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Um agradecimento por Dororidade

imagem: Mulher Negra, de Januz Miralles

imagem: Mulher Negra, de Januz Miralles

por Tainá de Paula*

Recentemente fui provocada a falar sobre uma heroína negra chamada Zacimba Gaba[1]. Dentre toda a história e mítica que a cerca, todo o processo de imersão sobre sua história me provocou uma longa discussão sobre o apagamento que as mulheres negras sofrem em sua historicidade e territorialidade. Afinal, quem narrou ou está disposto a narrar a história a partir de uma lente que amplie de fato as nuances da sociedade brasileira de forma respeitosa às matrizes africanas e contribuições afro-brasileiras?

Nesse sentido é importante, inicialmente, reverenciar a iniciativa de Vilma Piedade ao lançar o livro Dororidade, pois parte da luta antirracista está no esforço de resgatar ou trazer à tona as nossas narrativas. Não raro, apenas homens e mulheres brancas são colocados como intelectuais, pensadores, escritores etc, pois é assim que a estrutura de privilégio – e as imagens coletivas sociais são construídas apagando sistematicamente o nosso registro de contribuição ao espectro intelectual, como se não existíssemos. Já por isso é importante enaltecer Vilma, uma escritora negra que se afirma no corajoso exercício da escrita.

Para além de reconhecermos e apoiarmos sua coragem ao escrever, no entanto, ainda é preciso falar de Vilma, mulher de profunda ancestralidade. Nunca a vi sem torço, sua marca de mulher de axé. Sempre a ouvi publicamente reverenciando sua Oiá-Iansã e quando li os dois capítulos entitulados “Oiá-Iansã e o Poder feminino” (p. 31) e “Oiá-Iansã e o Poder Feminino na Tradição Iorubá” (p.32), fica claro o quanto é necessário enegrecer nossos feminismos e buscar novas formas de dizer e entender o próprio sentido da luta. E não há melhor forma de se dialogar com o povo de terreiro do que dialogar respeitosamente com suas referências. Nesse sentido, ler esse livro é extremamente educativo para quem tem avidez por saberes fora da lógica colonizante que ceifa todo o conhecimento não-branco.

Falar sobre o apagamento que a cultura dos povos tradicionais de matrizes africanas sofrem e fincar o termo racismo religioso, por exemplo (p.35) ao invés do termo “intolerância religiosa”, como caminho literário para falar da interseccionalidade é por si paradigmático, pois nos obriga a exercitar o que há muito Audre Lorde propunha:

Eu não posso me dar ao luxo de lutar por uma forma de opressão apenas. Não posso me permitir acreditar que ser livre de intolerância é um direito de um grupo particular. E eu não posso tomar a liberdade de escolher entre as frontes nas quais devo batalhar contra essas forças de discriminação, onde quer que elas apareçam para me destruir. E quando elas aparecem para me destruir, não demorará muito a aparecerem para destruir você.

(LORDE em “Não há Hierarquia de Opressões”)

Este é o ponto central de Dororidade, ao meu ver: existe luta verdadeiramente feminista que não pense outros pontos que permeiem raça, classe, gênero? Existe feminismo digno desse nome que exclua outras opressões? Dororidade ajuda a alinhavar esses questionamentos que pulsam nos feminismos e utiliza um novo léxico que não substitui a sororidade que, ainda que emane uma irmandade entre nós (p.17), não preenche a princípio as lacunas de nossas singularidades.

É preciso resgatar a utopia da democracia feminista à luz de todas as mulheres. Inclusive as que usam ojás e as que se embalam ao som da gira, dos tambores. E que isso se faça importante a todas. Devemos encarar de frente “a Dor e a nem sempre delícia de se saber quem é, quem somos numa sociedade mascarada pelo mito da democracia racial…” (p.18). Afinal, existe feminismo na sombra do racismo? Existirá um feminismo que não seja antirracista por essência?

E que essa utopia seja dita no pretoguês de Lélia Gonzalez, como Vilma Piedade procurou fazer (p.12), pois é nessa disrupção de uma estética, de uma métrica e de um léxico que se dará nossa revolução silenciosa. A circularidade do conceito que foi criado por Vilma (p.16) nos eleva a outro patamar da discussão sobre essa dor que nos une. Que Vilma nos brinde com sua filosofia nova. E sim! Ela faz filosofia!

Obrigada por Dororidade.

[1] Zacimba foi uma escrava que sofreu toda a sorte de violência, não se submeteu e montou seu quilombo na região de São Mateus, Espírito Santo, nos idos de 1690. Liderou homens e mulheres na construção de uma resistência livre e organizada, que atacava navios negreiros e conduzia seus irmãos até seu quilombo. Hoje é inspiração e empresta o nome para alguns coletivos que debatem negritude e gênero, e participo de um deles.

TAINÁ *Tainá de Paula é arquiteta com mestrado em Urbanismo, ativista antirracista e feminista e integra a #partidA Rio.

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A luta de Eleonora

sombra de mulher
por Márcia Tiburi*

 

Eleonora Menicucci, ex-ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres e professora da Univesidade Federal de São Paulo, feminista que faz parte da história das lutas brasileiras pelos direitos das mulheres, se tornou protagonista de uma disputa judicial envolvendo o ator Alexandre Frota.

Uma disputa que leva ao Poder Judiciário a questão da cultura do estupro. Um modo de ver a mulher que levou ao conflito entre o ator e a feminista, mas que também está presente nas Agências Estatais. Sabe-se, não é de hoje, que a aplicação do direito não é neutra. O processo movido por Alexandre em face de Eleonora servirá, pelo menos, para revelar em que medida também o Poder Judiciário atua condicionado pela cultura do estupro, esse conjunto de valores, representações e práticas que consideram a mulher um objeto a ser utilizado para dar prazer ao homem.

Há tempos atrás, em entrevista ao apresentador Rafael Bastos, Alexandre Frota narrou e encenou como teria “comido”, nos seus termos, uma mãe de santo. Isso após ela ter permanecido calada diante de uma investida do ex-galã global (no relato, percebe-se que

a máxima machista “a mulher que cala consente” se fez presente). Em detalhes ele contou que acabou por fazê-la desmaiar ao pressionar demais sua nuca durante o ato (nessa parte do relato, a despreocupação com o corpo, a vontade e os interesses da mulher tornam-se explícita). A cena em que a figura da mãe de santo é “comida”, em que pese ter sido tratada como um objeto e como uma coisa, fez muita gente rir, pois o ator a contou em tom de piada.

No entanto, causou mal estar em muita gente que não viu graça em sua narrativa. Não ficou claro se a mãe de santo consentiu com o ato, no entanto, não há dúvida de que ela estava sendo objetificada. Se é lícito duvidar da veracidade do relato do ator, não há dúvida que o sexismo e a objetivação da mulher, que estão na base da “cultura do estupro”, foram os elementos utilizados na construção da narrativa apresentada à plateia (objetivação que se faz presente na forma como o ator tratou ao vivo uma menina presente no próprio programa).

Entre a graça e a falta de graça, cidadãs e cidadãos podem analisar o vídeo que está na internet e tirar suas próprias conclusões acerca do evento. É recomendável que assistam e dialoguem com seus pares (nós ajudamos uns aos outros conversando em busca de

compreensões mais razoáveis) sobre a cena sem moralismo. É preciso ter, no entanto, todo o cuidado ético, ou seja, é essencial que estejamos atentos para aspectos diversos que são ali apresentados.

Em primeiro lugar, é importante perceber que Alexandre Frota não está sozinho. Ele é o protagonista da situação na condição de entrevistado. De certo modo, se pode dizer que é ele que cria a situação com a sua narrativa. Ao mesmo tempo, não se pode deixar de perceber que ele é apoiado pelo apresentador que o acompanha e o estimula a falar. Por fim, há ao seu redor o riso das pessoas que o assistem na condição de platéia. Se a história não estivesse entretendo e agradando, talvez o ator parasse de falar e de encenar.

No que chamamos de cultura do estupro, todos parecem inconscientes da complexidade e da gravidade da narrativa que ali se encena. A cultura do estupro se constitui na apologia da objetivação da mulher para fins sexuais tratada como algo banal e corriqueiro. Não é um exagero dizer que toda a cena envolvendo Alexandre Frota, Rafinha Bastos e a plateia que ri se dá no contexto daquilo que convencionamos chamar de “cultura do estupro”.

O que vem sendo chamado de cultura do estupro refere-se ao contexto que legitima a violência tanto física quanto simbólica contra mulheres. Não se trata, portanto, da descrição legal do crime de estupro, mas de um quadro mental em que o estupro se revela sempre potencial. Muitas feministas, e não só no Brasil, ao falarem de “estupro”, utilizam essa palavra como elemento fundador de uma estrutura simbólica.

Todo o jogo de linguagem da televisão implica um retorno em termos de audiência e o riso das pessoas (in loco ou fora dali) naquele momento já surgia como uma espécie de apoio e de garantia de que ele pudesse continuar. É a esse contexto de apoio à objetificação e coisificação, de uso e abuso de uma pessoa reduzida à condição de corpo útil para uma prática sexual sem interação, que se cria a atmosfera cultural do estupro.

Na chamada “cultura do estupro”, o termo estupro revela o seu caráter conceitual e lógico. Ele é o núcleo, o cerne, de toda a cultura da violência contra mulheres marcadas como seres sexuais destinados à satisfação sexual dos homens. Seres cuja sexualidade é vista apenas como algo útil a um homem que, na base de um poder que lhe é conferido coletivamente, pensa e age abusando do corpo de uma mulher. Como sabemos, o “corpo” é o foco da dominação em todas as estruturas de poder, assim tanto no patriarcado quanto no capitalismo. O corpo da mulher, o corpo do trabalhador e o corpo do escravo, o corpo como coisa, são corpos condenados à violência.

Eleonora Menicucci foi condenada a pagar um valor por indenização moral a Alexandre Frota por ter reagido a uma espetacularização do machismo, naquilo que ela chamou de “apologia ao estupro”. De fato, a palavra estupro não aparece nas falas dos envolvidos na cena. Mas é justamente aí que mora um problema. Protagonistas e apoiadores que são os agentes, ainda que inconscientes, da cultura do estupro, não costumam se chamar pelo nome de estupradores. Não faria sentido.

Eleonora Menicucci, estarrecida com a cena como muitas pessoas, num ato de coragem, falou ao perceber que a cultura do estupro está em jogo mais uma vez. Talvez, na condição de figura que ocupou um alto cargo no governo, bem como um patamar altíssimo na cena pública como defensora dos direitos das mulheres, ela tenha se sentido responsável por dar voz a uma angústia coletiva.

No contexto dos acordos que se fazem em audiências de danos morais, teria bastado um pedido de desculpas para que Eleonora Menicucci estivesse livre do pagamento do valor financeiro. No entanto, Eleonora se recusou a pedir desculpas. Na medida em que ela repudia o acontecimento, esse pedido de desculpas é um preço muito alto a pagar. Podemos inclusive dizer que se trata de dar um valor financeiro a uma questão que, na verdade, não tem preço.

Na verdade, está em jogo a questão moral e ética que envolve a dignidade das mulheres no contexto em que a sociedade como um todo fomenta a chamada cultura do estupro. Mas não é só.

Uma condenação, em um caso como esse, exigiria a existência tanto de um ato ilícito praticado por Eleonora quanto a demonstração cabal de um prejuízo ao ator, ainda que esse prejuízo fosse à imagem de Alexandre. Nenhum desses elementos da responsabilidade civil se fazem presentes.

Em primeiro lugar, a fala de Eleonora não tinha como objetivo ofender Alexandre, mas descontruir a cultura do estupro reforçada pelo episódio. O elemento subjetivo da conduta não pode ser ignorado. Eleonora atuou no sentido de concretizar o projeto constitucional de vida digna para todos, inclusive para as minorias oprimidas pelo sexismo. Ora, uma conduta que visa reduzir a opressão sexual, portanto lícita e adequada à Constituição, não pode ser ao mesmo tempo ilícita.

Também não existiu prejuízo para Alexandre a ser compensado financeiramente por Eleonora. As declarações de Eleonora, que atingiram um público muito menor do que o do programa televisivo, são objetivamente incapazes de criar sofrimento ao ator ou prejudicar sua imagem. A própria narrativa do ato sexual com a “mãe de santo”, no qual se ri do fato da mulher ter desmaiado, revela que Alexandre não pode ser tido como um homem sensível ao outro. Também a imagem do ex-galã global não sofreu qualquer abalo. Nesse particular, também as declarações de Eleonora apenas mencionam características que Alexandre reforçou no programa mencionado e em relação às quais parece se orgulhar, tanto que as deixou evidentes na narrativa criticada.

Talvez um pedido de desculpas de Alexandre Frota à figura da mãe de santo pudesse neste momento nos livrar de uma perversão. Um pedido de desculpas à vítima – onde está essa mulher que, nesse momento, representa todas as mulheres aviltadas e humilhadas? – e ao que ela representou naquele momento talvez pudesse nos levar a um diálogo capaz de fazer a sociedade avançar no combate à violência contra as mulheres.

Temos que agradecer a Eleonora Menicucci por ter dado voz à indignação que nos leva a uma reflexão ética sobre a violência contra as mulheres e a cultura do estupro acobertada pela graça ignominiosa da dominação masculina.

* Márcia Tiburi é filófosa, escritora, professora e fundadora da #partidA

(Este artigo foi publicado originalmente em https://jornalggn.com.br/noticia/a-luta-de-eleonora-menicucci-contra-a-cultura-do-estupro-por-marcia-tiburi)

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Caminhando para Resistir! – sobre Racismo Religioso, Dororidade e Feminismo

*Vilma Piedade

 multidão na praia de Copa

Desde 2008, uma modificação na Lei Brasileira considera como crimes inafiançáveis invasões a templos e agressões a religiosos de qualquer credo.

A pena vai de um a três anos de detenção, sendo julgado em Varas Criminais e não mais nos Juizados Especiais.

Na nossa Tradição, como disse Mãe Beata de Iemanjá, “o corpo carrega axé!”… Carrega energia vital, energia que colocamos em movimento através da dança ritual. Nosso corpo é liberto de correntes, da culpa da tradição Judaico-Cristã. Não temos a visão dicotômica do bem e do mal. Não temos e nem criamos o demônio, o Diabo- anjo caído – esse conceito não nos pertence e nem nos representa. Logo, não vivemos com a culpa do pecado, já que não há pecado pra nós. Nosso corpo tem que estar saudável para saudarmos os Orixás! Nosso pensamento é circular, eu me reconheço no outro; eu sou porque o outro existe; eu sou porque você me reconhece – isso é UBUNTU – nosso princípio filosófico…

(PIEDADE, Vilma. O Poder Feminino na Tradição Iorubá. In: Revista LATINIDADES, 2013)

 

Mas enquanto o tempo passa e a Lei não se aplica…

A Violação de Direitos está atingindo, duramente, os Povos Tradicionais de Matriz Africana na Cidade do Rio de Janeiro, em especial as Casas de Axé situadas na Baixada Fluminense. Não é novidade que o Fundamentalismo avança a passos largos, galopantes, em todas as instâncias, travando os campos progressistas do fazer político. Então, não é estar fora da realidade pensar que em 2017, pleno século XXI, tenhamos a volta da caça às Bruxas e aos Bruxos!

Mas não estamos falando de qualquer Intolerância. De qualquer Culto. De qualquer manifestação religiosa. As práticas sagradas que estão sendo perseguidas, no Brasil, têm Cor… e é Preta… Preta. Aí… tudo que é Preto é tido ruim, nefasto – veja lá no dicionário…

A religiosidade de Matriz Africana na diáspora brasileira ressignificou símbolos, territórios. E a África, dentro de cada terreiro de Candomblé, ordenou a liturgia e resiste até hoje seguindo o caminho deixado por nossos ancestrais. Contudo, enfrentamos hoje, mais do que nunca, o desrespeito à memória de nossa ancestralidade, ao nosso Sagrado. Sagrado fundado pelas Mulheres. Mulheres de Axé. Nossas Matriarcas.  Resistência política, religiosa, cultural. As Mulheres de Axé são as pioneiras, fundantes do nosso Sagrado que está sendo depredado!

 A nossa religião, na África é comandada por homens, no Brasil se deu o inverso, porque aqui as mulheres foram as primeiras a conseguir as alforrias. Quando elas conseguiam as alforrias, elas já se tornavam comerciantes, elas vendiam jóias, vendiam mugunzá, elas vendiam acarajé, as chamadas negras vendeiras, que na Bahia, botaram o nome de mulheres do partido alto (…) então, com essas vendas, elas começaram a comprar os seus pares e também a comprar seus companheiros tanto maritalmente como companheiros da escravidão (…). A partir daí, elas conseguiam a alforria e a independência econômica  primeiro do que os homens (…) talvez tenha sido Iemanjá que deu essa força pra elas e Oxum, as Iabás certo, porque eu acredito que, como vieram pelo oceano, Iemanjá que deixou elas chegarem aqui, então eu acho que Iemanjá olhou assim e disse “Na África quem comanda são os homens, mas quem vai comandar no Brasil somos nós as mães, as mulheres”. Aí houve essa troca, as mulheres vão e formam os primeiros candomblés, porque a maioria era tudo sacerdotisa ou iniciada na religião dos antepassados dos orixás divinizados – e com a escravidão eles tinham que fazer mil peripécias, às vezes até faziam um samba, os senhores de engenho pensavam que era um samba, mas na verdade eles estavam louvando os orixás – aí essas velhas, que ficaram três famosas na Bahia foram Iyanassô, Adetá e Iyakalá. Adetá faleceu, Iyakalá voltou para a África e Iyanassô permaneceu no Engenho da Casa Branca, no Engenho Velho, em Salvador. Dessa casa matriz, aí vocês já sabem a história né, surgiram as principais casas de Salvador, que regem soberanas: o Gantois, o Afonjá e a Casa Branca…”( In: https://vixinterativa.blogspot.com.br/2015/03/mulheres-fundadoras-e-pioneiras-dos.html)

Não esqueçamos, neste momento,  que o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa nasceu exatamente por conta da marca criminosa da Intolerância, do Racismo que vitimou uma Matriarca de Axé:

21 de janeiro – Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, instituído pela Lei nº 11.635, de 27 de dezembro de 2007,  rememora o dia do falecimento da Iyalorixá Mãe Gilda, do terreiro Axé Abassá de Ogum (BA), vítima de intolerância por ser praticante de religião de matriz africana.

A sacerdotisa foi acusada de charlatanismo, sua casa atacada e pessoas da comunidade foram agredidas. Mãe Gilda faleceu no dia 21 de janeiro de 2000, vítima de infarto… (In: site SEPPIR)

O Racismo mata. Maltrata. Exclui. Sataniza. E olha que não fomos Nós que inventamos o demônio. Já fomos combatidos pela colonização. Agora, somos atacados pelo fundamentalismo. Temos muros pichados com dizeres demonizando nossa Fé. Desrespeito e discriminação no trabalho. Na rua. Nas escolas. Na vizinhança, etc… Tudo porque temos outra forma de ver o mundo cujas origens e raízes são guardadas na matriz africana. O Racismo Religioso não nos dá tréguas. Por isso precisamos Caminhar!

Por isso fizemos há poucos dias, em Copacabana/RJ, a nossa Caminhada pela Liberdade Religiosa. Fomos apelar pelo Respeito à nossa Tradição, à liberdade religiosa! (Na foto, logo abaixo, Vilma Piedade ladeada por Vanda Ferreira e Helena Theodoro).

Vilma e outras

Sabemos, no entanto, que o processo é lento… Resistência Linguística. Mulheres Negras… Dororidade… Mãe Preta. Yalorixás. Racismo. Tradição. Desconstrução. Preservação dos Nossos Valores Civilizatórios… Essa fila precisa andar mais rápido. A resistência linguística, a preservação da Língua Iorubá, também se deve às Mulheres nos Terreiros.

Nosso léxico é racista. Colonizado. Nossa língua colonizada continua alimentando o Racismo Estrutural, pai do Racismo Religioso. Posto. Legitimado por uma grande parte da sociedade que ainda acredita que as desigualdades não existem ou estão superadas. Pois bem… Deveriam acessar os dados oficiais, que demonstram exatamente o contrário.

E o que será que o Feminismo Contemporâneo tem a ver com isso? Acredito que tudo a ver.  Pois como vamos conseguir, de fato, construir um Feminismo Dialógico Interseccional se nossa história e nossos valores civilizatórios não forem incorporados nas práticas e ações do Feminismo?  Pra ser Dialógico Interseccional , o Feminismo precisa mudar ainda mais a cor, ela precisa ficar mais preta. São muitos tons de Pretas.

O Feminismo Brasileiro precisa conhecer nossa história.  Precisa falar do Racismo!  A situação das Religiões Afro-Brasileiras é a mais vulnerável frente às violações dos Direitos assegurados na Constituição , promulgada em 1988, que garante a liberdade de crença e culto (artigos 5º e 19º). E a maioria dos Terreiros é liderada por Mulheres. E aí? Por uma Democracia Feminista com o toque do tambor…com o girar das nossas saias. Por uma Democracia que inclua todas as Mulheres!

Mas vamos aos Dados:

Os números demonstram de forma inequívoca que os adeptos e Terreiros de Religiões de Matriz Africana são a maioria entre os casos denominados de “Intolerância Religiosa”. Dos 300 casos denunciados ao Disque 100, da Secretaria de Direitos Humanos, 26,19% das vítimas eram candomblecistas e 25,79% eram umbandistas. Segundo os dados da Secretaria dos Direitos Humanos (SDH), vinculada ao Ministério da Justiça, entre janeiro e setembro de 2016 (dado mais recente disponível), foram registradas 300 denúncias de Intolerância Religiosa pelo Disque 100. Na comparação com o mesmo período do ano passado, que teve 146 denúncias, foi registrado um aumento de 105%.

Contudo, é importante lembrarmos que os ataques e as perseguições são mais antigos por aqui do que possa parecer. Pra falar disso, como diria Lélia Gonzalez, vamos revisitar um pouco a História…

Registrada pelos estudiosos da História do Brasil, “A Quebra de Xangô” (ou o “Dia do Quebra”, ou ainda o “Quebra de 1912”) foi um crime hediondo de Intolerância Religiosa – daqui por diante denomino como Racismo Religioso – que aconteceu no dia 1 de fevereiro de 1912 em Maceió /AL. O ato culminou com a invasão e a destruição dos principais Terreiros de Xangô em Maceió. Todas as Casas de Culto Afro-Brasileiro existentes na região foram destruídas. Terreiros foram invadidos, objetos sagrados retirados e queimados em praça pública. Pais e Mães de Santo foram espancados. A partir daí, os adeptos, iniciados nas práticas de Culto aos Orixás, criaram o chamado Xangô Rezado Baixo. E parece que estamos caminhando nessa direção. Retrocesso.

No período de 1889-1930, era comum a polícia perseguir os Cultos das Religiões de Matriz Africana, invadindo terreiros e apreendendo objetos sagrados. E, apesar da Constituição de 1891 garantir a liberdade de crença e culto, o Código Penal de 1890 criminalizava as Casas Sagradas e tipificava as manifestações, práticas rituais, como curandeirismo, baixo espiritismo, ou charlatanismo, alegando o exercício ilegal da medicina.

Esse mesmo Código Penal, aliás,  também criminalizava a Capoeira e o Samba. Ou seja: tudo que fosse resultante da Cultura Afro-Brasileira. Se é que algum dia esse Poder, no seu lugar de privilégios,  reconheceu que produzimos Cultura, que temos Cultura. Filosofia. Tradição. Valores Civilizatórios.

Aqui, mais uma vez, as Mulheres de Axé resistiram. No Rio de janeiro, Tia Ciata é referência na preservação do Samba e dos Rituais .

Já no período da República, o Candomblé foi proibido de exercer as suas atividades e os Terreiros ficaram subjugados à Delegacia de Jogos, Entorpecentes e Lenocínio. Portanto, sempre estivemos à  margem,  e o Estado Brasileiro nunca de fato coibiu as várias manifestações de Racismo Religioso que ocorreram no País ao longo de toda a nossa história, e até os dias de hoje.

Não esqueçamos, a propósito, que a Polícia Civil do Rio de Janeiro tem em seu poder, no Museu da Criminologia, mais de 200 peças sagradas da Umbanda e Candomblé, apreendidas desde a Primeira República (1889-1930). Nessa época, as Religiões Afro-Brasileiras eram duramente perseguidas e proibidas. Entre 1945 e 1985, então, podemos constatar: o acervo religioso apreendido era classificado de forma racista e pejorativa como “Coleção de Magia Negra”.

“Coleção da Magia Negra”. Ora… se tem Magia Negra é porque existe uma Magia Branca. É isso mesmo? Olha aí o Racismo Linguístico, ideológico, alimentando a Branquitude enquanto sistema de Opressão e Privilégios. Racismo Religioso.

Nesse esquema viciado, se a Magia é Branca… é boa. Bendita. Se a Magia é Negra… é ruim. Maldita. Tá tudo na Linguagem que alimenta e retroalimenta o imaginário social no cotidiano… E, lembrando Roland Barthes… E se a Língua pode ser entendida como a arena da luta de classes… dançamos… Lá se vão 100 anos longos anos, agora, e o Estado continua mantendo esse acervo cultural e religioso sobre seu poder. Preso. No extinto Museu de Criminologia.  E ainda hoje, tem que ter uma Campanha denominada “Libertem o Nosso sagrado”, para que esses objetos possam ser destinados a outro museu. Com respeito. Reconhecimento. Tradição.

E em 2017,  mais uma vez, estão arrebentando os Terreiros de forma violenta. Estão silenciando nosso Sagrado… nosso Saber Ancestral. Essa cultura criminosa que instaura o ódio religioso se volta, de forma absurda, contra os Terreiros na Cidade do Rio de Janeiro.

Mas, como vimos, a História não aponta novidades nesse processo. O Racismo Religioso vem de longe… e acompanha nossos passos desde que nos trouxeram à força pra cá. Por isso que a fala corrente é de que o Povo Preto é Resistente. Mas chega de tanta Resistência! Essa fala referendou o crime da escravidão e mostra que a sociedade não esqueceu que fomos escravizados. E esse mesmo dizer não serviu e não serve para fazer valer nossos Direitos garantidos na Constituição Brasileira.

O Racismo Religioso, portanto, caminha com a quebra da Laicidade do Estado.  E olha que já são 100 anos para libertar o Sagrado Afro-Brasileiro. E somente em 2015 foi criada uma agência especificamente dedicada à Discriminação Religiosa, chamada Assessoria de Diversidade Religiosa e Direitos Humanos.

(*Vilma Piedade é Mulher Preta, Ativista, de Axé, e da RENAFRO. Integra a PartidA RJ e a AMB, a Articulação de Mulheres Brasileiras. E este artigo foi publicado originalmente em http://agoraequesaoelas.blogfolha.uol.com.br/2017/09/16/mulheres-de-axe-caminhando-pra-resistir/).

 

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Violência contra a mulher rural

Helena Niemeyer

Nos últimos 30 anos, tive a oportunidade de conhecer de perto várias formas de cultura rural no Brasil. Vi mulheres fortes, submissas, poderosas, sonhadoras, dependentes e outras que simplesmente sabem qual é o seu papel no grupo que pertencem. O ponto em comum entre elas é a violência, a maioria não percebe que sofrem algum tipo de violência, pois o mais importante é a sobrevivência.

Como historiadora, devo criar limites na pesquisa para que sua eficiência se torne possível para estudos mais específicos e/ou ajudar a dar consciência às mulheres de seus direitos e informações básicas para seu crescimento como cidadã independente.

Resolvi delimitar, para meu conforto, o interior do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. Nos últimos dois anos tenho feito alguns contatos e interpretações a respeito da vida definida para mulheres nesses três Estados. Para que esse texto não se transforme num tratado, vou fugir das regras historiográficas e usar uma abordagem generalizada, que não tenho o hábito de aplicar por não ter uma interpretação realista, mas poderemos perceber um contexto repetitivo da situação da Mulher no meio Rural.

Como, no Brasil urbano, também há uma sociedade vertical e patriarcal no mundo rural, por isso vou dividir em três grupos distintos: a Mulher no Agronegócio, a Mulher na pequena e média propriedade produtora e as excluídas.

Começo pelas Excluídas, termo que agride aquelas que lutam pela causa humanitária. Esse grupo é aquele que vive do roçado, a sua produção é para a sobrevivência do grupo ou família. Quando há sobra dessa produção, ela é usada para troca de produtos ou animais, em geral cabras e galinhas. Vou nominar grupo e não família, primeiro porque não há vínculo familiar que satisfaça as regras sociais, e segundo porque o trabalho não é dividido pelo gênero, mas pelas condições de realização. Neste grupo a parceria é fundamental, não existe entre eles o fator de incapacidade, nem em relação às crianças. São equipes com funções de acordo com sua capacidade, todos cuidam de todos, pois a ausência de um vai sobrecarregar o outro. Vejo nesses grupos muito respeito, colaboração e troca de conhecimento. Se bem que eles nem sabem que agem dessa forma. Esses grupos sofrem a violência da exclusão do Estado, não só as mulheres, mas todos que estão nessas condições. A grande maioria não possui registro civil e nem usam o capital. Vivem de doações vindas de religiosos (sejam católicos, espíritas ou protestantes), como roupas, sapatos, utensílios e itens que não produzem como a cesta básica. O conhecimento cultural desse grupo é intenso, eles passam para as gerações o conhecimento de plantio assim como o das ervas medicinais que amenizam sintomas ou doenças. Não possuem conhecimento de higiene básica nem saneamento. Encontrei em alguns grupos, homens com duas mulheres e filhos convivendo em harmonia, assim como também mulheres com dois maridos e filhos, e me surpreendi quando essas mulheres sabem dizer de qual homem é o filho. Esses grupos vivem longe de qualquer centro urbano e por essa razão criam suas próprias regras de conduta, vivem em harmonia igualitária e o ponto principal é a sobrevivência.

Na questão das mulheres dos pequenos e médios produtores, a situação já é bem diferente. Essas produções dependem de uma cooperativa ou de um mercado urbano. As famílias seguem regras impostas pela sociedade urbana. Possuem registro civil e casam dentro das imposições sociais. Alguns possuem o ensino básico para suprir as necessidades dos “negócios”. O trabalho é dividido pelo gênero, o pesado fica com os homens até o momento de negociar a produção, nesse período, as mulheres acumulam os seus afazeres com a “lida” que pertence ao homem. Quando há uma queda do valor da produção, cabe à mulher diversificar para que a renda familiar não seja afetada. Por exemplo, se a produção é leiteira, cabe à mulher fabricar queijo e manteiga, o homem “negociador” só aparece para a distribuição da mercadoria. Essa família é patriarcal, e os filhos homens aprendem a “lida” e são educados pelos pais, e as meninas seguem os caminhos das mães, sendo que algumas conseguem se manter nas escolas além do tempo necessário aos meninos, mas isso em nada afeta a situação submissa dessas meninas.  As mães passam a essas meninas o sonho de uma “vida melhor”, seja através de um “bom casamento” ou um trabalho na cidade. Nem sempre isso acontece, mas essas mães tentam mudar o destino de suas filhas, pois percebem que suas vidas são sempre voltadas aos mandos do marido. A violência que estas mulheres passam vem de várias formas: social, econômica, emocional e familiar; sua situação chega a uma quase escravidão, é forte, eu sei, mas elas sofrem abusos em todos os sentidos. Quando se casam, elas acreditam que não irão ter a mesma vida que suas mães levam, e se enganam. O homem é educado para não ser parceiro da mulher, mas sim seu dono. Algumas dessas mulheres conseguem, em geral através de alguma filha que alcança uma vida urbana, sair de casa e tentar uma vida diferente da que levava. Mas as cidades são mais cruéis que os maridos. Sua mão de obra não se encaixa no mercado urbano, sua simplicidade e cultura são menosprezadas pelas pessoas que irão orbitar em sua nova vida. Essas mulheres conhecem bem o abuso que sofrem, mas ignoram seus direitos, por isso elas acabam voltando para os maridos ou vivendo como dependente de alguma filha “bem sucedida”. Para elas não existe opções, apenas a aceitação de sua condição inferior e dependente.

Agora a grande surpresa, as mulheres do agronegócio são as que mais sofrem abuso e violência. Essas mulheres tem acesso a informação, tecnologia, viagens, educação e renda no sentido de realizar seus desejos materiais. Elas são criadas para serem: lindas, cultas e elegantes gerando orgulho a seus pais quando expostas como animais premiados em eventos. Em muitos casos elas se casam por conveniência, seja unindo fortunas ou diversificando a atuação da família entre o rural com urbano ou político. Elas conhecem muito bem seus direitos e também a forma de violência que sofrem, mas aceitam pacificamente, pois um “cartão de crédito ilimitado” vale mais que a opção independente de uma vida restrita. Lembrem que esse texto é baseado na generalização da situação estudada e se situa numa porcentagem de maioria. Quando essa mulher, por algum motivo, recebe uma grande fazenda como herança ou divisão de bens, ela vai ser totalmente discriminada, a ponto de ter que colocar um administrador para que seus funcionários não precisem receber ordens de uma mulher, mesmo se ela tiver competência para gerir sua fazenda, mas nesse meio o machismo impera.

A Violência contra a Mulher é real e extremamente cruel, não importa de onde vem, se é da sociedade, da família ou do Estado, ela existe. É claro que existem exceções, casos de mulheres fortes e capazes de trilhar seu próprio destino. Mas são poucas, uma minoria que consegue sobreviver dignamente num mundo preconceituoso, machista e racista, Sua luta é diária e sem admissão de erros porque apenas dessa forma elas podem dar voz e decidir seu rumo.

Esse tema deve ser interpretado com base na micro história, ou seja, usando pequenas regiões e analisando cada caso, assim como na cidade, a mulher campesina também sofre violência, mas em certos casos elas sabem reagir e “tomar as rédeas” da situação (como elas costumam dizer).

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Mulheres negras, violência e racismo

O Poder Feminino na Tradição Iorubá

Por Vilma Piedade

No Dia Latino-americano e Caribenho de Combate à Violência Contra as Mulheres /2015, esse artigo/pesquisa foi publicado na íntegra, no portal do IBASE http://ibase.br/pt/noticias/o-poder-feminino-na-tradicao-ioruba/ . Apresentei esse trabalho, inicialmente, no Congresso LATINIDADES, em Brasília, em 2013.

Aqui, uma síntese do trabalho para reflexão nos 16 dias de ativismo! Mulheres Negras. Violência. Racismo.

Mas, vamos lá!

Nos últimos 10 anos da Lei Maria da Penha houve um aumento de 54% no número de homicídios praticados contra mulheres negras e, por outro lado, uma redução de 9,8% nos homicídios contra mulheres brancas, conforme dados do Mapa da Violência da Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais”

Buscando a oralidade na Tradição Africana encontramos variadas práticas de pensamento, que se ancoram nas tradições, mitos – denominados itans – que os povos africanos fundaram e se basearam para construir sua cultura, suas histórias.

Para escrever e pesquisar sobre o Poder Feminino na Tradição Iorubá, tentei me distanciar ao máximo (exercício difícil do pensamento colonizador do Ocidente), para refletirmos acerca das tradições africanas e, particularmente, sobre a trajetória mítica da Iabá – Iansã ou Oiá que alicerça essa escrita.

Um pouco da nossa História… Quando me refiro à Tradição Iorubá faz-se necessário escurecer o texto e citar um pouco da História:

Quando viemos para o Brasil, há mais de 500 anos, fomos retirados à força de nossos territórios e escravizados aqui. Falo no masculino porque vou me reportar ao meu lugar – o lugar da Tradição. E, como tal, nos identificamos como Povos Tradicionais de Matriz Africana. Isso porque falo e escrevo na perspectiva do Terreiro, como Mulher Negra, Pensadora, Ativista e de Axé.

Este texto se estrutura a partir da noção de Tradição resultante de um conjunto diverso de experiências culturais africanas e que foi atravessado pela experiência da colonização, de modo que há também culturas coloniais em solo africano. E não é com essas experiências culturais coloniais /modernas que estabeleceremos nosso diálogo, mas com as experiências que resistem, se modificam, se rearticulam, apesar da colonização.

Há uma diversidade de Tradições Africanas no Brasil que só se manifestam e são ritualizadas / reatualizadas nos espaços de Terreiro. Porém, tem um princípio que une todas as Tradições – o princípio do acolhimento. Tem um outro princípio que nos une – a palavra.

A palavra que realiza. A palavra que vem do Axé, a palavra que tem o poder da realização.

Tradicional, portanto, não é apenas o antigo, mas aquilo que se manteve em movimento, conservou-se em mudanças, diante das forças coloniais que construíram a África, tal como, demodo geral, a conhecemos hoje (MUDIMBE, 1988).

Nós-as Mulheres e as Representações Sociais

As representações sociais das Mulheres na tradição ocidental, desde os primórdios, são de que Nós fomos feitas da costela de Adão o que nos transformou em apêndice, Mulheres função – propriedade. Propriedade do machismo que mata as mulheres no cotidiano.

Continuando, segundo os textos bíblicos, fizemos Adão comer aquela infeliz maçã e, com isso, transformamos a humanidade em “pecadora”, já que a humanidade perdeu o estado de graça que tinha no paraíso. E, a partir daí, fomos e somos penalizadas até hoje.

E foi escrito,“mulher, parirás com dor”. Essa “máxima” da tradição judaico-cristã, persegue as Mulheres e Jovens Negras até hoje ao utilizarem os serviços do SUS para o parto normal, pois, segundo dados da OMS – Organização Mundial de Saúde – mulheres e jovens negras recebem menos anestésico local ao parir.

Junte-se a isso o Racismo e o Racismo Institucional que transformou a População Negra em resistente à dor, pois esse pensamento serviu para justificar a escravidão e estamos até agora no combate ao Racismo no Brasil.

No séc XIX, Rousseau disse que temos uma condição esquizofrênica: estamos entre a santa e a pecadora, porque, segundo o autor do Contrato Social, a mulher ideal é a que tem o corpo interdito ao prazer – corpo santo. E esse pensamento ainda é moderno, perpassa e vitimiza mulheres, jovens e meninas em várias culturas, inclusive na nossa. Diante do cenário político que vivenciamos, nosso corpo não nos pertence.

Até hoje é grande a luta das Mulheres pela descriminalização e a legalização do aborto no Brasil. Ocorpo feminino interdito, da burca, da procriação, não pode ser exposto – esse corpo pertence a Deus! O corpo da luta política, o do prazer, do direito ao nosso corpo, é demoníaco, do mal.

O corpo feminino tem que estar coberto porque ele é tentador e, no caso das Mulheres Negras, é um corpo objeto sexual, pronto para ser consumido. Afinal, conforme já foi dito – a carne negra é a mais barata do mercado!

Portanto, as representações sociais da sexualidade feminina que circulam em nossa sociedade estão ancoradas em discursos da tradição judaico-cristã na Tríade Divina – Pai, Filho e Espírito Santo e nesse poder estruturante não existe a figura da mulher. O Poder é do masculino!

………Mas, e o Poder Feminino na Tradição Iorubá?

Na nossa Tradição, como diz Mãe Beata de Iemanjá – o corpo carrega axé! carrega energia vital, energia que colocamos em movimento através da dança ritual. Nosso corpo, a nível simbólico, é liberto de correntes, da culpa da tradição Judaico Cristã. Não temos a visão dicotômica do bem e do mal. Não temos e nem criamos o demônio, o Diabo – anjo caído – esse conceito não nos pertence e nem nos representa. Logo, não vivemos com a culpa do pecado, já que não há pecado pra nós.

Nosso corpo tem que estar saudável para saudarmos os Orixás! Nosso pensamento é circular, eu me reconheço no outro; eu sou porque o outro existe; eu sou porque você me reconhece – isso é UBUNTU – nosso princípio filosófico.

Apesar de eu pertencer à Tradição Ioruba, todas as Tradições se reconhecem, não há supremacia de uma sobre outra. Há mitos, ícones, linguagens corpóreas, rítmicas e musicais que nos identificam e nos aproximam.

Oiá Iansã e o Poder Feminino

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Vou falar do Poder Feminino me referendando em Minha Mãe – Iansã! Iansã vai lá e cá, transita entre o Orum e o AYê, é o princípio e o fim; ela circula. Minha Mãe é minha origem, minha Ancestralidade.

Na nossa Tradição as mulheres são portadoras de muito axé. O nosso corpo – morada dos Orixás, é um corpo que dança. É um corpo liberto. A dança de Iansã representa bem o que estou tentando dizer – XÔ Xô Xô Ecuru, ou seja, seus movimentos rítmicos espantam os eguns. Ela dança, se mexe, é a própria transformação, o movimento. Isso é circular para todo Axé, todo o Terreiro. Através das danças rituais a mulheres incorporam a força cósmica criando novas possibilidades de transformação e mudança. É o lugar do Saber Ancestral. Através da dança o corpo é um território livre, mesmo tendo sido marcado a fogo e ferro pela escravidão e ainda marcado pela violência do racismo!

Na nossa Tradição, sem o Poder Feminino, sem o princípio da criação, nada acontece, nada nasce, tanto, que o Matriarcado é fundante no candomblé no Brasil. Sem a mulher, sem esse princípio feminino da criação, não existe vida, por isso a mulher deve ser reverenciada!

Oiá- Iansan…e o Poder Feminino na Tradição Iorubá..Falar de avanços e conquistas na luta das Mulheres Negras pegando a Tradição, a trajetória de Oiá- Iansan é o objetivo ao qual me proponho. É uma das representações do Poder Feminino na Tradição Iorubá. Ela está presente no tempo, no espaço. É o próprio ar em movimento que caracteriza sua essência. É a Deusa- Iabá que, graças a sua agilidade de espalhar axé, transita no mundo dos vivos e dos mortos. Guerreira, divindade dos ventos, das tempestades, dos raios, dos redemoinhos. Do fogo, da pele de búfalo. Eparrei! saudação de Oiá- Iansã.

Cosi Ewe, Cosi Orixá…significado na língua Ioruba- sem Folha, não tem Orixá! Conta a lenda-itan que Xangô – Senhor do Fogo, da Justiça e do Trovão, teria pedido à Iansã que soprasse um vento forte para fazer cair de uma árvore, a cabaça onde Ossain – Orixá das Folhas – guardava todas as folhas da Terra e levasse a cabaça pra ele. Iansã pensou mais ou menos assim…porque vou dar todo esse poder a Xangô? E, ao invés de fazer cair a cabaça, soprou forte, as folhas se espalharam e cada Orixá pôde pegar a sua folha. E, a partir daí, cada Orixá passou a ter a sua folha de fundamento ritual. É o uso coletivo.

Falar de avanços e conquistas na luta das Mulheres Negras pegando a Tradição, a trajetória de Oiá-iansan é o objetivo ao qual me proponho.

Continuando, Iansan teria percorrido muitos reinos. No reino de Ire, na cidade de Ogun, ela aprendeu a usar, manusear a espada; em Oxobô, com Oxaguian, aprendeu a usar o escudo para se defender como nós; com Lógun-Edé – a pesca: com Oxossi, a caça, a pele de búfalo; com Exu aprendeu a usar o fogo , a magia; Com Obaluaiê , ela recebe a chave do Igbalé – o lugar para onde vão as pessoas quando morrem (corpo), já que o Egun (espírito em outras tradições) vai pro Orun.

Assim como Oiá, Iansã se apropriou dos poderes ditos masculinos, dos Orixás, já que Iabá é uma denominação usada para Divindades femininas, como Iemanjá, Oxum, Nanã, Ewá, Obá, Oiá-Iansan e Eborá. Nós também podemos utilizá-los como estratégias para a nossa luta política na promoção e garantia dos direitos das Mulheres Negras.

Assim como na dança ritual de Oiá /Iansan o Axé se espalha, a partir dos mitos da nossa tradição, para abandonarmos a visão eurocêntrica do feminismo, aproveitar o que nessa teoria fortalece a nossa luta, contudo, sem perder de vista as estratégias de luta que podemos utilizar no nosso Feminismo Preto.

Que a força de todas as Mulheres ….tenha o poder de transformação .

A Ancestralidade marca nossa identidade. Portanto, agradeço a todas as mulheres negras que nos antecederam nessa luta, nessa marcha- Mãe Senhora, Mãe Aninha, Mãe Olga do Alaketu, Mãe Menininha do Gantois, Luiza Mahin, Tia Ciata, Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Ângela Davis, e tantas outras …..

Vilma Piedade, ou Vilma de Oiá, Editora de conteúdo da Plataforma PRETA Brasil, Coordenadora Nacional de Articulação Política da RENAFRO (Rede Nacional de Religiões Afro- Brasileiras e Saúde) e Consultora na Temática Racial da CAMTRA- Casa da Mulher Trabalhadora

Axé para todas e todos!

Eparrei Oiá! Obrigada por ser sua filha!

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