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A Cor da Faxina no Brasil

Vilma Piedade*

Vilma

(Na Marcha das Mulheres Negras – RJ – 2016)

E pra falar que a Nossa História Importa, ou pelo menos, deveria, continuo insistindo:

… “Dororidade¹ … o que é?  Ou o que pretende ser?

Seria a Dor e a nem sempre Delícia de se Saber ou de não se Saber

Quem Somos…”

Ou quando se saber quem é, não importa pro Racismo. Precisamos dizer a todo momento Quem Somos. Luana Tolentino teve que responder quem era…o que fazia … a Branquitude ainda não esqueceu dos grilhões com que nos acorrentaram. E, a todo momento, temos que dizer, gritar…Ei gente, faz tempo que arrebentamos as correntes… apesar da grande maioria do nosso Povo Preto ainda continuar acorrentado na imobilidade da escala social.

Mas, a luta contra o Racismo continua. O Racismo não nos dá tréguas. Não vamos dar tréguas pro Racismo. Foi-se a Abolição Inconclusa e a Carne Preta ainda continua sendo a mais barata do mercado…

A pergunta feita à Historiadora Luana Tolentino por uma legítima representante da Branquitude  (“…Moça, você é Faxineira…?”), causou, recentemente, indignação  nas redes sociais. E a resposta de Luana à referida senhora (“…Não, eu faço Mestrado. Sou Professora …”) sinaliza que o Racismo avança a todo vapor.

Luana Tolentino, que recebeu a Medalha da Inconfidência de 2016, ao ser entrevistada pela Revista Fórum, relatou as experiências que passou ao longo de sua vida por conta do Racismo Institucional. Vejamos:

“… O que me deixa indignada e entristecida é perceber o quanto as pessoas são entorpecidas pela ideologia racista.

Sim. A senhora só perguntou se eu faço faxina porque carrego no corpo a pele escura…”

No imaginário social está arraigada a ideia de que nós negros devemos ocupar somente funções de baixa remuneração e que exigem pouca escolaridade. Quando se trata das mulheres negras, espera-se que o nosso lugar seja o da empregada doméstica, da faxineira, dos serviços gerais, da babá, da catadora de papel…” (in Revista Fórum- 18/07/2017)

Lélia Gonzalez , diante dessa persistência do Racismo no nosso País que afirma que não é Racista (sic) diria “…Cumé qui é? …” É aí que o bicho pega. E quando pega, apesar da Branquitude insistir em não reconhecer nossos Valores Civilizatórios, recorremos ao nosso princípio filosófico – UBUNTU  porque a gente produziu, produz conhecimento e temos Filosofia.

Só para lembrar, somos o País com maior População Preta fora de África. E, como estamos no chamado Julho das Pretas (desde 1992, celebra-se em 25 de julho o Dia da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha, um marco internacional da luta e da resistência das Mulheres Negras),  eu trouxe a opressão racista sofrida pela Historiadora Preta Luana Tolentino pra tentar discutir o Feminismo como Escuta e Diálogo…

Porque é apostando no Diálogo, na Escuta, no Feminismo Dialógico Interseccional que me coloco como Mulher Preta no Feminismo.  Minha escrita, minha escuta, minha fala, traz a marca das aberrações que o Racismo nos imprime e nos empurra goela abaixo no cotidiano.

Quando penso em Diálogo, na construção de um Feminismo Inclusivo, preciso recuperar nosso princípio filosófico. UBUNTU. Eu contenho o outro. Somos Um. Somos Uma. O famoso… pegou pra uma… pegou geral. Nosso Princípio é circular como as Rodas de Xirê no Candomblé… minha Tradição.

E aí? Será que não pode haver Diálogo Feminista e uma Democracia Feminista num País que vive ancorado no Mito da Democracia Racial? Ou pode? Acredito que sim. É possível.

A Democracia feminista pressupõe inserir mais Mulheres nos espaços de Poder. E Nós, Mulheres Pretas estamos nessa. E aí, não podemos esquecer Sueli Carneiro, quando aponta in Mulheres Negras e Poder: um Ensaio Sobre a Ausência, que “… A relação entre mulher negra e poder é um tema praticamente inexistente. Falar dele é, então, como falar do ausente…”

Então vamos ter que dialogar com essa ausência. Dororidade.

E, ainda, como construir uma Democracia Feminista sem dialogar com o Racismo sofrido pela historiadora Luana Tolentino… e tantas outras…outros…? Sem entender que a Faxina ainda tem Cor no Brasil? A Segunda Marcha das Mulheres Negras, vem aí….Marcha

E a Faxina tem Cor no Brasil. Tem Gênero. Tem Raça. É Preta.

Temos um grande desafio nessa construção. Precisamos continuar a discutir essa equação – Feminismo. Racismo. Branquitude – Opressão e Privilégios. Acredito ser uma equação perfeita para a viabilidade da construção do Feminismo Negro. Do Feminismo Dialógico Interseccional.

Buscando Ângela Davis in Mulheres, Raça e Classe“Raça, Classe e Gênero entrelaçados, juntos, criam diferentes tipos de opressão. Classe informa a Raça; Raça informa a Classe …”

E a Faxina tem Cor no Brasil. Tem Gênero. Tem Raça. É Preta.

Sim Luana, a referida senhora só perguntou se você faz Faxina porque você carrega no corpo a pele escura. Pele Preta. E, quanto mais Preta, mais Racismo. Steve Biko nos alertou sobre isso.

Violência contra Mulheres Negras

O aumento do Feminicídio também é Preto por aqui… O Feminicídio só avança. Contudo, as Mulheres Pretas estão morrendo mais.

Os dados oficiais reforçam que a morte das Mulheres no Brasil, tem Cor, tem Raça. Em 10 anos, de acordo com o último Mapa da violência, do governo federal, a vitimização entre as mulheres negras no Brasil cresceu 54,2%, enquanto o homicídio das brancas caiu 9,8%.

Diante dessa Dororidade Histórica,  precisamos trabalhar, cada vez  mais, Feminismo. Racismo. Branquitude – Opressão e Privilégios. Acredito que possa fortalecer a todas Nós. Pretas. Brancas. Mulheres.

Digo Pretas e não Negras para não continuar alimentando a base estrutural da Opressão provocada pelo Racismo. Opressão causada por um conceito que se estratificou. Cristalizou. Raça – Construção ideológica , fabricada pelo modelo econômico capitalista Branco. Modelo que alimenta o lugar de acúmulo, dominação e privilégios.

É, Luana…  Nosso lugar tá dado, posto na sociedade. É estrutural. – Mulher Preta é Pobre; Mulher Pobre é Preta …. com baixa escolaridade,  ocupando a base da pirâmide no mercado de trabalho, pelo menos na sua maioria. Nesse ponto, recorro mais uma vez ao pensamento de Ângela Davis: “… precisamos pensar o quanto o Racismo impede a mobilidade social da População Negra…”

Ângela Davis

Luana, você e muitas de Nós, Mulheres e Jovens Pretas, rompemos com o determinismo histórico imposto pra nossa População. O bicho pega e a Elite Branca não aguenta … “E aí, você faz Faxina?”… É uma pergunta que nunca espera a sua resposta “…Não, eu faço Mestrado…”

Quando eu falei que Dororidade carrega, no seu significado , a Dor provocada em todas as Mulheres pelo Machismo, destaquei que quando se trata de Nós, Mulheres Pretas, tem um agravo nessa Dor, agravo provocado pelo Racismo . Racismo que vem da criação Branca para manutenção de Poder…E o Machismo é Racista.  Aí entra a Raça. E entra Gênero. Entra Classe. Sai a Sororidade e entra Dororidade.

E a Pele Preta ainda nos marca e nos mata na escala inferior da sociedade. Por isso, e muito mais, infelizmente,  a Faxina tem Cor no Brasil.

No nosso caso, a história é diferente. O buraco é mais embaixo. Ou, parafraseando Lélia Gonzalez… “Cumé qui é?…”  Porque é o Racismo que nos dilacera .

É assim que entendo o Racismo. Dororidade. E, a qualquer momento, alguém também pode me perguntar, “…E aí, você faz Faxina?…”, e vou ter que responder “…Não…….Blá, Blá, …”.

A Branquitude poderia ser um pouco mais criativa e se dar ao luxo de pensar que a história é mais dinâmica que as palavras. Demora. Mas a fila anda. E nossa fila andou, apesar da faxina ainda ter cor por aqui. …Enquanto a faxina for preta, exclusiva das Mulheres Pretas, vamos ter que enfrentar esse desafio pós-moderno, colonizado –  reafirmar a todo momento Quem Somos. E nem sempre basta. Pro Racismo não basta.

“Dororidade … o que é?  Ou o que pretende ser?

Seria a Dor e a nem sempre Delícia de se Saber ou de não se Saber

Quem Somos….”

(*Vilma Piedade é Mulher Preta, Ativista, de Axé. PartidA Rio, AMB, RENAFRO)

 

Nota 1: o Conceito “Dororidade”, de autoria de Vilma Piedade,  foi pela primeira vez apresentado no evento Feminismo, Racismo, Branquitude: opressão e privilégios”, em 20 de maio de 2017, no Rio de Janeiro, dentro da série “Diálogos Feministas” da Escola com #partidA, e foi desenvolvido no artigo “Dororidade … o que é? Ou o que pretende ser?”, publicado  em 19 de maio de 2017 em https://partidanet.wordpress.com/2017/05/19/dororidade-o-que-e-ou-o-que-pretende-ser/

 

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Mulheres, não esperem sentadas!

Ou sobre as mulheres entre a violência e o poder

Márcia Tiburi (escritora, filósofa e ativista da PartidA)

Na equação política de Aristóteles, Pólis é a cidade-Estado e Óikos o território da casa. O primeiro é reservado aos homens e o segundo às mulheres, aos escravos e aos animais. Economia é um termo que tem na origem a palavra Óikos, do mesmo modo que política vem de pólis.

As bases da separação entre público e privado estão dadas aí e correspondem à diferença entre gêneros e classes, bem como entre cultura e natureza. No mundo da pólis se exerce a voz que leva à expressão e à partilha das ideias. Assim se constitui o reino da democracia ocupado pelos homens na ágora que é, justamente, o espaço público do encontro entre cidadãos. No espaço da casa, há o trabalho, a procriação e a sustentação organizada da vida.

Gostaria de propor algumas considerações sobre a importância dessa separação entre público e privado que coloca homens e mulheres (e escravos e animais) em mundos separados. Essa separação rege o pensamento e as práticas ético-políticas da história humana. Público e privado correspondem a mundos habitados por homens e mulheres (e escravos e animais).

Antes de seguir, devemos saber que o reino do público se define pela ordem do poder e o reino do privado pela ordem da violência.

É um fato que a violência contra as mulheres é uma constante cultural e que ela continua a crescer em todas as sociedades. A violência doméstica sempre foi assunto levantado pelas mulheres que fazem sua politização defendendo-se da violência, que vem dos homens dentro e fora de casa.

A questão da violência doméstica é até hoje uma das principais bandeiras dos movimentos feministas. A violência contra as mulheres é principalmente violência doméstica. A desigualdade do trabalho doméstico, o papel da maternidade e toda uma lógica do próprio casamento como submissão da mulher ao homem tem muito de violência. Em um tom mais radical, poderíamos até nos perguntar se a ordem doméstica não é, ela mesma, aquela que instaura as condições de possibilidade da violência doméstica. Guardemos essa hipótese que pode nos ajudar a refletir sobre a sustentação e avanço da violência doméstica. Talvez ela nos faça entender que a violência doméstica é a mesma que a violência extra-doméstica. A questão que proponho é que pensemos na intimidade conceitual e prática que há entre mulheres, vida doméstica e violência.

Ao mesmo tempo, precisamos ter em vista um dado que nos permitirá avançar em nossas considerações. É curioso que o lugar das mulheres no parlamento, nos poderes executivo e legislativo, seja hoje em dia tão pequeno e, em certos países, como o Brasil, continue a diminuir. As mulheres concernem bem mais ao mundo da violência do que ao mundo do poder, não é verdade?

A equação política continua evidente: de um lado estão as mulheres e a violência doméstica, de outro estão os homens e o poder público. A equação mostra o nexo mais profundo entre seus fatores no momento em que observamos a oposição que estrutura essa relação: enquanto a violência é “sofrida” por mulheres, o poder é “exercido” pelos homens.

Vamos deixar claro que a violência sofrida por mulheres é exercida certamente por homens, mas também por toda uma sociedade que produz esses mesmos homens como seres de privilégios contra outros seres que, não sendo homens, não teriam privilégios. Muitas mulheres que se sentem naturalmente parte do Patriarcado ajudam a confirmar a ordem vigente e a tendência dominante machista porque aproveitam alguma coisa do sistema de privilégios.

Não quero reduzir a questão da violência à questão dos privilégios, mas esse é um fator importante já que os privilégios são a forma imediata do poder, ele mesmo infinitamente mais complexo. E verdade que, de um modo geral, quem tem mais poder, tendo mais privilégios, sofre menos violência.

Vamos deixar claro que nem todos os homens exercem violência, e que alguns poucos conseguem romper com o privilégio. Há exceções a qualquer regra.

Por privilégios, entendemos as vantagens provenientes de posições sociais, políticas, econômicas, de gênero, raciais, etárias. Sabemos que o capitalismo é, ele mesmo, a versão econômica do que o machismo é em termos de gênero. Ele é um sistema de favorecimentos. Natural que no machismo elevado à Razão de Estado, como vemos no Brasil de hoje, os auto-favorecidos sejam homens e suas mulheres colocadas debaixo de jargões tais como o conhecido “bela-recatada-do lar”. Verdade que essa construção é violenta de um ponto de vista simbólico, mas quem se submete a ela não está preocupada com isso.

Evidentemente não se está sustentando que não haja violência para homens, que não haja violência entre eles e também contra eles. Certamente há opressões para todos em uma sociedade capitalista que administra privilégios e opressões de raça e classe, além de gênero e sexualidade, para todos. O que está em jogo é entender o padrão, no mínimo curioso, que implica que as mulheres estejam do lado da violência e os homens do lado do poder, que haja muita violência contra mulheres e pouco poder administrado por elas.

A quantidade e a qualidade da violência contra mulheres são atravessadas por fatores diversos. Se for verdade, como dizia Theodor Adorno, que a vítima desperta o desejo de proscrever, então, tanto mais violência sofrerá aquele que menos poder tiver. Isso nos leva a algumas considerações necessárias: 1- que há um nexo entre violência e poder que não permite confundi-los simplesmente, portanto, que poder não é simplesmente violência e que a violência não é simplesmente poder. 2 – Que onde não há poder há violência, que a violência é o que resta para aqueles que não tem poder.

Podemos considerar também que a violência é usada para evitar o poder daqueles que são marcados pela violência. Nesse sentido, uma pergunta deve ser feita por todas: haveria para os seres heterodenominados “mulheres”, alguma chance de fazerem parte da humanidade que não fosse sob o jugo daqueles que, como algozes, as heterodenominaram? É possível fazer parte da democracia quando se está ainda confinada ao lar ou às suas regras heterodefinidas? As regras do poder impostas à vida feminina – entre elas o “ficar em casa” como “bela-recatada-do lar” – não seriam simplesmente repetidas na ordem pública para auto-sustentação do poder masculino?

Nessa linha podemos nos perguntar: quando o atual presidente da República fez seu comentário infeliz no último dia 8 de março relacionando mulheres e economia doméstica num tom que transitava do desconhecimento de economia ao desconhecimento da vida das mulheres, podemos pensar que ele falava como um homem muito antigo, como um ignorante quanto à luta das mulheres por direitos, quanto à vida das mulheres como trabalhadoras, como profissionais, artistas, etc. As mulheres vivem em nossa época apenas como donas de casa na visão daquele homem antigo. Contudo, não se trata apenas disso.

Como representante do culto da ignorância machista, a fala do presidente do Golpe é estratégica. Se, de uma lado, podemos supor uma tentativa de mistificação das massas de mulheres que de fato são donas de casa, fingindo que elas são principalmente isso, que não são trabalhadoras e profissionais nas mais diversas áreas, de outro lado vemos ressurgir a velha esperança do machismo: de que as mulheres fiquem em casa a esperar sentadas, que não entrem na política, muito menos com consciência política à qual damos o nome de feminismo.

O fim da violência doméstica depende de levarmos a sério a ideia de que poder é ação conjunta e de que violência é a destruição do poder (lembremos da definição de poder e violência de Hannah Arendt), tal como tem sido perpetrada contra mulheres.

Enquanto convocamos às mulheres do mundo para que se unam à luta feminista, essas mulheres que trabalham o dia inteiro em seus empregos, realizando várias jornadas de trabalho que envolvem também suas casas como oficinas da desigualdade doméstica, podemos sugerir aos machistas que esperem sentados em seus tronos de privilégios. Eles não perdem por esperar.

Às mulheres, sugerimos que não façam o mesmo.

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Violência contra mães: sobre as articulações invisíveis

Cristiane Brasileiro

Em sua luta contra o resto do mundo, aconselho que você se coloque ao lado do resto do mundo.

(Franz Kafka)

maes-velando-os-filhos

Nas últimas semanas eu já tinha me proposto a escrever especificamente sobre o tema que o título deste artigo anuncia – sabendo que o blog da #partidA seria inaugurado com 16 dias de ativismo intenso em torno da violência contra as mulheres, havia me chamado a atenção o fato de o assunto não ter aparecido antes numa lista coletiva que vinha sendo feita.

Por isso mesmo, nas últimas semanas, eu andei perguntando pra muita gente próxima e também em vários grupos mais ou menos organizados de mulheres nas redes sociais: que tipo de violência você acredita que atinja mais as mães?

Se eu fosse resumir as respostas, poderia dizer: foram relativamente tímidas e hesitantes. Algumas pessoas falaram de mulheres que sofrem violência doméstica – o que poderia se confundir com uma queixa mais comum a todas as demais mulheres. Outras falaram de violência obstetrícia – um problema que se concentra em momentos mais pontuais da vida das mães.  Poucas chegaram a relacionar o tema à própria solidão e ou à sobrecarga de trabalho que enfrentam – e, nesses casos, o ressentimento tinha alvos ou muito pessoais ou muito difusos.

E aí, de repente, ontem me caiu nas mãos um vídeo amador feito ainda pela manhã, no qual uma mulher gritava: “Vou procurar meu filho agora! Meu filho está dentro do mato, morto! O sangue é meu! Eu sou mãe!” Ali na Cidade de Deus, na zona oeste do Rio de Janeiro, aquela mulher enfrentava aos berros a proibição dos policiais que tentavam impedir a busca dos corpos de 7 jovens que haviam sido mortos numa aparente vingança contra a queda de um helicóptero da PM no dia anterior. Pois os corpos foram resgatados e reunidos no chão de uma praça pública. E as mães daqueles jovens foram ficando ali em volta deles, reunidas. Naquele exato ponto em que tudo o que poderia se relacionar com algum sistema de proteção social havia falhado.

Posso apenas imaginar o que elas teriam respondido, se eu tivesse repetido ali aquela minha pergunta. A violência que estão sofrendo extrapola o que pode ser dito.

E, não por acaso, as articulações entre o que tem sido vivido como tragédia pessoal e as estruturas sociais nas quais estamos imersas seguem ainda muito pouco notadas.

Porque antes de rapazes como aqueles serem mortos, seria preciso lembrar que as mulheres que são mães são jogadas numa cilada: ou a maternidade ou o trabalho. E quanto mais pobre a mulher, mais chances há de se cair no abismo em que aquelas mães estão.

É como se tivéssemos de fato a chance de escolher ficar só em casa cuidando dos filhos sem que isso signifique em geral um esquema de isolamento social, dependência econômica e subordinação nas relações amorosas; como se se tivéssemos a chance de escolher o trabalho fazendo desaparecer as demandas relacionadas ao cuidado dos filhos e da casa, que ainda recaem quase que exclusivamente sobre nós. É como se isso não determinasse que as mulheres que são mães sejam tão mais propensas a se verem fora do mercado formal de trabalho ou cansadas demais pra dar conta de todos os cuidados que seriam necessários pra proteger os filhos de um mundo curvado à lógica cada vez mais predatória encarnada em práticas machistas, racistas, classistas.

De modo que as mães daqueles rapazes não são a exceção, mas os casos extremos da regra que nos atinge a todas: o que vivemos e fazemos como mães é ao mesmo tempo completamente fundamental e invisibilizado, idealizado e desprezado.

De fato, esse território feito de cuidado, compromisso e vínculo afetivo convive diariamente com uma lógica que nos diz que as pessoas que se dedicam a isso “não trabalham” e, por isso, merecem ir sendo jogadas em formas variadas de miséria (e, nesses casos, não deveria gerar estranheza que tantas mães que sofrem violência doméstica continuem reféns de casamentos indesejados em função da dependência financeira). E, se por acaso as mães insistem em trabalhar fora de casa pra ganhar o próprio sustento e/ou buscar alguma inserção mais pública na sociedade, também convivem com uma cultura que as medirá pela capacidade que tiverem se esconder ou abafar o mais completamente possível essa outra esfera da vida (ainda que isso signifique mentir nas entrevistas, esconder as fotos dos filhos dos empregadores ou suportar insones uma jornada extra de trabalhos domésticos de mais de 30h por semana).

Nesse contexto, nossa legislação trabalhista, por exemplo, parece entender que a maternidade é uma função que se cumpre integralmente em três ou quatro meses de licença para as trabalhadoras com carteira assinada, e sequer considera qualquer auxílio para as demais (tem sido sempre muito mais fácil garantir apoio governamental para banqueiros e grandes empresários). Ao mesmo tempo, o abandono paterno é altamente naturalizado, e ainda é combatido quase que só pela obrigatoriedade de algum desconto de pensão (deixando os homens de fora de toda uma vida de responsabilidades que não se traduzem apenas em números e fotos mal posadas, mas em compromisso ético de criação e manutenção de vínculos afetivos). E repare: não estou falando, aqui, de azares pessoais ou de “escolhas erradas” dessas mulheres. Estou falando de um país no qual cerca de 19% dos bebês nascem de meninas que têm entre 10 e 19 anos, estou falando de um universo de 67 milhões de mães no qual 31% delas são solteiras, e no qual mesmo as casadas contam com pouca ou nenhuma “ajuda” de seus companheiros na criação dos filhos. Estou falando de uma ordem social, econômica e política que é complacente com esse quadro – pra dizer o mínimo.

Como expoentes de um certo “resto do mundo” que se rege por uma lógica fundamentalmente refratária às voracidade cega do capital, as mães tendem a viver desconsideradas, sufocadas e vencidas. Por mais que façam, nada parecerá digno de nota. E por outro lado, se algo der errado na criação dos filhos, serão elas as únicas ou principais culpadas diante da sociedade.

Pra todos os efeitos, a necessidade humana de conciliar trabalho e vida familiar tem sido vista como um problema só delas – delas, que de algum modo, com suas existências mesmas tão discretas, ainda resistem na prática a uma pressão violenta pra que estejamos todos conformados a um modelo de “vida” que só teria valor na medida da sua disponibilidade pra ser completamente consumida pelos mais variados patrões.

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