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Violência contra a mulher rural

Helena Niemeyer

Nos últimos 30 anos, tive a oportunidade de conhecer de perto várias formas de cultura rural no Brasil. Vi mulheres fortes, submissas, poderosas, sonhadoras, dependentes e outras que simplesmente sabem qual é o seu papel no grupo que pertencem. O ponto em comum entre elas é a violência, a maioria não percebe que sofrem algum tipo de violência, pois o mais importante é a sobrevivência.

Como historiadora, devo criar limites na pesquisa para que sua eficiência se torne possível para estudos mais específicos e/ou ajudar a dar consciência às mulheres de seus direitos e informações básicas para seu crescimento como cidadã independente.

Resolvi delimitar, para meu conforto, o interior do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. Nos últimos dois anos tenho feito alguns contatos e interpretações a respeito da vida definida para mulheres nesses três Estados. Para que esse texto não se transforme num tratado, vou fugir das regras historiográficas e usar uma abordagem generalizada, que não tenho o hábito de aplicar por não ter uma interpretação realista, mas poderemos perceber um contexto repetitivo da situação da Mulher no meio Rural.

Como, no Brasil urbano, também há uma sociedade vertical e patriarcal no mundo rural, por isso vou dividir em três grupos distintos: a Mulher no Agronegócio, a Mulher na pequena e média propriedade produtora e as excluídas.

Começo pelas Excluídas, termo que agride aquelas que lutam pela causa humanitária. Esse grupo é aquele que vive do roçado, a sua produção é para a sobrevivência do grupo ou família. Quando há sobra dessa produção, ela é usada para troca de produtos ou animais, em geral cabras e galinhas. Vou nominar grupo e não família, primeiro porque não há vínculo familiar que satisfaça as regras sociais, e segundo porque o trabalho não é dividido pelo gênero, mas pelas condições de realização. Neste grupo a parceria é fundamental, não existe entre eles o fator de incapacidade, nem em relação às crianças. São equipes com funções de acordo com sua capacidade, todos cuidam de todos, pois a ausência de um vai sobrecarregar o outro. Vejo nesses grupos muito respeito, colaboração e troca de conhecimento. Se bem que eles nem sabem que agem dessa forma. Esses grupos sofrem a violência da exclusão do Estado, não só as mulheres, mas todos que estão nessas condições. A grande maioria não possui registro civil e nem usam o capital. Vivem de doações vindas de religiosos (sejam católicos, espíritas ou protestantes), como roupas, sapatos, utensílios e itens que não produzem como a cesta básica. O conhecimento cultural desse grupo é intenso, eles passam para as gerações o conhecimento de plantio assim como o das ervas medicinais que amenizam sintomas ou doenças. Não possuem conhecimento de higiene básica nem saneamento. Encontrei em alguns grupos, homens com duas mulheres e filhos convivendo em harmonia, assim como também mulheres com dois maridos e filhos, e me surpreendi quando essas mulheres sabem dizer de qual homem é o filho. Esses grupos vivem longe de qualquer centro urbano e por essa razão criam suas próprias regras de conduta, vivem em harmonia igualitária e o ponto principal é a sobrevivência.

Na questão das mulheres dos pequenos e médios produtores, a situação já é bem diferente. Essas produções dependem de uma cooperativa ou de um mercado urbano. As famílias seguem regras impostas pela sociedade urbana. Possuem registro civil e casam dentro das imposições sociais. Alguns possuem o ensino básico para suprir as necessidades dos “negócios”. O trabalho é dividido pelo gênero, o pesado fica com os homens até o momento de negociar a produção, nesse período, as mulheres acumulam os seus afazeres com a “lida” que pertence ao homem. Quando há uma queda do valor da produção, cabe à mulher diversificar para que a renda familiar não seja afetada. Por exemplo, se a produção é leiteira, cabe à mulher fabricar queijo e manteiga, o homem “negociador” só aparece para a distribuição da mercadoria. Essa família é patriarcal, e os filhos homens aprendem a “lida” e são educados pelos pais, e as meninas seguem os caminhos das mães, sendo que algumas conseguem se manter nas escolas além do tempo necessário aos meninos, mas isso em nada afeta a situação submissa dessas meninas.  As mães passam a essas meninas o sonho de uma “vida melhor”, seja através de um “bom casamento” ou um trabalho na cidade. Nem sempre isso acontece, mas essas mães tentam mudar o destino de suas filhas, pois percebem que suas vidas são sempre voltadas aos mandos do marido. A violência que estas mulheres passam vem de várias formas: social, econômica, emocional e familiar; sua situação chega a uma quase escravidão, é forte, eu sei, mas elas sofrem abusos em todos os sentidos. Quando se casam, elas acreditam que não irão ter a mesma vida que suas mães levam, e se enganam. O homem é educado para não ser parceiro da mulher, mas sim seu dono. Algumas dessas mulheres conseguem, em geral através de alguma filha que alcança uma vida urbana, sair de casa e tentar uma vida diferente da que levava. Mas as cidades são mais cruéis que os maridos. Sua mão de obra não se encaixa no mercado urbano, sua simplicidade e cultura são menosprezadas pelas pessoas que irão orbitar em sua nova vida. Essas mulheres conhecem bem o abuso que sofrem, mas ignoram seus direitos, por isso elas acabam voltando para os maridos ou vivendo como dependente de alguma filha “bem sucedida”. Para elas não existe opções, apenas a aceitação de sua condição inferior e dependente.

Agora a grande surpresa, as mulheres do agronegócio são as que mais sofrem abuso e violência. Essas mulheres tem acesso a informação, tecnologia, viagens, educação e renda no sentido de realizar seus desejos materiais. Elas são criadas para serem: lindas, cultas e elegantes gerando orgulho a seus pais quando expostas como animais premiados em eventos. Em muitos casos elas se casam por conveniência, seja unindo fortunas ou diversificando a atuação da família entre o rural com urbano ou político. Elas conhecem muito bem seus direitos e também a forma de violência que sofrem, mas aceitam pacificamente, pois um “cartão de crédito ilimitado” vale mais que a opção independente de uma vida restrita. Lembrem que esse texto é baseado na generalização da situação estudada e se situa numa porcentagem de maioria. Quando essa mulher, por algum motivo, recebe uma grande fazenda como herança ou divisão de bens, ela vai ser totalmente discriminada, a ponto de ter que colocar um administrador para que seus funcionários não precisem receber ordens de uma mulher, mesmo se ela tiver competência para gerir sua fazenda, mas nesse meio o machismo impera.

A Violência contra a Mulher é real e extremamente cruel, não importa de onde vem, se é da sociedade, da família ou do Estado, ela existe. É claro que existem exceções, casos de mulheres fortes e capazes de trilhar seu próprio destino. Mas são poucas, uma minoria que consegue sobreviver dignamente num mundo preconceituoso, machista e racista, Sua luta é diária e sem admissão de erros porque apenas dessa forma elas podem dar voz e decidir seu rumo.

Esse tema deve ser interpretado com base na micro história, ou seja, usando pequenas regiões e analisando cada caso, assim como na cidade, a mulher campesina também sofre violência, mas em certos casos elas sabem reagir e “tomar as rédeas” da situação (como elas costumam dizer).

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A mulher não está homenageada nas ruas

 

Deborah Prates, advogada e deficiente visual

 

Num certo dia um motorista ao me conduzir ao endereço combinado o fez com o auxílio de um GPS. Então, fui prestando atenção nos nomes das ruas que o aplicativo ia falando. Chamou-me a atenção o fato de não ter ouvido nenhum nome de mulher nas ruas anunciadas.

Espantada com o óbvio travei um pequeno diálogo com o motorista:

– O senhor costuma ouvir nomes de mulheres nas ruas e praças nos trajetos que faz?

– A senhora sabe que nunca parei para pensar sobre isso! Mas agora, pensanbo bem, acho que não. Mas, por que a pergunta?

– Talvez porque seja feminista. De repente me veio esse questionamento.

Na privacidade das minhas reflexões fiquei a lembrar dos nomes das ruas no bairro onde moro e nos vizinhos. Inacreditavelmente não recordei nenhuma rua com nome de mulher. Chegando em casa fui pesquisar e confirmei a inexistência de qualquer homenagem a uma personagem mulher traduzida em uma placa de rua no entorno da minha residência.

placa-de-rua

Detectei algumas poucas em outras localidades. Nossa, uma migalhice comparando-se as homenagens concedidas aos homens. De longe podemos entender essa constatação como algo banal. Ao contrário, as mulheres precisam estar mais unidas para que o movimento feminista tome corpo. Vale dizer que necessitamos estar mais nas ruas. Ocupar, de verdade, os espaços públicos e privados que também são nossos por humanidade e competência.

Claro que essa observação deve-se ao patriarcado que nos assola desde sempre. É que o homem reduziu a mulher a uma coisa dando-lhe um significado puramente material. Verdadeiramente a mulher ainda é vista como um ser insignificante, secundário. A lógica é que, como uma coisa, não pode ser alçada a um personagem capaz de receber uma homenagem revelada num nome de rua, monumento, praça, etc. Incontestável é que a exceção serve para confirmar a regra de que a igualdade de gênero ainda é incipiente.

Para o pensador grego Aristóteles os homens eram seres pensantes, pelo que decidiam avida na pólis. Iam às ruas fazer política. Já as mulheres eram seres secundários, não pensantes, razão porque tinham os seus lugares da porta para dentro, melhor dizendo, confinadas nos lares. Por não serem essenciais é que serviam para procriar e criar os filhos, bem como cuidar dos escravos e animais.

Lamentavelmente essa ideia ainda está entre nós em 2016, pelo que carecemos refletir, conversar sobre esse sutil detalhe. Faz pouco tempo que a grande mídia noticiou uma matéria dando ênfase a uma mulher de “sorte”, anunciando-a como bela, recatada e do lar. Por estarmos mais zelosas e reflexivas foi que demos o troco nas redes sociais com muita veemência, de modo a abominar e rechaçar os predicados enfatizados na machista notícia.

Notadamente não queremos mais estar confinadas nos domicílios, tampouco nos importa a beleza, o recato e o abominável título de a rainha do lar. Hoje queremos ser vistas e julgadas pela nossa competência em todas as áreas do conhecimento. Isso sim!

A partir destas ponderações, se faz prudente pensar: e as mulheres com deficiência? Representando esse seguimento afirmo que não encontrei qualquer placa de rua homenageando uma mulher com deficiência.

Claro que temos muitas de nós que lutaram bravamente, por exemplo, pela aprovação da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, a fim de que tivesse status de Emenda Constitucional e tiveram sucesso nessa empreitada desgastante. Por que não estão homenageadas nas ruas? Existem muitas outras que se destacaram na nossa luta pela igualdade e que estão no esquecimento nessa nossa sociedade tão preconceituosa. Notório que as mulheres com deficiência ainda estão em fase gestacional. Precisamos nascer!

Tenho participado de muitas conversas em praças públicas na RJ e, com segurança, digo que tenho sido a única mulher com deficiência. Sempre peço a palavra e, ao usar o microfone, faço essa checagem. Pena mesmo!

Gritar, demandar, reclamar e estar nas ruas é o que temos a fazer, a fim de conquistar o nosso lugar dentro do movimento feminista.

SORORIDADE é a palavra mágica da hora. Mulheres com e sem deficiência precisam se unir para o fortalecimento do direito de igualdade de gênero. Mas, como conseguir essa visibilidade?

Indubitavelmente a resposta está nos valores e princípios éticos. O que as mulheres estão fazendo umas com as outras? Nítido que essa convivência vai muito mal! Tanto é assim que não somos chamadas para as rodas de conversas sobre as pautas de nosso interesse.

As mulheres sem deficiência precisam encontrar a si próprias para que enxerguem as mulheres com deficiência como iguais. Estas têm que reconhecer que não somos quase alguém. Somos sim mulheres de direito e obrigações tanto quanto elas. Daí, ficará fácil encontrarem à alteridade.

Creio que a pior cega é a que não quer ver, não é mesmo?

Pensar, pensar, pensar…

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