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Um agradecimento por Dororidade

imagem: Mulher Negra, de Januz Miralles

imagem: Mulher Negra, de Januz Miralles

por Tainá de Paula*

Recentemente fui provocada a falar sobre uma heroína negra chamada Zacimba Gaba[1]. Dentre toda a história e mítica que a cerca, todo o processo de imersão sobre sua história me provocou uma longa discussão sobre o apagamento que as mulheres negras sofrem em sua historicidade e territorialidade. Afinal, quem narrou ou está disposto a narrar a história a partir de uma lente que amplie de fato as nuances da sociedade brasileira de forma respeitosa às matrizes africanas e contribuições afro-brasileiras?

Nesse sentido é importante, inicialmente, reverenciar a iniciativa de Vilma Piedade ao lançar o livro Dororidade, pois parte da luta antirracista está no esforço de resgatar ou trazer à tona as nossas narrativas. Não raro, apenas homens e mulheres brancas são colocados como intelectuais, pensadores, escritores etc, pois é assim que a estrutura de privilégio – e as imagens coletivas sociais são construídas apagando sistematicamente o nosso registro de contribuição ao espectro intelectual, como se não existíssemos. Já por isso é importante enaltecer Vilma, uma escritora negra que se afirma no corajoso exercício da escrita.

Para além de reconhecermos e apoiarmos sua coragem ao escrever, no entanto, ainda é preciso falar de Vilma, mulher de profunda ancestralidade. Nunca a vi sem torço, sua marca de mulher de axé. Sempre a ouvi publicamente reverenciando sua Oiá-Iansã e quando li os dois capítulos entitulados “Oiá-Iansã e o Poder feminino” (p. 31) e “Oiá-Iansã e o Poder Feminino na Tradição Iorubá” (p.32), fica claro o quanto é necessário enegrecer nossos feminismos e buscar novas formas de dizer e entender o próprio sentido da luta. E não há melhor forma de se dialogar com o povo de terreiro do que dialogar respeitosamente com suas referências. Nesse sentido, ler esse livro é extremamente educativo para quem tem avidez por saberes fora da lógica colonizante que ceifa todo o conhecimento não-branco.

Falar sobre o apagamento que a cultura dos povos tradicionais de matrizes africanas sofrem e fincar o termo racismo religioso, por exemplo (p.35) ao invés do termo “intolerância religiosa”, como caminho literário para falar da interseccionalidade é por si paradigmático, pois nos obriga a exercitar o que há muito Audre Lorde propunha:

Eu não posso me dar ao luxo de lutar por uma forma de opressão apenas. Não posso me permitir acreditar que ser livre de intolerância é um direito de um grupo particular. E eu não posso tomar a liberdade de escolher entre as frontes nas quais devo batalhar contra essas forças de discriminação, onde quer que elas apareçam para me destruir. E quando elas aparecem para me destruir, não demorará muito a aparecerem para destruir você.

(LORDE em “Não há Hierarquia de Opressões”)

Este é o ponto central de Dororidade, ao meu ver: existe luta verdadeiramente feminista que não pense outros pontos que permeiem raça, classe, gênero? Existe feminismo digno desse nome que exclua outras opressões? Dororidade ajuda a alinhavar esses questionamentos que pulsam nos feminismos e utiliza um novo léxico que não substitui a sororidade que, ainda que emane uma irmandade entre nós (p.17), não preenche a princípio as lacunas de nossas singularidades.

É preciso resgatar a utopia da democracia feminista à luz de todas as mulheres. Inclusive as que usam ojás e as que se embalam ao som da gira, dos tambores. E que isso se faça importante a todas. Devemos encarar de frente “a Dor e a nem sempre delícia de se saber quem é, quem somos numa sociedade mascarada pelo mito da democracia racial…” (p.18). Afinal, existe feminismo na sombra do racismo? Existirá um feminismo que não seja antirracista por essência?

E que essa utopia seja dita no pretoguês de Lélia Gonzalez, como Vilma Piedade procurou fazer (p.12), pois é nessa disrupção de uma estética, de uma métrica e de um léxico que se dará nossa revolução silenciosa. A circularidade do conceito que foi criado por Vilma (p.16) nos eleva a outro patamar da discussão sobre essa dor que nos une. Que Vilma nos brinde com sua filosofia nova. E sim! Ela faz filosofia!

Obrigada por Dororidade.

[1] Zacimba foi uma escrava que sofreu toda a sorte de violência, não se submeteu e montou seu quilombo na região de São Mateus, Espírito Santo, nos idos de 1690. Liderou homens e mulheres na construção de uma resistência livre e organizada, que atacava navios negreiros e conduzia seus irmãos até seu quilombo. Hoje é inspiração e empresta o nome para alguns coletivos que debatem negritude e gênero, e participo de um deles.

TAINÁ *Tainá de Paula é arquiteta com mestrado em Urbanismo, ativista antirracista e feminista e integra a #partidA Rio.

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Por que o discurso da Oprah me importou

75th Annual Golden Globe Awards - Press Room, Beverly Hills, USA - 07 Jan 2018

por Cristiane de Assis Macedo Alves*

Lembro da primeira vez que me vi no espelho. Fiquei tão chocada com a imagem negra e franzina que por muitos anos tentei provar, para mim e para o espelho, que aquela não era eu. Por isso mesmo, quando assisti ao discurso inflamado e ovacionado de Oprah Winfrey há uma semana, na entrega do Globo de Ouro, e a ouvi dizer das poucas referências que teve e também da importância atribuída por ela à premiação de um ator negro para a autoconstrução de sua identidade, me lembrei da menina do espelho.

Há cerca de 14 anos, minha filha se dirigiu à balconista de uma famosa rede de fast food e indagou o motivo de não ver pessoas como ela nas fotos das propagandas espalhadas pelo estabelecimento. A moça refletiu por uns segundos e, constrangida, disse: “Eu não sei”! Talvez não soubesse, talvez sim. Não importa tanto a resposta. O flagrante constrangimento garantiu que, mais importante que a resposta, foi a própria pergunta. Minha filha, aos quatro anos, estava questionando um sistema onde o racismo institucionalizado transforma o negro em um ser invisível.

A menina do espelho havia crescido cercada por parentes negros, mas ela não via. E não via porque seu universo era socialmente invisível, porque para o mundo ao redor de sua ilha familiar todo modelo de identidade era branco. Não havia negros nas novelas, filmes ou nas propagandas – exceto como escravos, quase sem fala, sem força e sem vez. Martirizados sem protestar, aguardando a intervenção salvadora de homens e mulheres brancos fortes e altruístas.

A menina da lanchonete estava, na verdade, buscando representatividade – algo que a menina do espelho não teve e tampouco esperava ter.

Observo as muitas críticas ao discurso de Oprah adjetivando-o como narcisista, oportunista e opressor. Para esses críticos, o erro de Oprah é não questionar o modelo econômico segregador que, embora lhe permita ter voz, também lhe coloca na posição mais privilegiada dentro da lógica da estratificação social.

Entretanto, para os que cresceram cercados de referências, modelos e privilégios, é fácil dizer que o discurso de Oprah foi carregado de autopromoção e crueldade.  Num mundo onde brancos estão nos melhores cargos, nas maiores instâncias, nos “lugares certos”, como fica psicologicamente aquele que cresce sem ver um semelhante que lhe mostre que ele também pode?

Talvez a retórica de Oprah fosse “meritocrática” vinda de um homem branco, mas jamais ao vir de uma mulher – menos ainda de uma mulher negra.

Representatividade faz diferença num mundo onde os afrodescendentes são menos competentes, menos bonitos, menos inteligentes, onde a história do negro não tem registros, ode se embranquece a figura historicamente reconhecida, que resume o negro a mero espectador e a negra às genitais.

Toda criança negra precisa saber que pode, que tem direito, que é competente. E precisa ser alertada de que qualquer triunfo social lhe será muito mais difícil.

O discurso de Oprah Winfrey não pode ser analisado por uma perspectiva branca. Tampouco se pode avaliar o impacto ou a importância de suas palavras analisando apenas pelo viés econômico. É óbvio que o mundo não suportaria milhões de mulheres e homens com o poder aquisitivo dessa mulher e, é claro que, mesmo com referências, muitos ainda serão medianos, o mais importante não está no ser a próxima Oprah, mas em saber que, se existem as exceções é porque alguém dificultou as regras. E, como regra, temos que saber que não somos piores, mas que nossas perspectivas foram historicamente estreitadas, e que continuarão assim se não fizermos nada.

Pela voz de Oprah, numa noite e diante do mundo todo, nós meninas e meninos, mulheres e homens negros, pudemos dizer que essa estrutura que nos sufocou e que ainda tem nos sufocado precisa urgentemente acabar.

Cristiane Assis

* Cristiane de Assis Macedo Alves é professora da Educação Básica da rede estadual de São Paulo. Formada em Geografia, tem especialização em Educação Especial com ênfase em altas habilidades e superdotação.

 

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Comissão da Mulher do IAB: um marco

Deborah Prates*

A mulher com deficiência está construindo uma história de inclusão no Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB). Sou a única pessoa com deficiência a integrar seus quadros em 174 anos de existência. E no último abril tive a honra de ser nomeada presidente da sua Comissão da Mulher.

Senti uma inenarrável emoção pela confiança em mim depositada, principalmente por tratar-se de uma comissão que não é exclusiva das pessoas com deficiência (PCD).

Sempre sonhei derrubar o cruel gaveteiro, figurativamente construído pela preconceituosa sociedade. Em cada gaveta encontrava-se um seguimento populacional: pessoas com deficiência, negros, mulheres, idosos, crianças, refugiados, nordestinos, humanos em situação de rua, etc. Com a Comissão da Mulher esse móvel veio abaixo. E que maravilha, essa bagunça humanitária! Desse marco para a frente, veremos todo mundo junto e misturado.

Na nossa proposta de fala e escuta, pretendo dar voz a todas as mulheres que, comumente, são excluídas das rodas de conversas. Assim, nos eventos da Comissão da Mulher do IAB, obrigatoriamente, deverão haver várias representações de mulheres que, em tese, ainda estão sem voz.

No dia 30 de maio, por exemplo, foi realizado o primeiro evento, intitulado “O mercado de trabalho para a mulher brasileira nos tempos atuais”. Além das mulheres brancas, privilegiadas, tive a felicidade de contar com três palestras de mulheres sempre esquecidas pela sociedade.

A advogada Maria Eduarda Aguiar relatou os percalços enfrentados pela mulher transexual, enfatizando “a invisibilidade, ocasionada pelo machismo estrutural e cultural, o abandono familiar, a falta de capacitação ocasionada pela prematura evasão escolar.” Esclareceu que “5% das mulheres transexuais conseguem um emprego formal e 90% estão na informalidade e ou prostituição, tendo que brigar pelo respectivo nome social.”

A presença da advogada negra Ana Carolina Lima, por sua vez, trouxe a consciência de que “não é tarefa fácil transformar o olhar social para com a mulher negra, antes vista como serviçal.” Assim, ter conquistado o título de doutora não foi tarefa fácil. Aduziu que “há ainda muitos olhares de estranhamento no meio jurídico, ora por ser mulher e, ainda mulher negra.”

Eu falei sobre a ausência de oportunidades para a mulher com deficiência. Lembrei que, enquanto as mulheres sem deficiência estão dando os primeiros passos rumo à igualdade de gênero, as mulheres com deficiência ainda estão em fase gestacional.

Até agora, o modelo social das deficiências está na figura do homem branco, adulto, heterossexual e com lesão medular, focado no contexto americano de 1948. Assim, as mulheres com deficiência, simbolicamente, têm valor social menor que homens sem e com deficiência e, também, menor valor que as mulheres sem deficiência. Logo, o mercado de trabalho para elas está absurdamente fechado.

A ideia de boa aparência, afinal, imposta pelo capitalismo, repele todo corpo que não caiba na fôrma da indústria da moda. O ser que habita um corpo diferente está fora! Fora da vida… Além disso, a educação para essas pessoas é muito precária, ante a ausência de todo tipo de acessibilidade – o que lhes retira bem mais as chances de trabalho.

É preciso reconhecer, ainda, que a lei de cotas – que já existe há 26 anos – não pegou. Em 2016, mesmo com a vigência da LBI (Lei Brasileira de Inclusão) o TST pacificou o entendimento de que, por ausência de capacitação das PCD, as empresas não podem ser punidas por não preencher as cotas. Absurdo! Afinal, também é da sociedade (empresas cidadãs) a obrigação de capacitação das PCD.

Regentes republicanos, no sentido lato sensu, é o que nos falta. Com a república, afinal, vêm a responsabilidade e a responsabilização. A democracia precisa ser temperada com a república! Ah, se tivéssemos esta consciência, que maravilha viver!

O Poder Judiciário, no entanto, dá o mau exemplo à sociedade. Prova disso está na imposição de um PJe (Processo Judicial eletrônico) inacessível, o que baniu as advogadas cegas da advocacia. A ata de reunião do CNJ de número 40, de 12 de setembro de 2013, comprova a intenção de EXCLUIR do trabalho esse seguimento quando registra para a eternidade: “(…) que, como há a possibilidade de capacitar idosos, mas não de melhorar a visão dos deficientes, devemos atender os demais.” Diante dessa desumanidade do CNJ, como exigir da sociedade que reconheça a competência das PCD para o mercado de trabalho?

Apesar desses problemas, nossa! Como o público se interessou em conhecer essas escondidas informações! De fato, é o diálogo o melhor caminho para as necessárias transformações. Aquele nosso primeiro evento ressignificou tantas ultrapassadas convicções. São com esses pequenos e contínuos exercícios de acessibilidade atitudinal, que não custam dinheiro, que transformaremos este Brasil tão desigual. Tiramos os presentes do piloto automático.

Agora, já estou trabalhando no projeto do próximo evento, intitulado “O preconceito contra as mulheres positivas e as infecções sexualmente transmissíveis”. Essas mulheres, insensatamente, são deixadas à margem da sociedade. Grande parte dos seres humanos sequer as cumprimentam pegando-lhes nas mãos – e, quando o fazem, correm para lavá-las com medo de contrair HIV, o vírus causador da AIDS. Essas companheiras, portanto, especialmente nesse momento tão conturbado de suas vidas, necessitam de muita sororidade! Precisamos ouvir as vozes dessas mulheres e de tantas mais que não conseguem ser escutadas.

Mediante a breve exposição acima, fica certo que o diferencial da Comissão da Mulher do IAB será a inclusão de todas as mulheres normalmente excluídas pelas suas pares e pela sociedade.

Um coro. Um coro a capella. Sim. Quanta felicidade será ouvir todas as mulheres, em simultâneo e de modo coordenado, cantarem a mesma canção. Sem maestrina e sem hierarquia. Uau! Vozes com diferentes registos ou timbres interpretando a mesma canção. A canção da partidA! Da vida! Meus olhos cegos veem o letreiro anunciando: as partidAs apresentam a obra musical Flores da Sororidade! Delícia.

O amor a si própria e ao próximo é um exercício diário.


 

Advogada, presidente da Comissão da Mulher do IAB,  integra a Comissão da Pessoa com Deficiência do Conselho Federal da OAB e é feminista integrante do Foto Deborah Prates para publ texto Partidacoletivo PartidA.

 

 

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“Dororidade … o que é? Ou o que pretende ser?

Seria a Dor e a nem sempre Delícia de se Saber ou de não se Saber

Quem Somos….

Nossa História Importa…Nosso Turbante Importa…. Nossa Vida

Importa…Dororidade…”

 

Por Vilma Piedade*

 

Entendo que todo conceito carrega um mundo de significados e significantes…não é estático e pressupõe… Reflexão… Crítica… Discursos… Significar.. . Ressignificar… Multiplicidade.. .Transformação… tudo junto . esse complexo conceitual parece funcionar como norteadores da questão. Logo, o conceito não é algo acabado, pronto, imutável e descolado do seu tempo. É circular.

E estou aqui inaugurando um conceito – Dororidade – e convidando vocês para participar dessa história e escutar o texto..

A Filosofia aponta que não há conceitos simples. Tudo isso para afirmar que não existem conceitos sozinhos, pois todo conceito tem sempre um componente e este sempre nos remete a outro conceito. Circularidade.

Mas, qual a finalidade, no nosso caso, de ter um novo conceito – Dororidade? Será que como Mulheres Feministas, Sororidade não nos basta? E Sororidade não é o conceito que ancora o Feminismo?

O lugar de fala é um lugar de pertencimento. Falo desse lugar como Mulher Preta. Ativista. Feminista. De Axé. Mas também falo de um lugar das minhas Ancestrais, marcado pela ausência histórica. Lugar- ausência marcado pelo Racismo. E, é desse lugar digo que Não. Sororidade une, irmana, mas não basta.

O que parece nos unir na Luta feminista é a dor. A dor da violência que sofremos no cotidiano. Seja física, emocional, patrimonial, moral. No nosso caso, ainda temos a violência racial. Dororidade quer falar das sombras. Da fala silenciada, dentro e fora de Nós. Da dor causada pelo Racismo. E essa Dor é Preta.

Dororidade carrega, no seu significado ,a dor provocada em todas as Mulheres pelo Machismo. Contudo, quando se trata de Nós, Mulheres Pretas, tem um agravo nessa dor, agravo provocado pelo Racismo. Racismo que vem da criação Branca para manutenção de Poder… Aí entra a Raça. E entra Gênero. Entra Classe. Sai a Sororidade e entra Dororidade.

Como nos alerta Ângela Davis in Mulheres, Raça e Classe – “Raça, Classe e Gênero entrelaçados, juntos, criam diferentes tipos de opressão. Classe informa a Raça; Raça informa a Classe”.

Já Lorde fala que não há Hierarquia de Opressão. Mas aqui , prefiro ficar com Djamila Ribeiro, em seu prefácio no livro de Ângela Davis – Mulheres, Raça e Classe – há uma hierarquia de Gênero no tocante a Nós, Mulheres, Jovens, Meninas Pretas – somos mais vulneráveis à violência sexual, ao Feminicídio.

Voltando, sabemos que o Machismo Racista Classista inventou que , Nós – Mulheres Pretas -somos mais gostosas, quentes, sensuais e lascivas. Aí, do abuso sexual, estupros, naturalizados na senzala até hoje, foi um pulo. Pulo de 129 anos e passamos a ser estatística. Os dados oficiais sobre violência sexual falam disso. Estamos na frente, morremos mais nas garras desse Machismo do que as Mulheres Brancas… A equação é simples- Mulher Preta é Pobre; Mulher Pobre é Preta…pelo menos na sua grande maioria. Nesse ponto, recorro mais uma vez ao pensamento de Ângela Davis,

“…precisamos pensar o quanto o Racismo impede a mobilidade social da População Negra…”

Foi-se a Abolição Inconclusa e a Carne Preta ainda continua sendo a mais barata do mercado…

Dororidade. Sororidade. Não há dor maior ou menor. Dor não se mede. É de quem sente. Há dor. Dor dói e ponto. E a nossa dor é Preta.. E a Pele Preta ainda nos marca e nos mata na escala inferior da sociedade.

Tem uma dor constante que marca as Mulheres Pretas no cotidiano – a dor diante de uma perda. E nesse jogo cruel do Racismo quem perde mais? Quem está perdendo seus filhos filhas? Todos Pretos. Todas Pretas. A resposta tá estampada nos dados oficiais- IPEA- sobre o aumento do genocídio da Juventude Preta. Dororidade.

É, no nosso caso , a história é diferente, ou , parafraseando Lélia Gonzalez…”…Cumé qui é…” Por que é o Racismo que nos dilacera. Não há dor maior ou menor. Dor não se mede. É de quem sente. Há dor.

Dor dói e ponto. E a nossa dor é Preta. É assim que entendo o Racismo. Dororidade.

A Dororidade se instaura desde que que nossas Ancestrais foram escravizadas aqui. Nossa história, nossos valores civilizatórios foram extirpados, violentados, assim como Nós.

Opressão e Privilégios. E deixo com vocês essa questão… Dororidade.

 

Vilma Piedade – autora do conceito de “Dororidade

*Vilma Piedade é professora de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira formada pela UFRJ com pós-graduação em Ciência da Literatura. É mulher Preta. Ativista. Feminista. De Axé. Integrante da RENAFRO. PartidA RJ. Articulação de Mulheres Brasileira (AMB). Revisora/Relatora da Conferência de Durban.

 

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Entrevista Exclusiva: Márcia Noeli, a Delegada

 

A PartidA Feminista do Rio de Janeiro entrevistou com exclusividade a delegada Márcia Noeli Barreto, mas você sabe quem ela é? A gente te conta mais aqui!!

O Brasil passou a conhecer melhor essa mulher a partir de sua intervenção certeira para interromper o ciclo da violência a que uma mulher estava submetida, televisionado em rede nacional por um reality show de uma emissora de TV brasileira. Márcia Noeli Barreto, policial civil há 31 anos, fez de sua vida profissional uma constante intervenção em situações como essa, onde a violência contra as mulheres tenta ser naturalizada.

Márcia Noeli, que tem uma graduação em Letras e outra em Direito, adiou o início de sua carreira profissional porque atendia ao pedido de seu pai, um pernambucano tradicional, para quem as mulheres deveriam trabalhar apenas em casa. Aos 24 anos, ingressou como detetive na Polícia Civil do Rio de Janeiro, no concurso público de 1986, quando foram admitidas 300 mulheres, num total de 2.200 vagas oferecidas. Até então as mulheres na polícia civil se limitavam a poucas escrivãs, admitidas no concurso de 1983, secretárias e datilógrafas.

A entrada de Márcia Noeli na Polícia Civil em 1986 não foi à toa. No mesmo ano, em 18 de julho, foi inaugurada a primeira Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher do Estado do Rio de Janeiro, no Centro da cidade do Rio, onde Márcia ficou lotada como detetive. Em 2002, tornou-se Delegada Titular da DEAM Centro, mas passou também por outras 3 DEAMs, no cargo de Delegada. Mais tarde, assumiu a direção da Divisão de Polícia de Atendimento à Mulher, responsável pelas 14 Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher existentes hoje no estado.

As 14 Deams fazem, juntas, cerca de 35 mil registros de ocorrência de violências variadas contra mulheres, por ano. Além disso, nas 146 Delegacias Distritais existentes no estado também é possível fazer denúncias de crimes cometidos contra mulheres. Márcia reconhece que a cobertura das DEAMs ainda não contempla um grande número de municípios e que, para muitas mulheres, a polícia civil é a única referência para buscar ajuda e se proteger da violência. São os paradoxos de uma política pública que ainda está em construção.

Com anos de experiência no trato diário com mulheres sobreviventes de violência, a Delegada avalia que a DEAM é parte de uma rede de serviços de atendimento a mulheres mais complexa, desempenhando um papel de “porta de entrada” nessa rede. Em outras palavras, a partir da DEAM as mulheres deveriam poder ter acesso a outros serviços da rede, que se complementam no difícil trabalho de responsabilizar os autores da violência, mas também de promover os direitos dessa mulher violentada. Marcia ressalta que essa rede de serviços precisa de vários olhares e saberes distintos: saúde, sistema de justiça, abrigos para as mulheres ameaçadas de morte, centros especializados de atendimento à mulher, etc. Essa é uma rede que necessita de mais recursos financeiros, mas também de recursos humanos e de formação específica para a compreensão da violência de gênero.

Nessa entrevista para a PartidA Feminista Rio, vamos conhecer um pouco mais de sua trajetória de vida e trabalho, nos anos dedicados ao enfrentamento à violência contra as mulheres, mas também de sua batalha interna na Polícia Civil, pela constante legitimação e garantia de direitos das mulheres.

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