Blog da partidA, Feminismo negro, Invisibilidade, Mulher Negra, PartidAs, Racismo, Religião

Um agradecimento por Dororidade

imagem: Mulher Negra, de Januz Miralles

imagem: Mulher Negra, de Januz Miralles

por Tainá de Paula*

Recentemente fui provocada a falar sobre uma heroína negra chamada Zacimba Gaba[1]. Dentre toda a história e mítica que a cerca, todo o processo de imersão sobre sua história me provocou uma longa discussão sobre o apagamento que as mulheres negras sofrem em sua historicidade e territorialidade. Afinal, quem narrou ou está disposto a narrar a história a partir de uma lente que amplie de fato as nuances da sociedade brasileira de forma respeitosa às matrizes africanas e contribuições afro-brasileiras?

Nesse sentido é importante, inicialmente, reverenciar a iniciativa de Vilma Piedade ao lançar o livro Dororidade, pois parte da luta antirracista está no esforço de resgatar ou trazer à tona as nossas narrativas. Não raro, apenas homens e mulheres brancas são colocados como intelectuais, pensadores, escritores etc, pois é assim que a estrutura de privilégio – e as imagens coletivas sociais são construídas apagando sistematicamente o nosso registro de contribuição ao espectro intelectual, como se não existíssemos. Já por isso é importante enaltecer Vilma, uma escritora negra que se afirma no corajoso exercício da escrita.

Para além de reconhecermos e apoiarmos sua coragem ao escrever, no entanto, ainda é preciso falar de Vilma, mulher de profunda ancestralidade. Nunca a vi sem torço, sua marca de mulher de axé. Sempre a ouvi publicamente reverenciando sua Oiá-Iansã e quando li os dois capítulos entitulados “Oiá-Iansã e o Poder feminino” (p. 31) e “Oiá-Iansã e o Poder Feminino na Tradição Iorubá” (p.32), fica claro o quanto é necessário enegrecer nossos feminismos e buscar novas formas de dizer e entender o próprio sentido da luta. E não há melhor forma de se dialogar com o povo de terreiro do que dialogar respeitosamente com suas referências. Nesse sentido, ler esse livro é extremamente educativo para quem tem avidez por saberes fora da lógica colonizante que ceifa todo o conhecimento não-branco.

Falar sobre o apagamento que a cultura dos povos tradicionais de matrizes africanas sofrem e fincar o termo racismo religioso, por exemplo (p.35) ao invés do termo “intolerância religiosa”, como caminho literário para falar da interseccionalidade é por si paradigmático, pois nos obriga a exercitar o que há muito Audre Lorde propunha:

Eu não posso me dar ao luxo de lutar por uma forma de opressão apenas. Não posso me permitir acreditar que ser livre de intolerância é um direito de um grupo particular. E eu não posso tomar a liberdade de escolher entre as frontes nas quais devo batalhar contra essas forças de discriminação, onde quer que elas apareçam para me destruir. E quando elas aparecem para me destruir, não demorará muito a aparecerem para destruir você.

(LORDE em “Não há Hierarquia de Opressões”)

Este é o ponto central de Dororidade, ao meu ver: existe luta verdadeiramente feminista que não pense outros pontos que permeiem raça, classe, gênero? Existe feminismo digno desse nome que exclua outras opressões? Dororidade ajuda a alinhavar esses questionamentos que pulsam nos feminismos e utiliza um novo léxico que não substitui a sororidade que, ainda que emane uma irmandade entre nós (p.17), não preenche a princípio as lacunas de nossas singularidades.

É preciso resgatar a utopia da democracia feminista à luz de todas as mulheres. Inclusive as que usam ojás e as que se embalam ao som da gira, dos tambores. E que isso se faça importante a todas. Devemos encarar de frente “a Dor e a nem sempre delícia de se saber quem é, quem somos numa sociedade mascarada pelo mito da democracia racial…” (p.18). Afinal, existe feminismo na sombra do racismo? Existirá um feminismo que não seja antirracista por essência?

E que essa utopia seja dita no pretoguês de Lélia Gonzalez, como Vilma Piedade procurou fazer (p.12), pois é nessa disrupção de uma estética, de uma métrica e de um léxico que se dará nossa revolução silenciosa. A circularidade do conceito que foi criado por Vilma (p.16) nos eleva a outro patamar da discussão sobre essa dor que nos une. Que Vilma nos brinde com sua filosofia nova. E sim! Ela faz filosofia!

Obrigada por Dororidade.

[1] Zacimba foi uma escrava que sofreu toda a sorte de violência, não se submeteu e montou seu quilombo na região de São Mateus, Espírito Santo, nos idos de 1690. Liderou homens e mulheres na construção de uma resistência livre e organizada, que atacava navios negreiros e conduzia seus irmãos até seu quilombo. Hoje é inspiração e empresta o nome para alguns coletivos que debatem negritude e gênero, e participo de um deles.

TAINÁ *Tainá de Paula é arquiteta com mestrado em Urbanismo, ativista antirracista e feminista e integra a #partidA Rio.

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Por que o discurso da Oprah me importou

75th Annual Golden Globe Awards - Press Room, Beverly Hills, USA - 07 Jan 2018

por Cristiane de Assis Macedo Alves*

Lembro da primeira vez que me vi no espelho. Fiquei tão chocada com a imagem negra e franzina que por muitos anos tentei provar, para mim e para o espelho, que aquela não era eu. Por isso mesmo, quando assisti ao discurso inflamado e ovacionado de Oprah Winfrey há uma semana, na entrega do Globo de Ouro, e a ouvi dizer das poucas referências que teve e também da importância atribuída por ela à premiação de um ator negro para a autoconstrução de sua identidade, me lembrei da menina do espelho.

Há cerca de 14 anos, minha filha se dirigiu à balconista de uma famosa rede de fast food e indagou o motivo de não ver pessoas como ela nas fotos das propagandas espalhadas pelo estabelecimento. A moça refletiu por uns segundos e, constrangida, disse: “Eu não sei”! Talvez não soubesse, talvez sim. Não importa tanto a resposta. O flagrante constrangimento garantiu que, mais importante que a resposta, foi a própria pergunta. Minha filha, aos quatro anos, estava questionando um sistema onde o racismo institucionalizado transforma o negro em um ser invisível.

A menina do espelho havia crescido cercada por parentes negros, mas ela não via. E não via porque seu universo era socialmente invisível, porque para o mundo ao redor de sua ilha familiar todo modelo de identidade era branco. Não havia negros nas novelas, filmes ou nas propagandas – exceto como escravos, quase sem fala, sem força e sem vez. Martirizados sem protestar, aguardando a intervenção salvadora de homens e mulheres brancos fortes e altruístas.

A menina da lanchonete estava, na verdade, buscando representatividade – algo que a menina do espelho não teve e tampouco esperava ter.

Observo as muitas críticas ao discurso de Oprah adjetivando-o como narcisista, oportunista e opressor. Para esses críticos, o erro de Oprah é não questionar o modelo econômico segregador que, embora lhe permita ter voz, também lhe coloca na posição mais privilegiada dentro da lógica da estratificação social.

Entretanto, para os que cresceram cercados de referências, modelos e privilégios, é fácil dizer que o discurso de Oprah foi carregado de autopromoção e crueldade.  Num mundo onde brancos estão nos melhores cargos, nas maiores instâncias, nos “lugares certos”, como fica psicologicamente aquele que cresce sem ver um semelhante que lhe mostre que ele também pode?

Talvez a retórica de Oprah fosse “meritocrática” vinda de um homem branco, mas jamais ao vir de uma mulher – menos ainda de uma mulher negra.

Representatividade faz diferença num mundo onde os afrodescendentes são menos competentes, menos bonitos, menos inteligentes, onde a história do negro não tem registros, ode se embranquece a figura historicamente reconhecida, que resume o negro a mero espectador e a negra às genitais.

Toda criança negra precisa saber que pode, que tem direito, que é competente. E precisa ser alertada de que qualquer triunfo social lhe será muito mais difícil.

O discurso de Oprah Winfrey não pode ser analisado por uma perspectiva branca. Tampouco se pode avaliar o impacto ou a importância de suas palavras analisando apenas pelo viés econômico. É óbvio que o mundo não suportaria milhões de mulheres e homens com o poder aquisitivo dessa mulher e, é claro que, mesmo com referências, muitos ainda serão medianos, o mais importante não está no ser a próxima Oprah, mas em saber que, se existem as exceções é porque alguém dificultou as regras. E, como regra, temos que saber que não somos piores, mas que nossas perspectivas foram historicamente estreitadas, e que continuarão assim se não fizermos nada.

Pela voz de Oprah, numa noite e diante do mundo todo, nós meninas e meninos, mulheres e homens negros, pudemos dizer que essa estrutura que nos sufocou e que ainda tem nos sufocado precisa urgentemente acabar.

Cristiane Assis

* Cristiane de Assis Macedo Alves é professora da Educação Básica da rede estadual de São Paulo. Formada em Geografia, tem especialização em Educação Especial com ênfase em altas habilidades e superdotação.

 

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O que está por trás da PEC 181/2015? 

HOJE

por Heloisa Melino e Luiza Barbosa*

A Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 181/2015, de autoria do senador Aécio Neves (PSDB-MG), se propôs a aumentar a licença-maternidade em caso de nascimento prematuro de bebês. Os dias que o bebê tiver que ficar no hospital, serão adicionados a mais aos 120/180 dias que já são assegurados por lei, porém, não excedendo o prazo de 240 dias.

Seria esta a alteração:

“Art. 1º O inciso XVIII, do art. 7º da Constituição Federal, passa a vigorar com a seguinte redação: “Art. 7º(…)16 XVIII – licença à gestante, sem prejuízo do emprego e do salário, com a duração de cento e vinte dias, estendendo-se, em caso de nascimento prematuro, à quantidade de dias que o recém-nascido passar internado, não podendo a licença exceder a duzentos e quarenta dias.”

Até aí, essa PEC parecia ser apenas um benefício para as gestantes.

Porém, as PECs, depois de propostas, tem que tramitar e ser discutidas em diversas comissões dentro da câmara, até receberem, por fim, um parecer para que sejam votadas na câmara dos deputados, em dois turnos, e depois no senado, em dois turnos, para aí sim, serem aprovadas. E, durante essa tramitação, estão sujeitas a alterações, substitutivas ou excludentes, ou a serem engavetadas.

Raparem que esse processo legislativo é diferente do processo legislativo ordinário (comum), que é o dos Projetos de Leis (PL), pois, se trata de uma alteração da Constituição Federal (CF). A CF é a Lei Maior do nosso país, está no topo da hierarquia legislativa, o que significa dizer que todas as legislações e atos normativos brasileiros precisam estar de acordo com a Constituição Federal. Caso não estejam de acordo com a CF, deixam de ser válidos ou podem ser invalidados, casos em que vão ou podem ser declarados inconstitucionais, por revogação direta ou por ações específicas, que são as Ações Declaratórias de Inconstitucionalidade (ADINs) ou Arguições de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPFs), que são ações que são levadas ao Supremo Tribunal Federal (STF) sobre legislações comuns (inferiores à CF) ou dispositivos dessas legislações. Por ter essa importância toda no ordenamento jurídico brasileiro, qualquer PEC passa por um processo legislativo diferenciado e necessariamente mais rigoroso que uma proposta legislativa comum (PL).

Depois de tramitar por todas essas comissões, a PEC 181 encontra-se na fase final de aprovação, para ser enviada para votação na Câmara. Foi criada uma comissão especial para dar um parecer sobre ela. O relator da PEC 181, nessa comissão especial, é o deputado Jorge Tadeu Mudalen (DEM-SP), que é abertamente contra o aborto. Mas lembre-se aí que a PEC 181 não tinha, em seu conteúdo original, NENHUMA ligação com a interrupção da gestação, seria apenas uma PEC sobre a proteção da gestante em casos em que o bebê viesse a nascer prematuro e o relator dessa comissão deveria se ater ao conteúdo original da PEC.

Jorge Tadeu (DEM-SP), no entanto, inclui duas alterações na PEC 181, com a adição de algumas palavras aos artigos 1º e 5º da Constituição Federal. E essas adições nada têm a ver com o conteúdo original da Proposta, mas com uma conceitualização do que seria a “vida”. São as seguintes:

Art. 2º Dê-se a seguinte redação ao inciso III do art. 1º da Constituição Federal:

“Art. 1º

III- dignidade da pessoa humana, *desde a concepção*;”

Art. 3º Dê-se a seguinte redação ao caput do art. 5º da Constituição Federal:

“Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida *desde a concepção*, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:”

Qual é o problema dessas adições?

O problema é que elas criam a proteção legal ao feto a partir do momento da concepção (encontro do espermatozóide com o óvulo), resolvendo assim um debate que não é pacificado nem no Direito, nem na Medicina, nem na Biologia, portanto um debate que não pode ser IMPOSTO por um relator de uma proposta de emenda constitucional cujo conteúdo não tenha sido esse, pois por não ter sido esse o conteúdo, não foi garantido o amplo debate sobre o tema da proteção jurídica da vida humana. O amplo debate também faz parte do Processo Legislativo. Como toda a sociedade é influenciada por uma alteração na Constituição Federal, toda a sociedade tem direito a contribuir nesse debate. Especialmente em casos controversos como esse, que envolvem aspectos morais, religiosos e filosóficos, representantes de diferentes segmentos da sociedade civil PRECISAM ser consultadas para que o debate democrático seja efetivamente garantido. Uma alteração imposta “de cima para baixo”, como a que estamos vendo, é uma afronta à democracia!

E quais implicações práticas isso tem na vida das pessoas que, efetivamente, podem ser impactadas por essa alteração?

No Brasil, o aborto é um direito garantido por lei APENAS nos seguintes casos: estupro, feto anencéfalo, e risco de vida para a mãe. Mesmo sendo direitos garantidos por legislação, AINDA ASSIM, nesses casos é difícil conseguir fazer esse direito valer. Seja por resistência de profissionais de saúde que não querem efetuar o procedimento, seja pela falta de informação e orientação sobre esses casos.

Voltando ao problema das adições feitas a PEC 181/2015: elas permitem que os juízes possam interpretar a lei vetando o procedimento de aborto nos casos que já estão previstos na lei. Ou seja, perderíamos um direito duramente conquistado. Essas adições também poderiam barrar as pesquisas com células-tronco. Juízes poderiam decidir quem poderia abortar em casos de estupro, feto anencéfalo e risco de vida da mãe. Que mulheres vocês acham que seriam impedidas de realizar o procedimento de aborto, nesses casos? As mesmas mulheres que já são as que mais morrem decorrentes de abortos clandestinos no Brasil, as mulheres negras, as mulheres pobres.

Se a PEC 181 for aprovada com as propostas de alteração do deputado Jorge Tadeu Mudalen, ela torna INCONSTITUCIONAIS as legislações que permitem o abortamento nesses casos. O que significa que: se uma mulher for estuprada ela será obrigada a manter a gestação. E não são só mulheres adultas que são estupradas. Se uma criança de 11 anos de idade for estuprada e engravidar, ela não poderá abortar, mesmo que a manutenção dessa gestação coloque a vida dessa criança em risco! Vivemos em um país em que a cada 11 minutos uma mulher é estuprada. Estupros dos quais em 70,1% dos casos as vítimas são crianças ou adolescentes. Sendo que, em mais da metade dos casos de estupro as vítimas têm menos de 13 anos de idade (Fonte: IPEA, 2014). A aprovação dessa PEC, na redação atual, além de uma afronta à democracia, por burlar o processo legislativo de alteração de texto constitucional, é um atentado à saúde, integridade e à vida de mulheres, de crianças e adolescentes!

E como foi a votação do parecer do relator da PEC 181, deputado Jorge Tadeu Mudalen (DEM-SP)?

A comissão especial, formada para discutir o parecer feito pelo relator, foi composta por 28 deputados. Destes, 24 são publicamente contra o aborto em qualquer caso. A Comissão contava com apenas 3 mulheres. Os requerimentos de retirada de pauta, feitos pelos poucos deputados e deputadas contra as alterações no texto original, foram negados. Após diversas manobras, a votação aconteceu, com 19 deputados presentes.

18 deputados, homens, votaram a favor do parecer.

1 deputada, mulher, votou contra.

Ao final, os deputados comemoraram cantando juntos “Vida sim, aborto não”. Então devemos perguntar: a vida de quem importa?

A cada dois dias, uma mulher morre por consequência de abortos clandestinos mal feitos no Brasil. Existe alguma dúvida que esse número vai aumentar com a aprovação dessa PEC?

Não podemos permitir que esse direito nos seja retirado!

Não podemos permitir que MAIS direitos nos sejam retirados!

A PEC 181/2015 segue agora para votação na câmara de deputados e precisa de 308 votos para ser aprovada.

Não deixaremos essa PEC passar!

Segunda-feira, 13/11, nosso lugar é nas ruas!

Em todas as cidades do Brasil!!

#PELAVIDADASMULHERES

 

(*Heloisa Melino é uma ativista feminista, participa da construção da coletiva lésbica Sapa Roxa,  advogada e doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Direito da UFRJ e pesquisadora no Laboratório de Direitos Humanos (LADIH/UFRJ) e Luiza Borges é uma ativista feminista, arquiteta e urbanista, mestranda em planejamento urbano e regional pelo IPPUR/UFRJ)

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Manifesto: Mulheres contra o Distritão

DesdeCONTRA O DISTRITÃO de que o golpista Michel Temer assumiu o poder, suas ações vêm soterrando décadas de políticas sociais e direitos conquistados, tendo como aliado um Congresso Nacional dominado por homens brancos, filhos e netos das mesmas elites que há séculos mandam no país e que estão dispostos a tudo para permanecer no poder. Prova disto é a pressa para aprovar o “Distritão”. Nós, mulheres que lutamos por uma democracia feminista, somos contra essa proposta.

No Brasil, o tema da representação política não vem sendo tratado como um tema relevante sobretudo para que possa funcionar como um efetivo mecanismo de inclusão democrática na nossa história institucional. Neste país, desde o Império até hoje, em que pesem as profundas disputas entre conservadores e progressistas, a discordância política sempre foi pautada pela conveniência de efetivar a representação daquelEs que sempre tiveram o direito de votar. Nunca houve, na prática, a intenção de se efetivar a representação do eleitorado, abrangendo públicos subalternos e/ou à margem, como mulheres, negros, indígenas, pobres, homossexuais, lésbicas e transsexuais. A titularidade do poder político sempre coincidiu com os aliados e os detentores do poder econômico privados (nossos oligarcas) ou mesmo com os agentes estatais de alto escalão. Esses políticos, calculadamente, jamais se interessaram em aprimorar o sistema representativo a fim de assegurar a participação do povo. A aliança entre mundo empresarial, latifúndio, sistema financeiro e Estado é um modelo político estabelecido no Brasil e é da essência do sistema capitalista que assim seja. A nossa história, desde os tempos coloniais, demonstra que essa estrutura de poder sempre foi marcada pelo patrimonialismo e o clientelismo pelos quais a elite nacional se caracteriza, por confundir o patrimônio público com o privado, em prejuízo da maior parcela das/os cidadãs/os excluídos da representação política.

Em um país em que a desigualdade social não escandaliza, mas se “naturaliza”; onde a  soberania popular é considerada “mera retórica”; e onde existe a convicção  generalizada de que o poder só é exercido eficientemente pelas elites, a reforma proposta aprofunda as desigualdades e aumenta as exclusões, por meio de mecanismos que reforçam uma estrutura de poder elitizada e pouco participativa. E  a reforma que precisamos fazer, muito ao contrário, é aquela que amplia a representação das pessoas que estão historicamente excluídas do poder. Para isso, seria preciso garantir condições mais igualitárias de disputa e mais clareza das posições políticas defendidas pelos candidatos e também pelos partidos. Mas a proposta do “Distritão” vai na direção oposta, pois exacerba o personalismo das campanhas e aumenta a concorrência entre os candidatos e as candidatas. Esse sistema de votação, adotado em todo mundo apenas pelo Afeganistão, pela Jordânia e pela ilha de Vanatu do Pacífico, é absolutamente ineficaz de mediar uma atuação legislativa que, de fato, contemple o interesse público. Quem se eleger representará quase de forma individual e personalizada sua “base eleitoral”, regredindo aos moldes históricos do modelo de “coronelismo, enxada e voto” que tentamos há décadas superar.

Somando-se a esse sistema nefasto de votação, no Brasil, o sistema político vigente é o “presidencialismo de coalizão”, também caracterizado pelo fato de que o presidente eleito tem mais votos do que seu partido nas eleições legislativas, o que faz com que sejam necessárias alianças políticas para que haja governabilidade. Nesse sentido, foram feitas ao longo da história política grandes coalizões para o funcionamento do presidencialismo no Brasil, o que leva à necessidade de amplo acordo político e de alianças interpartidárias. Isso resulta na negociação de recursos públicos no orçamento da União ou na distribuição de cargos nos ministérios entre o governante e seus aliados, transformando a política em um balcão de negócios que só vai se aprofundar, pois os representantes da base de coalizão ultrapassarão a plataforma dos partidos políticos, enfraquecidos com a adoção do Voto distrital puro, sendo personalisticamente detentores de seus renovados currais eleitorais.

O argumento de muitos deputados é que a população teria mais clareza de quem seria efetivamente eleito, já que no sistema proporcional acontece de alguém que recebeu poucos votos se eleger pela proporcionalidade. Trata-se, contudo, de uma distorção do funcionamento do legislativo, que na prática depende da composição de grupos pessoais de interesse, alianças, acordos, trocas, num cenário deletério de guerra competitiva de todos contra todos. A política é uma atividade coletiva e para aproximar a população do cotidiano de poder essa dimensão do interesse público e coletivo precisa ficar cada vez mais clara. A adoção do Distritão, vai exatamente no sentido oposto a isso.

Em conjunto com a proposta de ampliação do Fundo para as campanhas e diante do atual cenário de crise, a maior probabilidade é de que os partidos, abertamente enfraquecidos por esse sistema de votação, prefiram apostar em menos candidaturas, e mais especificamente naquelas que têm mais viabilidade eleitoral – o que não costuma ser o caso das mulheres.

Assim que a partidA feminista surgiu, o movimento avaliou que o atual sistema político é desesperador, e que não seria possível para fazer parte dele. Por isso, lutamos à margem por uma democracia feminista, por um sistema que crie mecanismos para um poder legislativo, em todos os níveis da federação, mais plural e representativo da diversidade do Brasil. Por isso mesmo, neste momento, somos contra o “Distritão”. Ele não é o sistema que nós, feministas, queremos.

Ao contrário, aliás:  o “Distritão” nos distancia da radicalidade democrática, cujo cerne é a horizontalidade do poder e não a sua crescente verticalização. A nossa luta é contra a exploração econômica, que esse sistema eleitoral acentuará; lutamos pelo resgate da dignidade na política vivenciada na expressão plural das singularidades nos espaços públicos. Eis a democracia feminista que queremos.

#MulheresContraoDistritão
#PartidAFeminista
#FeminismoÉRevolução

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A Cor da Faxina no Brasil

Vilma Piedade*

Vilma

(Na Marcha das Mulheres Negras – RJ – 2016)

E pra falar que a Nossa História Importa, ou pelo menos, deveria, continuo insistindo:

… “Dororidade¹ … o que é?  Ou o que pretende ser?

Seria a Dor e a nem sempre Delícia de se Saber ou de não se Saber

Quem Somos…”

Ou quando se saber quem é, não importa pro Racismo. Precisamos dizer a todo momento Quem Somos. Luana Tolentino teve que responder quem era…o que fazia … a Branquitude ainda não esqueceu dos grilhões com que nos acorrentaram. E, a todo momento, temos que dizer, gritar…Ei gente, faz tempo que arrebentamos as correntes… apesar da grande maioria do nosso Povo Preto ainda continuar acorrentado na imobilidade da escala social.

Mas, a luta contra o Racismo continua. O Racismo não nos dá tréguas. Não vamos dar tréguas pro Racismo. Foi-se a Abolição Inconclusa e a Carne Preta ainda continua sendo a mais barata do mercado…

A pergunta feita à Historiadora Luana Tolentino por uma legítima representante da Branquitude  (“…Moça, você é Faxineira…?”), causou, recentemente, indignação  nas redes sociais. E a resposta de Luana à referida senhora (“…Não, eu faço Mestrado. Sou Professora …”) sinaliza que o Racismo avança a todo vapor.

Luana Tolentino, que recebeu a Medalha da Inconfidência de 2016, ao ser entrevistada pela Revista Fórum, relatou as experiências que passou ao longo de sua vida por conta do Racismo Institucional. Vejamos:

“… O que me deixa indignada e entristecida é perceber o quanto as pessoas são entorpecidas pela ideologia racista.

Sim. A senhora só perguntou se eu faço faxina porque carrego no corpo a pele escura…”

No imaginário social está arraigada a ideia de que nós negros devemos ocupar somente funções de baixa remuneração e que exigem pouca escolaridade. Quando se trata das mulheres negras, espera-se que o nosso lugar seja o da empregada doméstica, da faxineira, dos serviços gerais, da babá, da catadora de papel…” (in Revista Fórum- 18/07/2017)

Lélia Gonzalez , diante dessa persistência do Racismo no nosso País que afirma que não é Racista (sic) diria “…Cumé qui é? …” É aí que o bicho pega. E quando pega, apesar da Branquitude insistir em não reconhecer nossos Valores Civilizatórios, recorremos ao nosso princípio filosófico – UBUNTU  porque a gente produziu, produz conhecimento e temos Filosofia.

Só para lembrar, somos o País com maior População Preta fora de África. E, como estamos no chamado Julho das Pretas (desde 1992, celebra-se em 25 de julho o Dia da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha, um marco internacional da luta e da resistência das Mulheres Negras),  eu trouxe a opressão racista sofrida pela Historiadora Preta Luana Tolentino pra tentar discutir o Feminismo como Escuta e Diálogo…

Porque é apostando no Diálogo, na Escuta, no Feminismo Dialógico Interseccional que me coloco como Mulher Preta no Feminismo.  Minha escrita, minha escuta, minha fala, traz a marca das aberrações que o Racismo nos imprime e nos empurra goela abaixo no cotidiano.

Quando penso em Diálogo, na construção de um Feminismo Inclusivo, preciso recuperar nosso princípio filosófico. UBUNTU. Eu contenho o outro. Somos Um. Somos Uma. O famoso… pegou pra uma… pegou geral. Nosso Princípio é circular como as Rodas de Xirê no Candomblé… minha Tradição.

E aí? Será que não pode haver Diálogo Feminista e uma Democracia Feminista num País que vive ancorado no Mito da Democracia Racial? Ou pode? Acredito que sim. É possível.

A Democracia feminista pressupõe inserir mais Mulheres nos espaços de Poder. E Nós, Mulheres Pretas estamos nessa. E aí, não podemos esquecer Sueli Carneiro, quando aponta in Mulheres Negras e Poder: um Ensaio Sobre a Ausência, que “… A relação entre mulher negra e poder é um tema praticamente inexistente. Falar dele é, então, como falar do ausente…”

Então vamos ter que dialogar com essa ausência. Dororidade.

E, ainda, como construir uma Democracia Feminista sem dialogar com o Racismo sofrido pela historiadora Luana Tolentino… e tantas outras…outros…? Sem entender que a Faxina ainda tem Cor no Brasil? A Segunda Marcha das Mulheres Negras, vem aí….Marcha

E a Faxina tem Cor no Brasil. Tem Gênero. Tem Raça. É Preta.

Temos um grande desafio nessa construção. Precisamos continuar a discutir essa equação – Feminismo. Racismo. Branquitude – Opressão e Privilégios. Acredito ser uma equação perfeita para a viabilidade da construção do Feminismo Negro. Do Feminismo Dialógico Interseccional.

Buscando Ângela Davis in Mulheres, Raça e Classe“Raça, Classe e Gênero entrelaçados, juntos, criam diferentes tipos de opressão. Classe informa a Raça; Raça informa a Classe …”

E a Faxina tem Cor no Brasil. Tem Gênero. Tem Raça. É Preta.

Sim Luana, a referida senhora só perguntou se você faz Faxina porque você carrega no corpo a pele escura. Pele Preta. E, quanto mais Preta, mais Racismo. Steve Biko nos alertou sobre isso.

Violência contra Mulheres Negras

O aumento do Feminicídio também é Preto por aqui… O Feminicídio só avança. Contudo, as Mulheres Pretas estão morrendo mais.

Os dados oficiais reforçam que a morte das Mulheres no Brasil, tem Cor, tem Raça. Em 10 anos, de acordo com o último Mapa da violência, do governo federal, a vitimização entre as mulheres negras no Brasil cresceu 54,2%, enquanto o homicídio das brancas caiu 9,8%.

Diante dessa Dororidade Histórica,  precisamos trabalhar, cada vez  mais, Feminismo. Racismo. Branquitude – Opressão e Privilégios. Acredito que possa fortalecer a todas Nós. Pretas. Brancas. Mulheres.

Digo Pretas e não Negras para não continuar alimentando a base estrutural da Opressão provocada pelo Racismo. Opressão causada por um conceito que se estratificou. Cristalizou. Raça – Construção ideológica , fabricada pelo modelo econômico capitalista Branco. Modelo que alimenta o lugar de acúmulo, dominação e privilégios.

É, Luana…  Nosso lugar tá dado, posto na sociedade. É estrutural. – Mulher Preta é Pobre; Mulher Pobre é Preta …. com baixa escolaridade,  ocupando a base da pirâmide no mercado de trabalho, pelo menos na sua maioria. Nesse ponto, recorro mais uma vez ao pensamento de Ângela Davis: “… precisamos pensar o quanto o Racismo impede a mobilidade social da População Negra…”

Ângela Davis

Luana, você e muitas de Nós, Mulheres e Jovens Pretas, rompemos com o determinismo histórico imposto pra nossa População. O bicho pega e a Elite Branca não aguenta … “E aí, você faz Faxina?”… É uma pergunta que nunca espera a sua resposta “…Não, eu faço Mestrado…”

Quando eu falei que Dororidade carrega, no seu significado , a Dor provocada em todas as Mulheres pelo Machismo, destaquei que quando se trata de Nós, Mulheres Pretas, tem um agravo nessa Dor, agravo provocado pelo Racismo . Racismo que vem da criação Branca para manutenção de Poder…E o Machismo é Racista.  Aí entra a Raça. E entra Gênero. Entra Classe. Sai a Sororidade e entra Dororidade.

E a Pele Preta ainda nos marca e nos mata na escala inferior da sociedade. Por isso, e muito mais, infelizmente,  a Faxina tem Cor no Brasil.

No nosso caso, a história é diferente. O buraco é mais embaixo. Ou, parafraseando Lélia Gonzalez… “Cumé qui é?…”  Porque é o Racismo que nos dilacera .

É assim que entendo o Racismo. Dororidade. E, a qualquer momento, alguém também pode me perguntar, “…E aí, você faz Faxina?…”, e vou ter que responder “…Não…….Blá, Blá, …”.

A Branquitude poderia ser um pouco mais criativa e se dar ao luxo de pensar que a história é mais dinâmica que as palavras. Demora. Mas a fila anda. E nossa fila andou, apesar da faxina ainda ter cor por aqui. …Enquanto a faxina for preta, exclusiva das Mulheres Pretas, vamos ter que enfrentar esse desafio pós-moderno, colonizado –  reafirmar a todo momento Quem Somos. E nem sempre basta. Pro Racismo não basta.

“Dororidade … o que é?  Ou o que pretende ser?

Seria a Dor e a nem sempre Delícia de se Saber ou de não se Saber

Quem Somos….”

(*Vilma Piedade é Mulher Preta, Ativista, de Axé. PartidA Rio, AMB, RENAFRO)

 

Nota 1: o Conceito “Dororidade”, de autoria de Vilma Piedade,  foi pela primeira vez apresentado no evento Feminismo, Racismo, Branquitude: opressão e privilégios”, em 20 de maio de 2017, no Rio de Janeiro, dentro da série “Diálogos Feministas” da Escola com #partidA, e foi desenvolvido no artigo “Dororidade … o que é? Ou o que pretende ser?”, publicado  em 19 de maio de 2017 em https://partidanet.wordpress.com/2017/05/19/dororidade-o-que-e-ou-o-que-pretende-ser/

 

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