para lavá-las com medo de contrair HIV, o vírus causador da AIDS. Essas companheiras, portanto, especialmente nesse momento tão conturbado de suas vidas, necessitam de muita sororidade! Precisamos ouvir as vozes dessas mulheres e de tantas mais que não conseguem ser escutadas.

Mediante a breve exposição acima, fica certo que o diferencial da Comissão da Mulher do IAB será a inclusão de todas as mulheres normalmente excluídas pelas suas pares e pela sociedade.

Um coro. Um coro a capella. Sim. Quanta felicidade será ouvir todas as mulheres, em simultâneo e de modo coordenado, cantarem a mesma canção. Sem maestrina e sem hierarquia. Uau! Vozes com diferentes registos ou timbres interpretando a mesma canção. A canção da partidA! Da vida! Meus olhos cegos veem o letreiro anunciando: as partidAs apresentam a obra musical Flores da Sororidade! Delícia.

O amor a si própria e ao próximo é um exercício diário.


 

Advogada, presidente da Comissão da Mulher do IAB,  integra a Comissão da Pessoa com Deficiência do Conselho Federal da OAB e é feminista integrante do Foto Deborah Prates para publ texto Partidacoletivo PartidA.

 

 

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Branquitude para além do incômodo

Schuma Schumaher*

    (Texto apresentado no evento Feminismo, Racismo, Branquitude: opressão e privilégios”, em 20 de maio de 2017, no Rio de Janeiro, dentro da série “Diálogos Feministas” da Escola com #partidA)

Meus cumprimentos à #partidA por ter dado início a um de seus propósitos mais contundentes, que é a formação continuada de nós mulheres.

Agradecimento especial à Vilma Piedade, cujo desafiante convite aceitei de maneira inconsequente, uma vez que não sou estudiosa do tema, não sou da academia e só fiz doutorado na escola da vida. Portanto, é do lugar de ativista feminista branca que farei meus comentários a respeito do tema.

Confesso que passei duas semanas pensando sobre meu lugar neste mundo heteronormativo, patriarcal e racista. Pensando quando é que me descobri branca – e, portanto, independente da classe social, portadora de privilégios sedimentados por uma sociedade colonialista e forjada na superioridade racial branca.

Um filme rodou na minha cabeça por vários dias… Me lembrei das companheiras negras que de maneira ousada enfrentavam cotidianamente o “descompromisso” do feminismo com a questão racial. Quantas vezes, insistentemente, elas nos lembravam que as propaladas irmandade, sororidade, busca por igualdade – que colocavam as mulheres no mesmo barco – não era inclusiva, pois mesmo entre nós mulheres, a desigualdade de raça, de classe e de orientação sexual (estruturante das relações sociais) era latente e continua a ser um desafio a ser superado.

Venho do feminismo da década de 1970… Do ponto de vista da ação concreta, o chamado movimento feminista brasileiro, nessa época (década de 70/80) esteve marcado pela luta em prol da redemocratização, busca por direitos de cidadania e igualdade. Embora as organizações feministas contassem com aliados em algumas esferas, no conjunto, o movimento abrigava mulheres de tendências políticas diferentes, que buscavam total autonomia em relação aos partidos. Os vários grupos defendiam, prioritariamente, a ampliação da cidadania e o direito à sexualidade, e aspiravam afirmar a identidade das mulheres, diferenciando-a das visões que pretendiam sobrepor as lutas gerais da sociedade à especificidade da condição feminina.

Essa multiplicidade de formas organizativas do feminismo, principalmente a partir dos anos 1980, vai ganhando novos contornos e incorporando outros segmentos com realidades específicas, como os grupos de mulheres negras, lésbicas, trabalhadoras urbanas e rurais, prostitutas, empresárias, produtoras culturais, educadoras populares. A participação das mulheres negras nesses espaços cresce vertiginosamente contribuindo para uma efetiva compreensão da diversidade cultural e política, existente no movimento de mulheres brasileiras e, consequentemente suas diferentes realidades, necessidades e reivindicações.  Neste espírito, deve-se ressaltar o fato do XII Encontro Nacional Feminista: Gênero com diversidade no país da exclusão, realizado em Salvador, em 1997, ter particularmente demarcado esse desafio, que é um desafio requerido por inúmeras militantes negras.

É importante mencionar que essa trajetória de crescimento e enegrecimento do feminismo contou com o espírito instigador e o pioneirismo de várias feministas e ativistas negras: Maria Beatriz Nascimento, Lélia Gonzalez, Luiza Bairros (aonde quer que estejam), Nilza Iraci, Sueli Carneiro, Alzira Rufino, Vania Santana, Adélia Azevedo, Joana Angélica, Pedrina de Deus, Thereza Santos, Deise Benedito, Vanda Menezes, Diva Moreira, Zélia Amador de Deus, Helena Theodoro, Dulce Pereira, Cristina Guimarães, Jurema Werneck, Alda Cota, Heliana Emetério, Glaucia Matos, Silvia Cantanhede, Cida Bento, Maria Lucia da Silva, Vera Araújo, Matilde Ribeiro, Terezinha Bairros, Regina Adami, Graça Santos, Joselina da Silva, Neuza das Dores, Abigail Pascoa, Durica, Vera Baroni, Nilma Bentes, Elizabeth Viana, Rosália Lemos, Regina Coeli, Lucia Xavier, Vilma Piedade entre muitas outras foram, sem dúvida, as protagonistas que iluminaram esse novo caminho.

Venho desse feminismo… Venho de um feminismo que não se apercebia excludente, que incorporava muito timidamente (quer no discurso, quer na prática) o enfrentamento ao racismo. A tensão e os conflitos não foram poucos. Mas valeu a pena. Foram as mulheres negras, as feministas negras que enegreceram o pensamento e a ação do que chamamos hoje de movimento feminista brasileiro.

E eu, uma branquela na cor e no nome, fui ficando mais atenta, mais sensível, despertando para uma consciência crítica e incomodada com a tragédia do racismo. Mas incômodo não era o suficiente para me livrar do privilégio de ser branca. Como desnaturalizar o que parecia natural desde que eu me entendia por gente? Como ter consciência de que, muitas vezes, eu mesma, era beneficiária do racismo? Como ter consciência crítica dessa violência? Como ser solidária com a dor do outro/a? Como determinar a dor que não sentimos? Como descrever, intensificar, medir, aquilo que a/o outra sente?

E assim, mergulhada na inquietude, fui ler, passei a ouvir com mais atenção, me aproximar da luta das mulheres negras e conviver mais de perto com elas. Meu primeiro sentimento é de que eu não queria ser racista. Nenhuma vez, em nenhum momento, nunca! E assim começa outra etapa da minha vida. Minha luta no feminismo incorporou definitivamente o enfretamento ao racismo, ainda que de maneira enviesada, pois não tinha a dimensão do sistema de valores e comportamentos que a branquitude compreendia e disseminava. Nesse sistema racista posso não ser a algoz, mas jamais serei o alvo.

O Projeto Mulher 500 anos atrás dos panos, lançado pela Redeh – Rede de Desenvolvimento Humano, em 1997, vem nesses vinte anos de pesquisa priorizando o resgate da trajetória das mulheres brasileiras. A pesquisa nos levou a revisitar o passado em busca de informações que ajudassem a revelar o papel desempenhado pelas mulheres negras no palco da história. Nesse percurso, nos deparamos com informações contraditórias e fragmentadas pela parcialidade, por condicionamentos culturais, pelas distorções daqueles/as que registraram os fatos e ajudaram promover a ambiguidade da história das relações raciais no Brasil. Constatamos que, ao mesmo tempo em que as negras foram atingidas pelo sexismo e racismo, também foram excluídas dos benefícios da vida social por aqueles que consumiam as religiões de matrizes africanas, a música, o gingado, a comida, as festas, entre tantas outras contribuições por elas orquestradas.

Diante de tantas violências, negações, ausências e invisibilidade, resolvemos contribuir para tirar das entrelinhas e dos pés de página da história as trajetórias de mulheres negras que também participaram da construção desse país. E assim, em 2008, corajosamente lançamos o livro Mulheres Negras do Brasil (de minha autoria com Érico Vital Brazil – Editora Senac). Como disse a filósofa Sueli Carneiro, “vocês não tinham a menor ideia que era impossível fazê-lo, portanto foram lá e fizeram”. Pesquisar, escrever e produzir o livro Mulheres Negras do Brasil foi a experiência mais difícil da minha vida. Foi mergulhar todos os dias, durante 5 anos, no mundo do colonizador branco, tirando do anonimato aquelas que deixaram seus legados de lutas e resistências às futuras gerações, sem querer ocupar um lugar de fala que eu sabia não ser meu.

Saí viva dessa experiência, mas não inteira… E até hoje estou buscando um lugar menos incômodo para lidar com a branquitude. Em posição de privilégio fica difícil saber com veracidade ou entender se há mudanças na opressão. Se elas continuam existindo, em que medida houve melhorias para a população negra no acesso à cidadania por inteiro. É comum ouvir de um privilegiado, “Ah, mas as coisas estão melhorando!”. E no entanto, com que propriedade eu, branca, posso afirmar isso?

Assim, ao adotar a determinação acadêmica de branquitude (no sentido de vivência dos benefícios e privilégios proporcionada a uma população tida como branca), devemos ter em mente que ela pode ser silenciosamente aceita, às vezes enaltecida e outras tantas reforçada (sendo, nesses casos, uma branquitude acrítica), ou refutada e condenada publicamente (sendo, nesses casos, uma branquitude crítica).

Nesse sentido, destaco as observações de Liv Sovik (2009): “no debate sobre racismo brasileiro, reitera-se que a diferença racial não tem fundamento biológico. Mas a existência desse fundamento, mesmo fantasioso, está tão presente na sociedade que sua falta de embasamento científico acaba sendo irrelevante”.  De acordo com Lia Vainer Shucman (2012), ainda, “a branquitude é uma construção sociohistórica produzida pela ideia falaciosa de superioridade racial branca”.

Outra observação arguta sobre o assunto vem da ativista e estudiosa negra Maria Aparecida Silva Bento (2002): “Ao discutir sobre racismo, as pessoas brancas consideradas progressistas e críticas do racismo, em geral, abordam a questão como uma opressão que ‘existe na sociedade’, e não em algo que as envolva diretamente, ou que envolva a instituição da qual fazem parte”. E, no entanto, nas palavras de Cida Bento, “os impactos do racismo se manifestam de modo diverso na vida de negros e brancos, não sendo incomum a tendência a fugir ou esquecer a condição de discriminado e de discriminador”.

Há quase um século atrás, Du Bois (primeiro afro-americano a receber um título de doutor em Harvard) foi que anteviu a palavra branquitude, em 1935 (no livro Black Reconstrution in the United States). Du Bois, em seu livro, demonstra como a classe trabalhadora branca aceita o racismo para se valer dos benefícios.  Para ele, “essa aceitação não somente gera benefícios, mas se compadece [do racismo] e se torna cúmplice da [sua] ação”.

Já a norte-americana Ruth Frankenburg trabalha com o conceito de branquitude como sendo “um lugar estrutural de onde o sujeito branco vê os outros e a si mesmo; uma posição de poder não nomeada, vivenciada em uma geografia social de raça como um lugar confortável e do qual se pode atribuir ao outro aquilo que não atribui a si mesmo”.

Portanto, falar de forma analítica a partir de uma posição de conforto deveria por definição abranger a consciência das minhas limitações, ou de qualquer interlocutor branco. Não pelo reconhecimento do inaceitável, mas por compreender não ser o alvo da ação em que o racismo prioritariamente reincide. Assim, o máximo que se pode falar em termos de experiência de branquitude crítica (aparente não aceitação dos privilégios) são das impressões – não da dor provocada pelo racismo. Aqui reside a complexidade da questão.

Sendo a branquitude uma zona de conforto, um lugar constante de privilégio social, material ou simbólico, que restringe o acesso do outro, devemos ter sempre muito cuidado para não cair na tentativa de uma isenção de culpabilidade a quem goza dos benefícios. Nesse contexto, a branquitude crítica deve ser não apenas o reconhecimento e a objeção ao privilégio, mas também da ilegitimidade/incapacidade representativa e de apropriação. Somente a crítica não nos tira do lugar em que a sociedade eurocêntrica nos colocou! E assim, neste contexto secular de segregações, o esforço de mudança passa pela adesão social. E, nesse sentido, o feminismo que se propõe interseccional tem o dever de abraçar a luta antirracista e denunciar a cultura falaciosa da cordialidade que limita a cidadania negra e mantém a desigualdade.

Termino deixando aqui, entre tantas dúvidas, algumas indagações para o debate:

– Quais ações, atitudes, interesses e renúncias seriam indispensáveis para superar as mazelas da desigualdade e reparar a dívida histórica que temos com a população negra?

 – Que atitude, dedicação e esforço precisam ser feitos para que um (a) privilegiado (a) saia da zona de conforto e se torne um/a ativista da causa?

É hora de confrontar o irracional, de pactuar com a verdade, de desvelar o que está sendo velado. É hora de sororidade política e afetiva porque, como afirma Vilma Piedade, “a dororidade quer falar das sombras. Da fala silenciada, dentro e fora de Nós. Da dor causada pelo Racismo. E essa Dor é Preta”.

Muito mais do que medidas paliativas, são as mudanças estruturais e culturais que devemos perseguir e com as quais devemos nos comprometer. E que possamos, para além de sentir o incômodo, abrir mão dos privilégios que a branquitude nos garante.

  

Referências Bibliográficas

BARBOSA, Mariana. Querida Pessoa Branca. Blogueiras Negras. [S.l: s.n.]. Disponível em: <http://blogueirasnegras.org/2016/01/05/querida-pessoa-branca/&gt;. Acesso em: 13 jun. 2017.

BENTO, Maria Aparecida. Branquitude: lado oculto do discurso sobre o negro. In: Psicologia social do racismo – estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil / CARONE, Iray & BENTO, Maria Aparecida (Organizadoras). Rio de Janeiro: Vozes, 2002, p. 147-162.

CARDOSO, Lourenço.Branquitude acrítica e crítica: a supremacia racial e o branco anti-racista”. Revista Latino Americana de Ciências Sociais, vol. 08, nº01, maio-junho, 2010.

DU BOIS, W. E. B. Black reconstruction in America. Tradução . 1. ed. [S.l.]: Oxford University Press, 2014.

DUARTE, Leopoldo. Dor Negra, Bem-Estar BrancoGeledés.org.br. [S.l: s.n., 2015. Disponível em: <http://www.revistaforum.com.br/osentendidos/2015/10/12/dor-negra-bem-estar-branco/&gt;. Acesso em: 13 jun. 2017.

FRANKENBURG, Ruth. White Women, Race Matters: The Social Construction of Whiteness. Taylor & Francis, 1993.

JUNIOR, Adauto Garcia de Jesus. Estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-82712003000200014>, Acesso em: 13 jun. 2017.

KILOMBA, Grada. Plantation memories. Tradução . 1. ed. [S.l: s.n.], [S.d.]. p. 1

Lélia Gonzalez Sobre o FeminismoBlogueiras Negras. [S.l: s.n.]. Disponível em: <http://blogueirasnegras.org/2013/07/10/lelia-gonzalez-19-anos/&gt;. Acesso em: 13 jun. 2017.

SANTIAGO, Larissa. Dear White People: Revejam Seus Privilégios. Blogueiras Negras. [S.l: s.n.]. Disponível em: <http://blogueirasnegras.org/2015/10/30/dear-white-people-revejam-seus-privilegios/&gt;. Acesso em: 13 jun. 2017.

SANTIAGO, Larissa. Discutir Branquitude: o calo que me dói. Blogueiras Negras. [S.l: s.n.]. Disponível em: <http://blogueirasnegras.org/2013/08/08/discutir-branquitude-o-calo-que-me-doi/&gt;. Acesso em: 13 jun. 2017.

SCHUCMAN, Lia Vainer. Entre o “encardido”, o “branco” e o “branquíssimo”: Raça, hierarquia e poder na construção da branquitude paulistana. Tese de Doutorado apresentada ao Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, 2012.

PROF. JOMO. Sobre Racismo e Suas Múltiplas Manifestações. Geledés. [S.l: s.n.]. Disponível em: <http://www.geledes.org.br/sobre-racismo-e-suas-multiplas-manifestacoes/&gt;. Acesso em: 13 jun. 2017.

SOVIK, Liv. Aqui ninguém é branco. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2012.


* Schuma Schumaher é pedagoga e ativista feminista brasileira. Como coordenadora executiva da ONG Rede de Desenvolvimento Humano (Redeh), implementou o Projeto Mulher 500 anos atrás dos panos que produziu, entre outras obras, o Dicionário Mulheres do Brasil, Um Rio de Mulheres e Mulheres Negras do Brasil (prêmio Jabuti 2008).

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QUEM BUSCA A DEMOCRACIA NÃO ADMITE CENSURA

Áurea Carolina*

No dia em que a liberdade de imprensa é celebrada no Brasil (7 de junho), temos pouco a comemorar. Prova disso é a censura que sofri nesta semana na coluna semanal que ocupo desde o dia 8 de março no Hoje em Dia, jornal impresso com circulação no estado de Minas Gerais. O artigo que seria publicado essa segunda-feira não saiu do papel. O jornal alegou haver conflito de interesse em relação ao seu conteúdo e, por isso, minha fala foi cerceada.

O artigo falava sobre o “Ocupa Predinho”, movimento organizado por ex-funcionários do próprio jornal que reivindicavam o pagamento de seus direitos trabalhistas e de salários atrasados há mais de um ano. Com o apoio de coletivos parceiros, eles ocuparam a antiga sede do jornal, no bairro Santa Efigênia, na última quinta-feira, dia 1º de junho. O tal “predinho” acabava de ser denunciado na delação de Joesley Batista, dono da JBS, que disse ter comprado o imóvel como parte de uma negociação para repassar dinheiro ao ex-senador Aécio Neves. Na delação, Joesley afirmou ter comprado o imóvel superfaturado por 17 milhões de reais.

Sabemos que a mídia democrática está longe de ser uma realidade. Minas Gerais há muito vive sob o assombro da censura. Andrea Neves, a irmã do senador afastado Aécio Neves (PSDB), presa devido ao seu envolvimento em esquemas de corrupção, é uma conhecida articuladora da mordaça em Minas Gerais.

O cenário é o mesmo em todo o país. Prova disso é a atuação do presidente golpista Michel Temer, que tem agido desesperadamente para impedir a democratização da comunicação. Em março deste ano, Temer sancionou uma lei que flexibiliza as concessões de rádio e televisão, excluindo do texto a necessidade de atendimento “ao interesse público”, previsto no Código Brasileiro de Telecomunicações de 1962. Com essa atitude, o presidente golpista vem rifando as concessões de rádio e TV no nosso país.

Em tempos de golpe, a democratização da comunicação parece um sonho, mas nada vai nos deter. É importante que todas as pessoas tenham o direito à liberdade de expressão preservado e que ninguém se sinta tolhida ou ameaçada por expressar de forma legítima e pacífica as suas posições políticas. Não há censura que vá nos calar.

A corrupção se dá em todos os níveis e em BH a gente vê isso acontecer também na imprensa, que opera segundo interesses econômicos e políticos. O “Ocupa Predinho” diz de um novo marco de luta por direitos sociais, em tempos tão terríveis de redução das garantias democráticas, em que a maioria da população sofre com o desmonte das políticas sociais e da Constituição Federal de 1988.

A forma como o jornal Hoje em Dia cerceou a minha fala em apoio às trabalhadoras e trabalhadores que legitimamente reivindicam os seus direitos não pode ser fato corriqueiro. Em uma sociedade que busca a democracia como horizonte para todas as pessoas é inaceitável que esse tipo de censura aconteça.

 

*Por Áurea Carolina, é cientista política, educadora popular e ativista de movimentos feministas, negros, juvenis e da cidade. Foi eleita vereadora pelo PSOL em Belo Horizonte e é ativista da PartidA – BH.

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