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Entrevista Exclusiva: Márcia Noeli, a Delegada

 

A PartidA Feminista do Rio de Janeiro entrevistou com exclusividade a delegada Márcia Noeli Barreto, mas você sabe quem ela é? A gente te conta mais aqui!!

O Brasil passou a conhecer melhor essa mulher a partir de sua intervenção certeira para interromper o ciclo da violência a que uma mulher estava submetida, televisionado em rede nacional por um reality show de uma emissora de TV brasileira. Márcia Noeli Barreto, policial civil há 31 anos, fez de sua vida profissional uma constante intervenção em situações como essa, onde a violência contra as mulheres tenta ser naturalizada.

Márcia Noeli, que tem uma graduação em Letras e outra em Direito, adiou o início de sua carreira profissional porque atendia ao pedido de seu pai, um pernambucano tradicional, para quem as mulheres deveriam trabalhar apenas em casa. Aos 24 anos, ingressou como detetive na Polícia Civil do Rio de Janeiro, no concurso público de 1986, quando foram admitidas 300 mulheres, num total de 2.200 vagas oferecidas. Até então as mulheres na polícia civil se limitavam a poucas escrivãs, admitidas no concurso de 1983, secretárias e datilógrafas.

A entrada de Márcia Noeli na Polícia Civil em 1986 não foi à toa. No mesmo ano, em 18 de julho, foi inaugurada a primeira Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher do Estado do Rio de Janeiro, no Centro da cidade do Rio, onde Márcia ficou lotada como detetive. Em 2002, tornou-se Delegada Titular da DEAM Centro, mas passou também por outras 3 DEAMs, no cargo de Delegada. Mais tarde, assumiu a direção da Divisão de Polícia de Atendimento à Mulher, responsável pelas 14 Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher existentes hoje no estado.

As 14 Deams fazem, juntas, cerca de 35 mil registros de ocorrência de violências variadas contra mulheres, por ano. Além disso, nas 146 Delegacias Distritais existentes no estado também é possível fazer denúncias de crimes cometidos contra mulheres. Márcia reconhece que a cobertura das DEAMs ainda não contempla um grande número de municípios e que, para muitas mulheres, a polícia civil é a única referência para buscar ajuda e se proteger da violência. São os paradoxos de uma política pública que ainda está em construção.

Com anos de experiência no trato diário com mulheres sobreviventes de violência, a Delegada avalia que a DEAM é parte de uma rede de serviços de atendimento a mulheres mais complexa, desempenhando um papel de “porta de entrada” nessa rede. Em outras palavras, a partir da DEAM as mulheres deveriam poder ter acesso a outros serviços da rede, que se complementam no difícil trabalho de responsabilizar os autores da violência, mas também de promover os direitos dessa mulher violentada. Marcia ressalta que essa rede de serviços precisa de vários olhares e saberes distintos: saúde, sistema de justiça, abrigos para as mulheres ameaçadas de morte, centros especializados de atendimento à mulher, etc. Essa é uma rede que necessita de mais recursos financeiros, mas também de recursos humanos e de formação específica para a compreensão da violência de gênero.

Nessa entrevista para a PartidA Feminista Rio, vamos conhecer um pouco mais de sua trajetória de vida e trabalho, nos anos dedicados ao enfrentamento à violência contra as mulheres, mas também de sua batalha interna na Polícia Civil, pela constante legitimação e garantia de direitos das mulheres.

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Mulheres, não esperem sentadas!

Ou sobre as mulheres entre a violência e o poder

Márcia Tiburi (escritora, filósofa e ativista da PartidA)

Na equação política de Aristóteles, Pólis é a cidade-Estado e Óikos o território da casa. O primeiro é reservado aos homens e o segundo às mulheres, aos escravos e aos animais. Economia é um termo que tem na origem a palavra Óikos, do mesmo modo que política vem de pólis.

As bases da separação entre público e privado estão dadas aí e correspondem à diferença entre gêneros e classes, bem como entre cultura e natureza. No mundo da pólis se exerce a voz que leva à expressão e à partilha das ideias. Assim se constitui o reino da democracia ocupado pelos homens na ágora que é, justamente, o espaço público do encontro entre cidadãos. No espaço da casa, há o trabalho, a procriação e a sustentação organizada da vida.

Gostaria de propor algumas considerações sobre a importância dessa separação entre público e privado que coloca homens e mulheres (e escravos e animais) em mundos separados. Essa separação rege o pensamento e as práticas ético-políticas da história humana. Público e privado correspondem a mundos habitados por homens e mulheres (e escravos e animais).

Antes de seguir, devemos saber que o reino do público se define pela ordem do poder e o reino do privado pela ordem da violência.

É um fato que a violência contra as mulheres é uma constante cultural e que ela continua a crescer em todas as sociedades. A violência doméstica sempre foi assunto levantado pelas mulheres que fazem sua politização defendendo-se da violência, que vem dos homens dentro e fora de casa.

A questão da violência doméstica é até hoje uma das principais bandeiras dos movimentos feministas. A violência contra as mulheres é principalmente violência doméstica. A desigualdade do trabalho doméstico, o papel da maternidade e toda uma lógica do próprio casamento como submissão da mulher ao homem tem muito de violência. Em um tom mais radical, poderíamos até nos perguntar se a ordem doméstica não é, ela mesma, aquela que instaura as condições de possibilidade da violência doméstica. Guardemos essa hipótese que pode nos ajudar a refletir sobre a sustentação e avanço da violência doméstica. Talvez ela nos faça entender que a violência doméstica é a mesma que a violência extra-doméstica. A questão que proponho é que pensemos na intimidade conceitual e prática que há entre mulheres, vida doméstica e violência.

Ao mesmo tempo, precisamos ter em vista um dado que nos permitirá avançar em nossas considerações. É curioso que o lugar das mulheres no parlamento, nos poderes executivo e legislativo, seja hoje em dia tão pequeno e, em certos países, como o Brasil, continue a diminuir. As mulheres concernem bem mais ao mundo da violência do que ao mundo do poder, não é verdade?

A equação política continua evidente: de um lado estão as mulheres e a violência doméstica, de outro estão os homens e o poder público. A equação mostra o nexo mais profundo entre seus fatores no momento em que observamos a oposição que estrutura essa relação: enquanto a violência é “sofrida” por mulheres, o poder é “exercido” pelos homens.

Vamos deixar claro que a violência sofrida por mulheres é exercida certamente por homens, mas também por toda uma sociedade que produz esses mesmos homens como seres de privilégios contra outros seres que, não sendo homens, não teriam privilégios. Muitas mulheres que se sentem naturalmente parte do Patriarcado ajudam a confirmar a ordem vigente e a tendência dominante machista porque aproveitam alguma coisa do sistema de privilégios.

Não quero reduzir a questão da violência à questão dos privilégios, mas esse é um fator importante já que os privilégios são a forma imediata do poder, ele mesmo infinitamente mais complexo. E verdade que, de um modo geral, quem tem mais poder, tendo mais privilégios, sofre menos violência.

Vamos deixar claro que nem todos os homens exercem violência, e que alguns poucos conseguem romper com o privilégio. Há exceções a qualquer regra.

Por privilégios, entendemos as vantagens provenientes de posições sociais, políticas, econômicas, de gênero, raciais, etárias. Sabemos que o capitalismo é, ele mesmo, a versão econômica do que o machismo é em termos de gênero. Ele é um sistema de favorecimentos. Natural que no machismo elevado à Razão de Estado, como vemos no Brasil de hoje, os auto-favorecidos sejam homens e suas mulheres colocadas debaixo de jargões tais como o conhecido “bela-recatada-do lar”. Verdade que essa construção é violenta de um ponto de vista simbólico, mas quem se submete a ela não está preocupada com isso.

Evidentemente não se está sustentando que não haja violência para homens, que não haja violência entre eles e também contra eles. Certamente há opressões para todos em uma sociedade capitalista que administra privilégios e opressões de raça e classe, além de gênero e sexualidade, para todos. O que está em jogo é entender o padrão, no mínimo curioso, que implica que as mulheres estejam do lado da violência e os homens do lado do poder, que haja muita violência contra mulheres e pouco poder administrado por elas.

A quantidade e a qualidade da violência contra mulheres são atravessadas por fatores diversos. Se for verdade, como dizia Theodor Adorno, que a vítima desperta o desejo de proscrever, então, tanto mais violência sofrerá aquele que menos poder tiver. Isso nos leva a algumas considerações necessárias: 1- que há um nexo entre violência e poder que não permite confundi-los simplesmente, portanto, que poder não é simplesmente violência e que a violência não é simplesmente poder. 2 – Que onde não há poder há violência, que a violência é o que resta para aqueles que não tem poder.

Podemos considerar também que a violência é usada para evitar o poder daqueles que são marcados pela violência. Nesse sentido, uma pergunta deve ser feita por todas: haveria para os seres heterodenominados “mulheres”, alguma chance de fazerem parte da humanidade que não fosse sob o jugo daqueles que, como algozes, as heterodenominaram? É possível fazer parte da democracia quando se está ainda confinada ao lar ou às suas regras heterodefinidas? As regras do poder impostas à vida feminina – entre elas o “ficar em casa” como “bela-recatada-do lar” – não seriam simplesmente repetidas na ordem pública para auto-sustentação do poder masculino?

Nessa linha podemos nos perguntar: quando o atual presidente da República fez seu comentário infeliz no último dia 8 de março relacionando mulheres e economia doméstica num tom que transitava do desconhecimento de economia ao desconhecimento da vida das mulheres, podemos pensar que ele falava como um homem muito antigo, como um ignorante quanto à luta das mulheres por direitos, quanto à vida das mulheres como trabalhadoras, como profissionais, artistas, etc. As mulheres vivem em nossa época apenas como donas de casa na visão daquele homem antigo. Contudo, não se trata apenas disso.

Como representante do culto da ignorância machista, a fala do presidente do Golpe é estratégica. Se, de uma lado, podemos supor uma tentativa de mistificação das massas de mulheres que de fato são donas de casa, fingindo que elas são principalmente isso, que não são trabalhadoras e profissionais nas mais diversas áreas, de outro lado vemos ressurgir a velha esperança do machismo: de que as mulheres fiquem em casa a esperar sentadas, que não entrem na política, muito menos com consciência política à qual damos o nome de feminismo.

O fim da violência doméstica depende de levarmos a sério a ideia de que poder é ação conjunta e de que violência é a destruição do poder (lembremos da definição de poder e violência de Hannah Arendt), tal como tem sido perpetrada contra mulheres.

Enquanto convocamos às mulheres do mundo para que se unam à luta feminista, essas mulheres que trabalham o dia inteiro em seus empregos, realizando várias jornadas de trabalho que envolvem também suas casas como oficinas da desigualdade doméstica, podemos sugerir aos machistas que esperem sentados em seus tronos de privilégios. Eles não perdem por esperar.

Às mulheres, sugerimos que não façam o mesmo.

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Greve Internacional de Mulheres #8M – Um manifesto!

Participem todAs as mulheres!!

Quando nos perguntam por que precisamos PARAR no próximo dia 8 de março, podemos começar dizendo: PARAMOS para protestar e mostrar nossa força diante de tantas ameaças. PARAMOS porque precisamos tomar fôlego pra reencontrar nossa mais antiga e nova irmandade. E não queremos deixar nosso tempo e nossas vidas serem moídos em vão.

PARAMOS para resistir às forças conservadoras que têm mostrado suas garras no mundo todo, com a subida ao poder de homens abertamente racistas e machistas, que fecham fronteiras e quebram o mínimo que temos de sistemas de solidariedade social em nome da proteção máxima ao capital. E tratam pobres como lixo humano, e tratam imigrantes como ameaças, e tratam negros como inferiores. E tratam mulheres como mercadoria ou como seres invisíveis.

PARAMOS, porque somos mais da metade da população, e no entanto nossa voz ainda não é ouvida, ocupamos apenas 10% dos espaços de representação política no Brasil sem falar na gestão das grandes empresas e da mídia em geral. Sabemos demasiadamente bem das ameaças mais ostensivas que nos cercam. O Brasil tem a 5ª maior taxa de assassinatos de mulheres no mundo, e mal conseguimos falar em feminicídio. Os assassinatos de mulheres negras aumentaram em 54% por cento nos últimos 10 anos, e as denúncias de estupro aumentaram em 51%. Uma mulher morre a cada 9 minutos, no país, em decorrência da criminalização do aborto. Lésbicas e bissexuais sofrem sistematicamente estupros “corretivos”, e somos os vergonhosos campeões mundiais de assassinatos de transgêneros.

Estamos num país que acolhe com benevolência e mal disfarçado fascínio aqueles homens que cometem chacinas contra famílias inteiras de mulheres, assim como os que entregam nossos corpos aos cães para que nem a nossa morte nos reste mais. PARAMOS contra os efeitos desse clima de terror que nos trava cada passo que damos e a cada palavra que pronunciamos.

PARAMOS para protestar contra as ameaças violentas que nos chegam disfarçadas de discursos solenes e falsamente igualitários. Temos ouvido que mulheres devem se aposentar no mesmo tempo dos homens, embora muito do nosso tempo de trabalho dentro de casa acrescente à nossa jornada até 12 horas semanais, e estejamos tão absurda e dolorosamente sozinhas no cuidado tão necessário de nossas crianças, dos mais velhos e dos doentes. Ouvimos sempre que “tempo é dinheiro”, e tentam nos fazer esquecer do quanto o tempo é o próprio tecido das nossas vidas.

PARAMOS para gritar contra a alienação promovida pelo capitalismo que nos corta a carne e a alma e nos humilha com a sua lógica ausente de compaixão. PARAMOS para denunciar o golpe patriarcal e misógino, que tirou do poder uma presidenta legitimamente eleita. Para reafirmar que não reconhecemos o governo golpista e muito menos aceitamos suas propostas machistas, racistas, privatistas, entreguistas e que ameaçam retirar direitos duramente conquistados pelas mulheres e classe trabalhadora.

PARAMOS porque NÃO aceitamos nada disso, nenhum passo atrás. PARAMOS porque queremos somar esforços, pensar juntas, conversar, ocupar mais espaços e decidir os rumos de nossas vidas. E estamos dispostas, cada uma de nós, e todas juntas, a dar a nossa partidA abrindo caminhos para novos tempos mais justos, livres, amorosos e democráticos.

Nem Uma a Menos.

Não ao Racismo.

Não à Reforma da Previdência.

Nem um Direito a Menos.

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Quem ama não mata, 40 anos depois

Adriana Mota (socióloga, feminista e ativista da partidA)

30 de dezembro de 1976. O Brasil inteiro se prepara para a virada do ano. Em Búzios, no Estado do Rio de Janeiro, a mineira Ângela Diniz, 32 anos, é morta com três tiros no rosto e um na nuca. O assassino, Doca Street, seu namorado, enciumado e inconformado em não poder ter Ângela somente para si. Ela, uma mulher bonita e encantadora, era conhecida como a “Pantera de Minas”. O argumento usado pela defesa do autor dos disparos foi o de que ele agiu em legítima defesa de sua honra.

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No primeiro júri popular, em 1979, o réu foi condenado a dois anos de prisão, a serem cumpridos em liberdade. Na porta do Fórum em Cabo Frio, uma multidão aguardava pelo julgamento, sedenta de justiça. Qual justiça? A audiência dava apoio ao assassino expresso em gritos e cartazes: “Doca, Cabo Frio está com você”. A população entendia que Doca tinha feito algo legítimo. Afinal, Ângela era a mulher sedutora, uma “Vênus lasciva”, que enlouqueceu um homem com suas condutas e o levou ao ato extremo de matar por amor. Doca merecia ser punido ou a verdadeira culpada era Ângela?

31 de dezembro de 2016, 40 anos depois da morte de Ângela Diniz, mais um feminicídio acontece no Brasil. Dessa vez em Campinas, com 12 vítimas fatais, entre elas a ex-mulher do atirador, Isamara Filier, e seu filho, o pequeno João Victor, de oito anos. Em cartas, o assassino nomeia todas as mulheres mortas com um adjetivo comum: vadias. E ele iria matar o maior número possível delas. Foram 9 mulheres mortas na noite de Réveillon. O autor dos disparos também escreveu que amava o filho. João Victor foi sua 11a vítima. Em seguida, suicidou-se.

Nos 40 anos que separam um assassinato do outro, o que aprendemos sobre o feminicídio, crime  que tira a vida de dezenas de mulheres diariamente em nosso país? Muito pouco… Somos hoje o 5o país do mundo com mais mortes violentas de mulheres, num ranking com 84 países. Mesmo tendo altas taxas de mortes violentas de mulheres em todo o território nacional, somente em 2015 a lei do feminicídio foi sancionada, Lei 13.104. E ainda hoje há quem acredite que mulheres são as responsáveis pelos seus assassinatos, porque não agiram de forma adequada.

No caso de Ângela Diniz, o primeiro julgamento foi anulado e em 1981 houve novo julgamento, num contexto bastante diferente. Em apenas 2 anos houve uma grande mobilização dos movimentos feministas e de mulheres que não aceitaram o argumento da legítima defesa da honra e do crime passional para justificar a morte violenta de mulheres. Não era apenas por Ângela Diniz, mas por várias mulheres que estavam sendo mortas em crimes de repercussão nacional. Se a defesa dos agressores dizia que eram mortes por amor, as feministas devolviam: Quem ama não mata! Esse era o clamor das muitas vozes que se levantaram sobre o caso de Ângela Diniz no segundo júri. Essas vozes pressionaram a opinião pública e a nova condenação foi de 15 anos.

Os feminicídios de Ângela e Isamara têm alguns aspectos em comum, típicos dessa forma de crime. Um desses aspectos é o contexto de desigualdade de gênero que permeia o fato violento. Relacionamentos abusivos e violência doméstica e familiar são contextos em que essa desigualdade se expressa.  Se uma mulher morre em decorrência de um relacionamento abusivo, não há dúvidas de que se trata de um feminicídio.

Outro aspecto em comum é a reação de uma parcela da sociedade, imputando às vítimas a responsabilidade pelo ocorrido. Para isso, desqualifica-se a vítima, de todas as formas possíveis, para justificar sua morte: não eram boas esposas; não eram boas mães; mentiam; tinham comportamento sexual condenável; não deixavam os ex-maridos serem pais; eram vadias… O linchamento moral de Ângela Diniz foi tão forte que provocou a reação de Carlos Drummond de Andrade em uma crônica “Aquela moça continua sendo assassinada todos os dias e de diferentes maneiras”, disse ele.

No caso de Isamara Filier, não será possível julgar o assassino pois ele também está morto. Se houvesse um julgamento, dificilmente não haveria uma condenação justa, com pena de pelo menos 20 anos de reclusão, dada a repercussão do crime. Mas cabem algumas perguntas. A atuação do sistema de justiça é suficiente para evitar os feminicídios? O Estado brasileiro também é agente desse e de outros feminicídios ao se omitir da tarefa de dar às mulheres as condições para viver suas vidas livres de violência?

Quando não estrutura adequadamente a rede de serviços de atendimento a mulheres em situação de violência de gênero, o Estado se torna incapaz de nos oferecer as condições adequadas para vivermos em paz. Quando se exime da tarefa de concretizar uma política de enfrentamento à violência contra as mulheres que reconheça a desigualdade de gênero como um dos seus pilares, o Estado se omite em sua função. Quando refuta a educação livre de estereótipos de gênero ou proíbe a discussão sobre gênero e seus padrões de relação no ambiente escolar, o Estado abre mão da possibilidade de prevenir a violência entre homens e mulheres. Quando o Estado se omite, ele não se livra das responsabilidades, ao contrário, assume os riscos de sua omissão. Um Estado que não tem políticas públicas sólidas e sérias para enfrentar a violência contra as mulheres não é um Estado  Democrático para todos e todas.

Reconhecer que a violência contra as mulheres é uma grave questão em nossa sociedade é urgente. Ter políticas públicas que possam dar resposta à essa questão é a contra partida desse reconhecimento que ainda estamos aguardando. Desde a década de 70, o movimento de mulheres tem sido um incansável motor das políticas públicas, pressionando para que medidas sejam tomadas no sentido de prevenir, punir e erradicar a violência contra as mulheres. Alcançamos conquistas importantes, mas não atingimos os pilares da violência de gênero, que sustentam uma sociedade marcada pelo machismo e a misoginia. Se feminicídios continuarem a serem vistos como crimes de amor, é porque precisamos aprender mais sobre feminicídios. E sobre amor também.

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Violência contra a mulher rural

Helena Niemeyer

Nos últimos 30 anos, tive a oportunidade de conhecer de perto várias formas de cultura rural no Brasil. Vi mulheres fortes, submissas, poderosas, sonhadoras, dependentes e outras que simplesmente sabem qual é o seu papel no grupo que pertencem. O ponto em comum entre elas é a violência, a maioria não percebe que sofrem algum tipo de violência, pois o mais importante é a sobrevivência.

Como historiadora, devo criar limites na pesquisa para que sua eficiência se torne possível para estudos mais específicos e/ou ajudar a dar consciência às mulheres de seus direitos e informações básicas para seu crescimento como cidadã independente.

Resolvi delimitar, para meu conforto, o interior do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. Nos últimos dois anos tenho feito alguns contatos e interpretações a respeito da vida definida para mulheres nesses três Estados. Para que esse texto não se transforme num tratado, vou fugir das regras historiográficas e usar uma abordagem generalizada, que não tenho o hábito de aplicar por não ter uma interpretação realista, mas poderemos perceber um contexto repetitivo da situação da Mulher no meio Rural.

Como, no Brasil urbano, também há uma sociedade vertical e patriarcal no mundo rural, por isso vou dividir em três grupos distintos: a Mulher no Agronegócio, a Mulher na pequena e média propriedade produtora e as excluídas.

Começo pelas Excluídas, termo que agride aquelas que lutam pela causa humanitária. Esse grupo é aquele que vive do roçado, a sua produção é para a sobrevivência do grupo ou família. Quando há sobra dessa produção, ela é usada para troca de produtos ou animais, em geral cabras e galinhas. Vou nominar grupo e não família, primeiro porque não há vínculo familiar que satisfaça as regras sociais, e segundo porque o trabalho não é dividido pelo gênero, mas pelas condições de realização. Neste grupo a parceria é fundamental, não existe entre eles o fator de incapacidade, nem em relação às crianças. São equipes com funções de acordo com sua capacidade, todos cuidam de todos, pois a ausência de um vai sobrecarregar o outro. Vejo nesses grupos muito respeito, colaboração e troca de conhecimento. Se bem que eles nem sabem que agem dessa forma. Esses grupos sofrem a violência da exclusão do Estado, não só as mulheres, mas todos que estão nessas condições. A grande maioria não possui registro civil e nem usam o capital. Vivem de doações vindas de religiosos (sejam católicos, espíritas ou protestantes), como roupas, sapatos, utensílios e itens que não produzem como a cesta básica. O conhecimento cultural desse grupo é intenso, eles passam para as gerações o conhecimento de plantio assim como o das ervas medicinais que amenizam sintomas ou doenças. Não possuem conhecimento de higiene básica nem saneamento. Encontrei em alguns grupos, homens com duas mulheres e filhos convivendo em harmonia, assim como também mulheres com dois maridos e filhos, e me surpreendi quando essas mulheres sabem dizer de qual homem é o filho. Esses grupos vivem longe de qualquer centro urbano e por essa razão criam suas próprias regras de conduta, vivem em harmonia igualitária e o ponto principal é a sobrevivência.

Na questão das mulheres dos pequenos e médios produtores, a situação já é bem diferente. Essas produções dependem de uma cooperativa ou de um mercado urbano. As famílias seguem regras impostas pela sociedade urbana. Possuem registro civil e casam dentro das imposições sociais. Alguns possuem o ensino básico para suprir as necessidades dos “negócios”. O trabalho é dividido pelo gênero, o pesado fica com os homens até o momento de negociar a produção, nesse período, as mulheres acumulam os seus afazeres com a “lida” que pertence ao homem. Quando há uma queda do valor da produção, cabe à mulher diversificar para que a renda familiar não seja afetada. Por exemplo, se a produção é leiteira, cabe à mulher fabricar queijo e manteiga, o homem “negociador” só aparece para a distribuição da mercadoria. Essa família é patriarcal, e os filhos homens aprendem a “lida” e são educados pelos pais, e as meninas seguem os caminhos das mães, sendo que algumas conseguem se manter nas escolas além do tempo necessário aos meninos, mas isso em nada afeta a situação submissa dessas meninas.  As mães passam a essas meninas o sonho de uma “vida melhor”, seja através de um “bom casamento” ou um trabalho na cidade. Nem sempre isso acontece, mas essas mães tentam mudar o destino de suas filhas, pois percebem que suas vidas são sempre voltadas aos mandos do marido. A violência que estas mulheres passam vem de várias formas: social, econômica, emocional e familiar; sua situação chega a uma quase escravidão, é forte, eu sei, mas elas sofrem abusos em todos os sentidos. Quando se casam, elas acreditam que não irão ter a mesma vida que suas mães levam, e se enganam. O homem é educado para não ser parceiro da mulher, mas sim seu dono. Algumas dessas mulheres conseguem, em geral através de alguma filha que alcança uma vida urbana, sair de casa e tentar uma vida diferente da que levava. Mas as cidades são mais cruéis que os maridos. Sua mão de obra não se encaixa no mercado urbano, sua simplicidade e cultura são menosprezadas pelas pessoas que irão orbitar em sua nova vida. Essas mulheres conhecem bem o abuso que sofrem, mas ignoram seus direitos, por isso elas acabam voltando para os maridos ou vivendo como dependente de alguma filha “bem sucedida”. Para elas não existe opções, apenas a aceitação de sua condição inferior e dependente.

Agora a grande surpresa, as mulheres do agronegócio são as que mais sofrem abuso e violência. Essas mulheres tem acesso a informação, tecnologia, viagens, educação e renda no sentido de realizar seus desejos materiais. Elas são criadas para serem: lindas, cultas e elegantes gerando orgulho a seus pais quando expostas como animais premiados em eventos. Em muitos casos elas se casam por conveniência, seja unindo fortunas ou diversificando a atuação da família entre o rural com urbano ou político. Elas conhecem muito bem seus direitos e também a forma de violência que sofrem, mas aceitam pacificamente, pois um “cartão de crédito ilimitado” vale mais que a opção independente de uma vida restrita. Lembrem que esse texto é baseado na generalização da situação estudada e se situa numa porcentagem de maioria. Quando essa mulher, por algum motivo, recebe uma grande fazenda como herança ou divisão de bens, ela vai ser totalmente discriminada, a ponto de ter que colocar um administrador para que seus funcionários não precisem receber ordens de uma mulher, mesmo se ela tiver competência para gerir sua fazenda, mas nesse meio o machismo impera.

A Violência contra a Mulher é real e extremamente cruel, não importa de onde vem, se é da sociedade, da família ou do Estado, ela existe. É claro que existem exceções, casos de mulheres fortes e capazes de trilhar seu próprio destino. Mas são poucas, uma minoria que consegue sobreviver dignamente num mundo preconceituoso, machista e racista, Sua luta é diária e sem admissão de erros porque apenas dessa forma elas podem dar voz e decidir seu rumo.

Esse tema deve ser interpretado com base na micro história, ou seja, usando pequenas regiões e analisando cada caso, assim como na cidade, a mulher campesina também sofre violência, mas em certos casos elas sabem reagir e “tomar as rédeas” da situação (como elas costumam dizer).

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