Blog da partidA, Invisibilidade, Mulheres e cinema

Cineclube Delas: o outro gênero do cinema

Samantha Brasil*

O  Cineclube Delas é um espaço feminista que surgiu do desejo e do encontro. Desejo de Camila Vieira e também meu em dedicar nossos olhares e nossas escritas, como pesquisadoras e críticas de cinema, ao protagonismo feminino dentro e fora das telas. Encontro nosso com Cavi Borges, cineasta e proprietário da produtora Cavídeo que, no início de 2016, passou a ocupar o Tempo Glauber na Rua Sorocaba, 190, em Botafogo (Rio de Janeiro).

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Assim, visando não só a exibição gratuita de filmes, mas, principalmente, o debate suscitado por eles, fez-se a parceria e no dia 14 de julho ocorreu a primeira edição do Cineclube Delas numa noite memorável e inesquecível. Foram exibidos dois documentários: o curta-metragem “Resposta das mulheres” (1975), de Agnès Varda, considerada uma das precursoras da “nouvelle vague” francesa, e o longa-metragem “She’s beautiful when she’s angry” (2014), dirigido por Mary Dore, que conta a história das mulheres que criaram o movimento feminista na década de 1960 nos Estados Unidos. Após a exibição dos filmes, ocorreu uma roda de conversa que contou com a presença de duas integrantes da #partidA  (a escritora Marcia Tiburi e a professora de Filosofia da UFRJ Susana de Castro) e da cineasta Sabrina Fidalgo.

Lembrando esse início das atividades do Cineclube, chamamos a atenção para o fato de que nos inserimos num contexto de retorno expressivo do cineclubismo em todo o Brasil nestes últimos anos. Porém, mesmo sendo este um circuito já alternativo, percebemos que não havia muitos espaços refletindo sobre questões de gênero – e não apenas quanto às representações vistas nas telas (ou seja, como as histórias são contadas), mas principalmente um debate sério e criterioso sobre quem faz os filmes, de quem é o olhar da câmera, quem conta as histórias. Partindo dessa inquietação, delimitamos que no Cineclube Delas seriam exibidos somente filmes realizados por mulheres, uma vez que esse espaço é destinado ao debate do protagonismo das mulheres no audiovisual em todas as etapas da produção fílmica.

De acordo com relatório publicado em janeiro de 2016 pela Agência Nacional de Cinema (ANCINE), dos 128 filmes brasileiros lançados em circuito comercial em 2015, apenas 19, ou seja, 14,8%, foram dirigidos exclusivamente por mulheres. Se fizermos um recorte observando a cor das pessoas que conseguiram efetivamente realizar, finalizar e distribuir tais filmes, essa realidade é ainda mais triste. De acordo com pesquisa divulgada pelo GEEMA (grupo de estudos do IESP/UERJ) em 2014, que analisou quem dirigiu os longas-metragens brasileiros de maior bilheteria lançados entre 2002 a 2012, veremos que apenas 13% foram dirigidos por mulheres, além da total exclusão de mulheres negras e mestiças.

Refletindo sobre todas essas questões, as curadoras tentaram abarcar a maior pluralidade possível de vozes e temas nas edições que acontecem mensalmente, nas segundas quintas-feiras do mês, às 19 horas. Fazendo um balanço geral, foram realizadas ao longo de 2016 nove edições, sendo seis mensais e três especiais. Uma dessas sessões ocorreu no dia 6 de outubro para o lançamento do DAFB (coletivo de diretoras de fotografia do Brasil) em parceria como o  Cineclube Quase-Catálogo (de Niterói), na qual foi feita uma chamada pública via Facebook visando exibir filmes dirigidos e fotografados exclusivamente por mulheres. Nessa noite, foram exibidos seis curtas-metragens e logo após foi lida uma
Carta Manifesto por Nina Tedesco, professora da UFF e uma das fundadoras do Coletivo, para abrir o debate que contou ainda com a fotógrafa Bia Marques e algumas das realizadoras. As outras duas sessões ocorreram fora da sede do Cineclube Delas: uma a convite do Laboratório Antígona, em 21 de novembro, onde foi exibido o documentário “Lute como uma menina” (de Beatriz Alonso e Flávio Colombini), na ocupação dos estudantes do IFCS/UFRJ, e a outra a convite do Facção Feminista Cineclube (de Duque de Caxias), no dia 3 de dezembro, na qual foi exibido o curta”Personal Vivator” (de Sabrina Fidalgo) na programação cultural do Baile Sarau do Escritório, na Lapa.

Assim, nesses seis meses de funcionamento, foram exibidos 6 longas-metragens, todos dirigidos por mulheres, e ainda 18 curtas-metragens, sendo 16 dirigidos por mulheres e 2 por homens trans. Os dois últimos foram exibidos no dia 10 de novembro em uma sessão emocionante dedicada à visibilidade trans que contou com a mediação de Indianara Sophia.

Os temas que perpassaram as edições mensais do Cineclube Delas foram: “o que é ser mulher?”( com exibição de 4 curtas que tangenciavam a questão com mediação da antropóloga ativista da #partidA Fátima Lima); “novas conjugalidades” (com a exibição do curta “Otimismo” de Karine Teles e do longa “Ralé” de Helena Ignez, com mediação de Ivana Bentes); “filmes de terror/suspense” (que contou com a presença da atriz Gilda Nomacce e mediação da crítica Cecilia Barroso) e “corpo como performance do feminino” (mediado pela crítica Roni Filgueiras).

A proposta do Cineclube Delas é, portanto, a de dar visibilidade à produção feita por, com e sobre mulheres em um meio extremamente machista como o audiovisual.

* Samantha Brasil é antropóloga, crítica de cinema, feminista da #partidA, curadora do Cineclube Delas e integrante do podcast Feito por Elas.

 

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