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Um agradecimento por Dororidade

imagem: Mulher Negra, de Januz Miralles

imagem: Mulher Negra, de Januz Miralles

por Tainá de Paula*

Recentemente fui provocada a falar sobre uma heroína negra chamada Zacimba Gaba[1]. Dentre toda a história e mítica que a cerca, todo o processo de imersão sobre sua história me provocou uma longa discussão sobre o apagamento que as mulheres negras sofrem em sua historicidade e territorialidade. Afinal, quem narrou ou está disposto a narrar a história a partir de uma lente que amplie de fato as nuances da sociedade brasileira de forma respeitosa às matrizes africanas e contribuições afro-brasileiras?

Nesse sentido é importante, inicialmente, reverenciar a iniciativa de Vilma Piedade ao lançar o livro Dororidade, pois parte da luta antirracista está no esforço de resgatar ou trazer à tona as nossas narrativas. Não raro, apenas homens e mulheres brancas são colocados como intelectuais, pensadores, escritores etc, pois é assim que a estrutura de privilégio – e as imagens coletivas sociais são construídas apagando sistematicamente o nosso registro de contribuição ao espectro intelectual, como se não existíssemos. Já por isso é importante enaltecer Vilma, uma escritora negra que se afirma no corajoso exercício da escrita.

Para além de reconhecermos e apoiarmos sua coragem ao escrever, no entanto, ainda é preciso falar de Vilma, mulher de profunda ancestralidade. Nunca a vi sem torço, sua marca de mulher de axé. Sempre a ouvi publicamente reverenciando sua Oiá-Iansã e quando li os dois capítulos entitulados “Oiá-Iansã e o Poder feminino” (p. 31) e “Oiá-Iansã e o Poder Feminino na Tradição Iorubá” (p.32), fica claro o quanto é necessário enegrecer nossos feminismos e buscar novas formas de dizer e entender o próprio sentido da luta. E não há melhor forma de se dialogar com o povo de terreiro do que dialogar respeitosamente com suas referências. Nesse sentido, ler esse livro é extremamente educativo para quem tem avidez por saberes fora da lógica colonizante que ceifa todo o conhecimento não-branco.

Falar sobre o apagamento que a cultura dos povos tradicionais de matrizes africanas sofrem e fincar o termo racismo religioso, por exemplo (p.35) ao invés do termo “intolerância religiosa”, como caminho literário para falar da interseccionalidade é por si paradigmático, pois nos obriga a exercitar o que há muito Audre Lorde propunha:

Eu não posso me dar ao luxo de lutar por uma forma de opressão apenas. Não posso me permitir acreditar que ser livre de intolerância é um direito de um grupo particular. E eu não posso tomar a liberdade de escolher entre as frontes nas quais devo batalhar contra essas forças de discriminação, onde quer que elas apareçam para me destruir. E quando elas aparecem para me destruir, não demorará muito a aparecerem para destruir você.

(LORDE em “Não há Hierarquia de Opressões”)

Este é o ponto central de Dororidade, ao meu ver: existe luta verdadeiramente feminista que não pense outros pontos que permeiem raça, classe, gênero? Existe feminismo digno desse nome que exclua outras opressões? Dororidade ajuda a alinhavar esses questionamentos que pulsam nos feminismos e utiliza um novo léxico que não substitui a sororidade que, ainda que emane uma irmandade entre nós (p.17), não preenche a princípio as lacunas de nossas singularidades.

É preciso resgatar a utopia da democracia feminista à luz de todas as mulheres. Inclusive as que usam ojás e as que se embalam ao som da gira, dos tambores. E que isso se faça importante a todas. Devemos encarar de frente “a Dor e a nem sempre delícia de se saber quem é, quem somos numa sociedade mascarada pelo mito da democracia racial…” (p.18). Afinal, existe feminismo na sombra do racismo? Existirá um feminismo que não seja antirracista por essência?

E que essa utopia seja dita no pretoguês de Lélia Gonzalez, como Vilma Piedade procurou fazer (p.12), pois é nessa disrupção de uma estética, de uma métrica e de um léxico que se dará nossa revolução silenciosa. A circularidade do conceito que foi criado por Vilma (p.16) nos eleva a outro patamar da discussão sobre essa dor que nos une. Que Vilma nos brinde com sua filosofia nova. E sim! Ela faz filosofia!

Obrigada por Dororidade.

[1] Zacimba foi uma escrava que sofreu toda a sorte de violência, não se submeteu e montou seu quilombo na região de São Mateus, Espírito Santo, nos idos de 1690. Liderou homens e mulheres na construção de uma resistência livre e organizada, que atacava navios negreiros e conduzia seus irmãos até seu quilombo. Hoje é inspiração e empresta o nome para alguns coletivos que debatem negritude e gênero, e participo de um deles.

TAINÁ *Tainá de Paula é arquiteta com mestrado em Urbanismo, ativista antirracista e feminista e integra a #partidA Rio.

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Por que o discurso da Oprah me importou

75th Annual Golden Globe Awards - Press Room, Beverly Hills, USA - 07 Jan 2018

por Cristiane de Assis Macedo Alves*

Lembro da primeira vez que me vi no espelho. Fiquei tão chocada com a imagem negra e franzina que por muitos anos tentei provar, para mim e para o espelho, que aquela não era eu. Por isso mesmo, quando assisti ao discurso inflamado e ovacionado de Oprah Winfrey há uma semana, na entrega do Globo de Ouro, e a ouvi dizer das poucas referências que teve e também da importância atribuída por ela à premiação de um ator negro para a autoconstrução de sua identidade, me lembrei da menina do espelho.

Há cerca de 14 anos, minha filha se dirigiu à balconista de uma famosa rede de fast food e indagou o motivo de não ver pessoas como ela nas fotos das propagandas espalhadas pelo estabelecimento. A moça refletiu por uns segundos e, constrangida, disse: “Eu não sei”! Talvez não soubesse, talvez sim. Não importa tanto a resposta. O flagrante constrangimento garantiu que, mais importante que a resposta, foi a própria pergunta. Minha filha, aos quatro anos, estava questionando um sistema onde o racismo institucionalizado transforma o negro em um ser invisível.

A menina do espelho havia crescido cercada por parentes negros, mas ela não via. E não via porque seu universo era socialmente invisível, porque para o mundo ao redor de sua ilha familiar todo modelo de identidade era branco. Não havia negros nas novelas, filmes ou nas propagandas – exceto como escravos, quase sem fala, sem força e sem vez. Martirizados sem protestar, aguardando a intervenção salvadora de homens e mulheres brancos fortes e altruístas.

A menina da lanchonete estava, na verdade, buscando representatividade – algo que a menina do espelho não teve e tampouco esperava ter.

Observo as muitas críticas ao discurso de Oprah adjetivando-o como narcisista, oportunista e opressor. Para esses críticos, o erro de Oprah é não questionar o modelo econômico segregador que, embora lhe permita ter voz, também lhe coloca na posição mais privilegiada dentro da lógica da estratificação social.

Entretanto, para os que cresceram cercados de referências, modelos e privilégios, é fácil dizer que o discurso de Oprah foi carregado de autopromoção e crueldade.  Num mundo onde brancos estão nos melhores cargos, nas maiores instâncias, nos “lugares certos”, como fica psicologicamente aquele que cresce sem ver um semelhante que lhe mostre que ele também pode?

Talvez a retórica de Oprah fosse “meritocrática” vinda de um homem branco, mas jamais ao vir de uma mulher – menos ainda de uma mulher negra.

Representatividade faz diferença num mundo onde os afrodescendentes são menos competentes, menos bonitos, menos inteligentes, onde a história do negro não tem registros, ode se embranquece a figura historicamente reconhecida, que resume o negro a mero espectador e a negra às genitais.

Toda criança negra precisa saber que pode, que tem direito, que é competente. E precisa ser alertada de que qualquer triunfo social lhe será muito mais difícil.

O discurso de Oprah Winfrey não pode ser analisado por uma perspectiva branca. Tampouco se pode avaliar o impacto ou a importância de suas palavras analisando apenas pelo viés econômico. É óbvio que o mundo não suportaria milhões de mulheres e homens com o poder aquisitivo dessa mulher e, é claro que, mesmo com referências, muitos ainda serão medianos, o mais importante não está no ser a próxima Oprah, mas em saber que, se existem as exceções é porque alguém dificultou as regras. E, como regra, temos que saber que não somos piores, mas que nossas perspectivas foram historicamente estreitadas, e que continuarão assim se não fizermos nada.

Pela voz de Oprah, numa noite e diante do mundo todo, nós meninas e meninos, mulheres e homens negros, pudemos dizer que essa estrutura que nos sufocou e que ainda tem nos sufocado precisa urgentemente acabar.

Cristiane Assis

* Cristiane de Assis Macedo Alves é professora da Educação Básica da rede estadual de São Paulo. Formada em Geografia, tem especialização em Educação Especial com ênfase em altas habilidades e superdotação.

 

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ESTUPRO, ABORTO E DIREITOS DAS MULHERES 

foto para artigo

por Áurea Carolina*

Todas contra 33, gritamos em maio de 2016, após o estupro coletivo de uma jovem por 33 homens no Rio de Janeiro. Todas contra 18, gritamos agora.

No dia 13 de novembro, em várias cidades do país, mulheres foram às ruas contra a PEC 181/2015, aprovada dias antes por 18 homens fundamentalistas em uma comissão especial da Câmara dos Deputados, que pode tornar ilegal o aborto nos casos já previstos na legislação brasileira: estupro, risco de morte para a mãe e feto anencéfalo.

Em 12 de abril de 2012, o Supremo Tribunal Federal decidiu que grávidas de fetos sem cérebro podem optar, legalmente e com assistência médica, por interromper a gestação. Já o aborto seguro e legal nos dois outros casos está previsto no Código Penal de 1940, ou seja, há 77 anos as brasileiras podem abortar se estiverem grávidas em virtude de um estupro ou se correrem risco de morrer em função da gravidez. Por isso, “Não teremos filhos de estupradores!” foi a frase que puxou a manifestação contra a PEC 181 em Belo Horizonte, que reuniu cerca de 4 mil mulheres no centro da cidade.

Ao alertarmos para a relação da PEC 181 com o estupro, conseguimos criar um canal amplo de diálogo com mulheres que não se consideram feministas e que não se engajam em boa parte das pautas que defendemos. O horror ao estupro, infelizmente, une todas nós, mulheres de todos os credos, cores, idades, regiões e espectros políticos. As mulheres que agora leem saberão profundamente do que digo, sem a necessidade de me demorar em explicações sobre os medos, as restrições e os traumas que a cultura do estupro nos impõe. A partir desse reconhecimento, a Primavera das Mulheres renasce contra 18 homens brancos que jamais nos representarão. Contra 18 homens que nada fazem para promover políticas públicas de prevenção ao estupro e apoio às vítimas, antes pelo contrário, e que, amparados pelo golpe misógino de 2016, se sentem confortáveis em nos tirar ainda mais direitos.

A criminalização do aborto também nos atinge em massa, e por isso também deveria nos unir, por mais que tentem invisibilizar essa constatação incômoda. Afinal, uma a cada cinco mulheres no Brasil já fez aborto – é esta a conclusão da Pesquisa Nacional de Aborto 2016 (PNA), realizada pela Anis – Instituto de Bioética e pela Universidade de Brasília (UnB). Dessas, 56% são católicas e 25% são evangélicas ou protestantes. A mesma pesquisa revelou que 1.300 mulheres por dia, quase uma por minuto, arriscaram a vida no país em abortos realizados ilegalmente.

A cultura do estupro e a criminalização do aborto, ao lado do feminicídio, são a máxima expressão de uma sociedade patriarcal que alija as mulheres do direito ao próprio corpo, submetendo-nos a situações extremas de violência – sobretudo as mulheres pobres, negras, jovens, indígenas e quilombolas – e levando-nos, inclusive, à morte.

Por isso mesmo, especialmente hoje, 25 de novembro, Dia Internacional da Não Violência Contra a Mulher, precisamos tanto falar disso – e também em todos os outros.

Áurea

(* Áurea Carolina é mulher negra, cientista social, e a vereadora mais bem votada de Belo Horizonte. É filiada ao PSOL e integra a #partidA feminista.)

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Caminhando para Resistir! – sobre Racismo Religioso, Dororidade e Feminismo

*Vilma Piedade

 multidão na praia de Copa

Desde 2008, uma modificação na Lei Brasileira considera como crimes inafiançáveis invasões a templos e agressões a religiosos de qualquer credo.

A pena vai de um a três anos de detenção, sendo julgado em Varas Criminais e não mais nos Juizados Especiais.

Na nossa Tradição, como disse Mãe Beata de Iemanjá, “o corpo carrega axé!”… Carrega energia vital, energia que colocamos em movimento através da dança ritual. Nosso corpo é liberto de correntes, da culpa da tradição Judaico-Cristã. Não temos a visão dicotômica do bem e do mal. Não temos e nem criamos o demônio, o Diabo- anjo caído – esse conceito não nos pertence e nem nos representa. Logo, não vivemos com a culpa do pecado, já que não há pecado pra nós. Nosso corpo tem que estar saudável para saudarmos os Orixás! Nosso pensamento é circular, eu me reconheço no outro; eu sou porque o outro existe; eu sou porque você me reconhece – isso é UBUNTU – nosso princípio filosófico…

(PIEDADE, Vilma. O Poder Feminino na Tradição Iorubá. In: Revista LATINIDADES, 2013)

 

Mas enquanto o tempo passa e a Lei não se aplica…

A Violação de Direitos está atingindo, duramente, os Povos Tradicionais de Matriz Africana na Cidade do Rio de Janeiro, em especial as Casas de Axé situadas na Baixada Fluminense. Não é novidade que o Fundamentalismo avança a passos largos, galopantes, em todas as instâncias, travando os campos progressistas do fazer político. Então, não é estar fora da realidade pensar que em 2017, pleno século XXI, tenhamos a volta da caça às Bruxas e aos Bruxos!

Mas não estamos falando de qualquer Intolerância. De qualquer Culto. De qualquer manifestação religiosa. As práticas sagradas que estão sendo perseguidas, no Brasil, têm Cor… e é Preta… Preta. Aí… tudo que é Preto é tido ruim, nefasto – veja lá no dicionário…

A religiosidade de Matriz Africana na diáspora brasileira ressignificou símbolos, territórios. E a África, dentro de cada terreiro de Candomblé, ordenou a liturgia e resiste até hoje seguindo o caminho deixado por nossos ancestrais. Contudo, enfrentamos hoje, mais do que nunca, o desrespeito à memória de nossa ancestralidade, ao nosso Sagrado. Sagrado fundado pelas Mulheres. Mulheres de Axé. Nossas Matriarcas.  Resistência política, religiosa, cultural. As Mulheres de Axé são as pioneiras, fundantes do nosso Sagrado que está sendo depredado!

 A nossa religião, na África é comandada por homens, no Brasil se deu o inverso, porque aqui as mulheres foram as primeiras a conseguir as alforrias. Quando elas conseguiam as alforrias, elas já se tornavam comerciantes, elas vendiam jóias, vendiam mugunzá, elas vendiam acarajé, as chamadas negras vendeiras, que na Bahia, botaram o nome de mulheres do partido alto (…) então, com essas vendas, elas começaram a comprar os seus pares e também a comprar seus companheiros tanto maritalmente como companheiros da escravidão (…). A partir daí, elas conseguiam a alforria e a independência econômica  primeiro do que os homens (…) talvez tenha sido Iemanjá que deu essa força pra elas e Oxum, as Iabás certo, porque eu acredito que, como vieram pelo oceano, Iemanjá que deixou elas chegarem aqui, então eu acho que Iemanjá olhou assim e disse “Na África quem comanda são os homens, mas quem vai comandar no Brasil somos nós as mães, as mulheres”. Aí houve essa troca, as mulheres vão e formam os primeiros candomblés, porque a maioria era tudo sacerdotisa ou iniciada na religião dos antepassados dos orixás divinizados – e com a escravidão eles tinham que fazer mil peripécias, às vezes até faziam um samba, os senhores de engenho pensavam que era um samba, mas na verdade eles estavam louvando os orixás – aí essas velhas, que ficaram três famosas na Bahia foram Iyanassô, Adetá e Iyakalá. Adetá faleceu, Iyakalá voltou para a África e Iyanassô permaneceu no Engenho da Casa Branca, no Engenho Velho, em Salvador. Dessa casa matriz, aí vocês já sabem a história né, surgiram as principais casas de Salvador, que regem soberanas: o Gantois, o Afonjá e a Casa Branca…”( In: https://vixinterativa.blogspot.com.br/2015/03/mulheres-fundadoras-e-pioneiras-dos.html)

Não esqueçamos, neste momento,  que o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa nasceu exatamente por conta da marca criminosa da Intolerância, do Racismo que vitimou uma Matriarca de Axé:

21 de janeiro – Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, instituído pela Lei nº 11.635, de 27 de dezembro de 2007,  rememora o dia do falecimento da Iyalorixá Mãe Gilda, do terreiro Axé Abassá de Ogum (BA), vítima de intolerância por ser praticante de religião de matriz africana.

A sacerdotisa foi acusada de charlatanismo, sua casa atacada e pessoas da comunidade foram agredidas. Mãe Gilda faleceu no dia 21 de janeiro de 2000, vítima de infarto… (In: site SEPPIR)

O Racismo mata. Maltrata. Exclui. Sataniza. E olha que não fomos Nós que inventamos o demônio. Já fomos combatidos pela colonização. Agora, somos atacados pelo fundamentalismo. Temos muros pichados com dizeres demonizando nossa Fé. Desrespeito e discriminação no trabalho. Na rua. Nas escolas. Na vizinhança, etc… Tudo porque temos outra forma de ver o mundo cujas origens e raízes são guardadas na matriz africana. O Racismo Religioso não nos dá tréguas. Por isso precisamos Caminhar!

Por isso fizemos há poucos dias, em Copacabana/RJ, a nossa Caminhada pela Liberdade Religiosa. Fomos apelar pelo Respeito à nossa Tradição, à liberdade religiosa! (Na foto, logo abaixo, Vilma Piedade ladeada por Vanda Ferreira e Helena Theodoro).

Vilma e outras

Sabemos, no entanto, que o processo é lento… Resistência Linguística. Mulheres Negras… Dororidade… Mãe Preta. Yalorixás. Racismo. Tradição. Desconstrução. Preservação dos Nossos Valores Civilizatórios… Essa fila precisa andar mais rápido. A resistência linguística, a preservação da Língua Iorubá, também se deve às Mulheres nos Terreiros.

Nosso léxico é racista. Colonizado. Nossa língua colonizada continua alimentando o Racismo Estrutural, pai do Racismo Religioso. Posto. Legitimado por uma grande parte da sociedade que ainda acredita que as desigualdades não existem ou estão superadas. Pois bem… Deveriam acessar os dados oficiais, que demonstram exatamente o contrário.

E o que será que o Feminismo Contemporâneo tem a ver com isso? Acredito que tudo a ver.  Pois como vamos conseguir, de fato, construir um Feminismo Dialógico Interseccional se nossa história e nossos valores civilizatórios não forem incorporados nas práticas e ações do Feminismo?  Pra ser Dialógico Interseccional , o Feminismo precisa mudar ainda mais a cor, ela precisa ficar mais preta. São muitos tons de Pretas.

O Feminismo Brasileiro precisa conhecer nossa história.  Precisa falar do Racismo!  A situação das Religiões Afro-Brasileiras é a mais vulnerável frente às violações dos Direitos assegurados na Constituição , promulgada em 1988, que garante a liberdade de crença e culto (artigos 5º e 19º). E a maioria dos Terreiros é liderada por Mulheres. E aí? Por uma Democracia Feminista com o toque do tambor…com o girar das nossas saias. Por uma Democracia que inclua todas as Mulheres!

Mas vamos aos Dados:

Os números demonstram de forma inequívoca que os adeptos e Terreiros de Religiões de Matriz Africana são a maioria entre os casos denominados de “Intolerância Religiosa”. Dos 300 casos denunciados ao Disque 100, da Secretaria de Direitos Humanos, 26,19% das vítimas eram candomblecistas e 25,79% eram umbandistas. Segundo os dados da Secretaria dos Direitos Humanos (SDH), vinculada ao Ministério da Justiça, entre janeiro e setembro de 2016 (dado mais recente disponível), foram registradas 300 denúncias de Intolerância Religiosa pelo Disque 100. Na comparação com o mesmo período do ano passado, que teve 146 denúncias, foi registrado um aumento de 105%.

Contudo, é importante lembrarmos que os ataques e as perseguições são mais antigos por aqui do que possa parecer. Pra falar disso, como diria Lélia Gonzalez, vamos revisitar um pouco a História…

Registrada pelos estudiosos da História do Brasil, “A Quebra de Xangô” (ou o “Dia do Quebra”, ou ainda o “Quebra de 1912”) foi um crime hediondo de Intolerância Religiosa – daqui por diante denomino como Racismo Religioso – que aconteceu no dia 1 de fevereiro de 1912 em Maceió /AL. O ato culminou com a invasão e a destruição dos principais Terreiros de Xangô em Maceió. Todas as Casas de Culto Afro-Brasileiro existentes na região foram destruídas. Terreiros foram invadidos, objetos sagrados retirados e queimados em praça pública. Pais e Mães de Santo foram espancados. A partir daí, os adeptos, iniciados nas práticas de Culto aos Orixás, criaram o chamado Xangô Rezado Baixo. E parece que estamos caminhando nessa direção. Retrocesso.

No período de 1889-1930, era comum a polícia perseguir os Cultos das Religiões de Matriz Africana, invadindo terreiros e apreendendo objetos sagrados. E, apesar da Constituição de 1891 garantir a liberdade de crença e culto, o Código Penal de 1890 criminalizava as Casas Sagradas e tipificava as manifestações, práticas rituais, como curandeirismo, baixo espiritismo, ou charlatanismo, alegando o exercício ilegal da medicina.

Esse mesmo Código Penal, aliás,  também criminalizava a Capoeira e o Samba. Ou seja: tudo que fosse resultante da Cultura Afro-Brasileira. Se é que algum dia esse Poder, no seu lugar de privilégios,  reconheceu que produzimos Cultura, que temos Cultura. Filosofia. Tradição. Valores Civilizatórios.

Aqui, mais uma vez, as Mulheres de Axé resistiram. No Rio de janeiro, Tia Ciata é referência na preservação do Samba e dos Rituais .

Já no período da República, o Candomblé foi proibido de exercer as suas atividades e os Terreiros ficaram subjugados à Delegacia de Jogos, Entorpecentes e Lenocínio. Portanto, sempre estivemos à  margem,  e o Estado Brasileiro nunca de fato coibiu as várias manifestações de Racismo Religioso que ocorreram no País ao longo de toda a nossa história, e até os dias de hoje.

Não esqueçamos, a propósito, que a Polícia Civil do Rio de Janeiro tem em seu poder, no Museu da Criminologia, mais de 200 peças sagradas da Umbanda e Candomblé, apreendidas desde a Primeira República (1889-1930). Nessa época, as Religiões Afro-Brasileiras eram duramente perseguidas e proibidas. Entre 1945 e 1985, então, podemos constatar: o acervo religioso apreendido era classificado de forma racista e pejorativa como “Coleção de Magia Negra”.

“Coleção da Magia Negra”. Ora… se tem Magia Negra é porque existe uma Magia Branca. É isso mesmo? Olha aí o Racismo Linguístico, ideológico, alimentando a Branquitude enquanto sistema de Opressão e Privilégios. Racismo Religioso.

Nesse esquema viciado, se a Magia é Branca… é boa. Bendita. Se a Magia é Negra… é ruim. Maldita. Tá tudo na Linguagem que alimenta e retroalimenta o imaginário social no cotidiano… E, lembrando Roland Barthes… E se a Língua pode ser entendida como a arena da luta de classes… dançamos… Lá se vão 100 anos longos anos, agora, e o Estado continua mantendo esse acervo cultural e religioso sobre seu poder. Preso. No extinto Museu de Criminologia.  E ainda hoje, tem que ter uma Campanha denominada “Libertem o Nosso sagrado”, para que esses objetos possam ser destinados a outro museu. Com respeito. Reconhecimento. Tradição.

E em 2017,  mais uma vez, estão arrebentando os Terreiros de forma violenta. Estão silenciando nosso Sagrado… nosso Saber Ancestral. Essa cultura criminosa que instaura o ódio religioso se volta, de forma absurda, contra os Terreiros na Cidade do Rio de Janeiro.

Mas, como vimos, a História não aponta novidades nesse processo. O Racismo Religioso vem de longe… e acompanha nossos passos desde que nos trouxeram à força pra cá. Por isso que a fala corrente é de que o Povo Preto é Resistente. Mas chega de tanta Resistência! Essa fala referendou o crime da escravidão e mostra que a sociedade não esqueceu que fomos escravizados. E esse mesmo dizer não serviu e não serve para fazer valer nossos Direitos garantidos na Constituição Brasileira.

O Racismo Religioso, portanto, caminha com a quebra da Laicidade do Estado.  E olha que já são 100 anos para libertar o Sagrado Afro-Brasileiro. E somente em 2015 foi criada uma agência especificamente dedicada à Discriminação Religiosa, chamada Assessoria de Diversidade Religiosa e Direitos Humanos.

(*Vilma Piedade é Mulher Preta, Ativista, de Axé, e da RENAFRO. Integra a PartidA RJ e a AMB, a Articulação de Mulheres Brasileiras. E este artigo foi publicado originalmente em http://agoraequesaoelas.blogfolha.uol.com.br/2017/09/16/mulheres-de-axe-caminhando-pra-resistir/).

 

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DIZEMOS NÃO AO DISTRITÃO

temeroso

 

 

 

 

 

Marielle Franco*

Os mesmos deputados que nos últimos meses aprovaram medidas contra as trabalhadoras, e que todos os dias nos ameaçam com propostas que nos arremessam para o século passado, tentam agora mudar o sistema eleitoral em favor de si mesmos.

Tramitando a toque de caixa, o famigerado “distritão” é apoiado por Michel Temer e foi uma das principais bandeiras de Eduardo Cunha, ex -presidente da Câmara, em 2015. O modelo favorece aqueles que já estão no poder, garantindo a reeleição dos atuais deputados, especialmente dos chefes partidários. E, cereja do bolo, atravanca as possibilidades de renovação de parlamentares da Câmara. Ou seja, entra e sai eleição e continuarão as mesmas figuras.

Se hoje ainda padecemos do problema da sub-representação de minorias políticas, essa proposta, que cheira a naftalina de tão ultrapassada, desmantela de vez as possibilidades de nós, mulheres, principalmente as negras, indígenas e LGBTs, acessarmos os espaços de poder, no caso, o parlamento.

Com o “distritão”, apenas os mais votados em cada estado ou município seriam eleitos. Historicamente, eles são os famosos do mundo do entretenimento, os empresários das comunicações, os oligarcas e as famílias da política – ou seus escudeiros. Enfim, os mesmos caciques de sempre ou aqueles com capacidade de receber grandes recursos de doadores individuais para a campanha: homens brancos, empresários, especuladores, quase todos conservadores e reacionários.

Hoje, candidatos e candidatas dependem não apenas dos votos que recebem diretamente, mas dos votos do seu partido e da coligação, o quociente eleitoral. Este determina a distribuição das cadeiras no parlamento. Por isso, em alguns casos, mesmo que receba uma votação significativa, a pessoa pode não conseguir ser eleita. Por outro lado, quem não teve uma votação tão expressiva pode conseguir uma vaga graças ao desempenho do partido, garantido por uma chapa com muitos votos ou por “puxadores de voto” (aqueles que, individualmente, recebem muitos votos). Esse formato atual está longe de ser perfeito. Mas mudar para diminuir ainda mais a vaga democrática, que exige hoje mais participação e controle da população e da sociedade civil, é inaceitável!

Atualmente, o “distritão” existe em apenas quatro países do mundo – Afeganistão, Kuait, Emirados Árabes Unidos e Vanuatu -, todos bem menores que o Brasil, o que dificulta comparações. Vale mencionar o caso do Japão, que chegou a adotar o modelo no pós-guerra, mas mudou no início dos anos 1990, após o escândalo do “Recruit”. O caso revelou a corrupção estrutural do sistema.

Em 2015, milhares de mulheres, aqui no Brasil, foram às ruas para defender o direito ao aborto em caso de estupro, ameaçado por um projeto do então presidente da Câmara, Eduardo Cunha (sempre ele!). O deputado do PMDB capitaneava também a oposição ao governo de Dilma Rousseff e o esforço das elites, que sempre estiveram no poder, para manter o congresso sob o domínio deles mesmos.

Nos organizamos em iniciativas e nos encontramos nas resistências comuns pela defesa de nossos direitos. E foi essa mulherada – nas ruas, nas redes, na luta e na raça – que construiu a chamada Primavera das Mulheres e ajudou a derrubar Eduardo Cunha. Todo esse movimento causou reflexo também nas urnas, elegendo em diferentes estados mulheres negras e feministas, com votações expressivas em 2016. Enfim, nos colocamos como uma real ameaça ao status quo, ao poder patriarcal estabelecido.

Os poderosos do Brasil temem nossa força e querem asfixiar as conquistas que vieram das lutas populares, tentando estreitar as frestas democráticas existentes. Mas nós, mulheres, negras, das periferias, ponta de lança das transformações e de um mundo melhor, vamos enfrentar esse disparate autoritário. Porque nós somos potência, somos coletividade, somos capazes de transformar profundamente a política. Não nos calaremos agora diante desta tentativa de impedir o avanço de nossas lutas. Somos #MulheresContraODistritão!

* Marielle Franco é mulher negra, cria da favela da Maré e defensora dos Direitos Humanos. É socióloga e vereadora da Câmara do Rio de Janeiro pelo PSOL. Além disso, integra o movimento feminista #partidA.Marielle

(Este texto foi publicado originamente no blog feminista #AGORAÉQUESÃOELAS, em http://agoraequesaoelas.blogfolha.uol.com.br/2017/08/14/dizemos-nao-ao-distritao/)

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