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Bola na trave: novos tempos, velhas práticas!

Liliane Brum Ribeiro Antropóloga e ativista feminista da partidA.

Dia 11 de dezembro de 2016, comandadas pela técnica Emily Lima, as meninas de nossa seleção brasileira de futebol dão um espetáculo ao golear a Russia por 4 X 0. Esse fato, tão comemorado no gramado pelas atletas, pela arquibancada e torcida, revestiu-se de tenebrosa cobertura pela mídia local, quando o Jornal Manaus Hoje resolveu colocar como manchete do feito: “Mulheres dão de quatro”, num trocadilho que expos o machismo que violenta diariamente meninas e mulheres no Brasil, desrespeitando nossas atletas e, simbolicamente, todas as mulheres.

Relatos não nos faltariam para ilustrar as constantes agressões que elas sofrem nesse esporte desde quando começam a se aventurar pelos gramados. Assédios de todos os tipos, mas principalmente o sexual e, muitas vezes, protagonizado pelo próprio técnico ou, então, como nesse caso de Manaus, pela mídia brasileira.

O violento preconceito e machismo que envolve o futebol feminino tem uma história bastante peculiar, remetendo à sua proibição nos anos de 1940, quando muitos times femininos faziam sucesso: “… O movimento que se esboçou nesta capital, para a formação de vários quadros femininos de futebol, e que tomou corpo com o apoio que alguns jornais cariocas deram, é desses que merecem a reprovação das pessoas sensatas, já pelo espetáculo ridículo que representa a prática do “association” pelas mulheres, como também pelas razões de ordem fisiológicas, que desaconselham sumariamente um gênero de atividade tão violento, incompatível mesmo com as possibilidades do organismo feminino”. Foi com essas palavras que, em 17 de maio de 1940, a Subdivisão de Medicina Especializada do Ministério da Educação e Saúde emitiu parecer positivo à carta de José Fuzeira, cidadão brasileiro que escrevera ao então Presidente da República, Getúlio Vargas as seguintes palavras: “Que V. Ex. Snr. Presidente acuda e salve essas futuras mães, do risco de destruírem a sua preciosa saúde; e, ainda, a saúde dos futuros filhos delas… e do Brasil”.

Com isso, o processo higienista e intervencionista, que tinha como grande aliado a ciência médica – sempre autorizada a definir com bases na biologia o destino moral das mulheres -, atinge em cheio a alegre prática do futebol que elas vinham protagonizando. Não demorou muito e, em 14 de Abril de 1941, pleno Estado Novo, o Presidente Vargas publica o Decreto 3.199 que, em seu Art.54 afirmava “Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país”. Assim, muitos jornais que antes, exaltavam as aventuras futebolísticas dos times femininos que despontavam com entusiasmo pelo Brasil, começam a advogar pela boa conduta das “moçoilas” da época, que deveriam ser melhor controladas por seus pais. Para elas, restava voltarem para dentro de casa e serem as “belas, recatadas e do lar”!

E chegamos ao Século XXI, novos tempos e com velhas práticas! A revolução da nanotecnologia mudou o mundo e o feminismo já revolucionou tantas práticas, mas muito temos que fazer para conseguiu mudar o machismo que envolve nossas atletas. No país que tem o futebol como símbolo de identidade nacional, o lugar destinado às mulheres não pode ser apenas as arquibancadas, „embelezando‟ os estádios, como muitos comentaristas esportivos dizem quando se referem a elas. Arriscar-se a pisar nos gramados é para poucas e bravas guerreiras! Sem times de base para jogar, sem altos salários (e, muitas, nem ao menos um salário), sem carteira assinada pela CBF, sem carrões, sem grandiosos patrocinadores, sem reconhecimento, sem mídia construindo sua imagem, sem respeito pelo seu trabalho, sem investimentos e com muito machismo envolvido. Esse é o retrato do futebol feminino brasileiro.

As Olimpiadas do Rio 2016 nos rendem inúmeros exemplos dessa “misoginia futebolística‟. Lembro que estava assistindo uma partida da seleção feminina brasileira e o “famoso” locutor, comentando a assistência feita por jogadora brasileira e que resultou em um lindo gol, disse algo como: elas são boas de assistência, pois são capazes de encontrar rapidamente uma camisa no armário para você. Pior ainda foi o que disse outro, num post que rendeu muitos comentários no twitter e que reproduzo abaixo:

twiter

O preconceito é tão naturalizado que é possível encontrar alguém como ele, se expondo sem o mínimo senso crítico. Algo semelhante é apontado pela edição do jornal El País de 10 de agosto de 2016, na interessante matéria que analisa os 9 títulos mais machistas usados para referir-se às mulheres atletas olímpicas, nos Jogos Olímpicos do Rio, afirmando que muitos meios de comunicação se recusaram a reconhecê-las como “algo mais que um pedaço de carne”. E, nesse campo esportivo, as mulheres são, de fato, “a carne mais barata do mercado”. Entre as expressões mais usadas ao se referirem a elas encontram-se: “mulher de fulano”, “vencedora graças a seu marido”, “nada como um homem”, “idade”, “gostosa”, “linda”, “boneca”, “solteira”, entre outras tantas absurdas. Já, para eles, conforme o mesmo jornal, as palavras mais usadas foram: “rápido”, “forte” e “fantástico”, entre outros viris e atléticos. Ou seja, o preconceito dirige-se a todas e em qualquer modalidade. O futebol é apenas a ponta da lança dessa misoginia, que atinge, fere e mata sonhos de tantas que buscam seu lugar ao sol.

Aliás, durante essas Olimpíadas, ainda outro fato inusitado: enquanto os meninos, com todos os holofotes em cima, iniciaram pifiamente a competição, as meninas arrebentaram, mostrando muita garra e determinação, chegando ao ponto dos estádios gritarem em alto em bom tom, seguidos por locutores: “Marta é melhor que Neymar!!”. Reconhecimento pelo trabalho delas? De jeito nenhum! Verificou-se logo em seguida que era apenas uma forma de desqualificar o futebol masculino, pois indiretamente estavam dizendo: “ei garotos, vocês estão jogando pior que mulherzinhas”. Aos que duvidarem dessa minha afirmação, busquem referencias na mídia e na fala dos homens para ver onde colocam o futebol feminino, ou leiam a matéria do Jornal de Manaus. É suficiente para se convencerem do quanto elas são desqualificadas nesse esporte e perceberem o quanto as dificuldades encontradas por meninas (em larga maioria, negras e de origem humilde) ainda são exorbitantes.

Soma-se à luta das atletas por busca de reconhecimento, inúmeras inciativas de organizações que fortalecem o enfrentamento ao machismo, já protagonizado em diversos campos pelas feministas brasileiras desde os tenros anos do século XX. O facebook tem sido uma das principais ferramentas para romper tais barreiras, como demonstraram as campanhas de mobilização nacional lançadas por organizações feministas como o #TemMulherNaJogada, iniciativa da Rede de Desenvolvimento Humano – Redeh, em parceria com a street football Brasil – sfw e a campanha #QueroTreinarEmPaz, das ONGs Think Olga e AzMina, entre outras. Ambas se somam à luta das atletas brasileiras por igualdade e equidade no mundo dos esportes, mas também das meninas que sonham em um dia ser atletas profissionais.

O mesmo Brasil que se orgulha de ter o futebol como símbolo da paixão nacional, de seus craques espalhados pelo mundo inteiro, da classe e ginga que caracterizam o drible de seus jogadores discrimina suas jogadoras. Quando as mulheres fazem uma opção de vida pelo futebol, encontram um caminho tortuoso, tendo que driblar preconceitos de uma sociedade que teima em não enxergar que a paixão nacional por esse esporte vai muito além de um espaço reservado para que apenas os homens o ocupem. Nesse campo, a igualdade de gênero e raça ainda tem vários troféus a conquistar. Por enquanto, a bola continua batendo na trave.

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