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Mulheres, não esperem sentadas!

Ou sobre as mulheres entre a violência e o poder

Márcia Tiburi (escritora, filósofa e ativista da PartidA)

Na equação política de Aristóteles, Pólis é a cidade-Estado e Óikos o território da casa. O primeiro é reservado aos homens e o segundo às mulheres, aos escravos e aos animais. Economia é um termo que tem na origem a palavra Óikos, do mesmo modo que política vem de pólis.

As bases da separação entre público e privado estão dadas aí e correspondem à diferença entre gêneros e classes, bem como entre cultura e natureza. No mundo da pólis se exerce a voz que leva à expressão e à partilha das ideias. Assim se constitui o reino da democracia ocupado pelos homens na ágora que é, justamente, o espaço público do encontro entre cidadãos. No espaço da casa, há o trabalho, a procriação e a sustentação organizada da vida.

Gostaria de propor algumas considerações sobre a importância dessa separação entre público e privado que coloca homens e mulheres (e escravos e animais) em mundos separados. Essa separação rege o pensamento e as práticas ético-políticas da história humana. Público e privado correspondem a mundos habitados por homens e mulheres (e escravos e animais).

Antes de seguir, devemos saber que o reino do público se define pela ordem do poder e o reino do privado pela ordem da violência.

É um fato que a violência contra as mulheres é uma constante cultural e que ela continua a crescer em todas as sociedades. A violência doméstica sempre foi assunto levantado pelas mulheres que fazem sua politização defendendo-se da violência, que vem dos homens dentro e fora de casa.

A questão da violência doméstica é até hoje uma das principais bandeiras dos movimentos feministas. A violência contra as mulheres é principalmente violência doméstica. A desigualdade do trabalho doméstico, o papel da maternidade e toda uma lógica do próprio casamento como submissão da mulher ao homem tem muito de violência. Em um tom mais radical, poderíamos até nos perguntar se a ordem doméstica não é, ela mesma, aquela que instaura as condições de possibilidade da violência doméstica. Guardemos essa hipótese que pode nos ajudar a refletir sobre a sustentação e avanço da violência doméstica. Talvez ela nos faça entender que a violência doméstica é a mesma que a violência extra-doméstica. A questão que proponho é que pensemos na intimidade conceitual e prática que há entre mulheres, vida doméstica e violência.

Ao mesmo tempo, precisamos ter em vista um dado que nos permitirá avançar em nossas considerações. É curioso que o lugar das mulheres no parlamento, nos poderes executivo e legislativo, seja hoje em dia tão pequeno e, em certos países, como o Brasil, continue a diminuir. As mulheres concernem bem mais ao mundo da violência do que ao mundo do poder, não é verdade?

A equação política continua evidente: de um lado estão as mulheres e a violência doméstica, de outro estão os homens e o poder público. A equação mostra o nexo mais profundo entre seus fatores no momento em que observamos a oposição que estrutura essa relação: enquanto a violência é “sofrida” por mulheres, o poder é “exercido” pelos homens.

Vamos deixar claro que a violência sofrida por mulheres é exercida certamente por homens, mas também por toda uma sociedade que produz esses mesmos homens como seres de privilégios contra outros seres que, não sendo homens, não teriam privilégios. Muitas mulheres que se sentem naturalmente parte do Patriarcado ajudam a confirmar a ordem vigente e a tendência dominante machista porque aproveitam alguma coisa do sistema de privilégios.

Não quero reduzir a questão da violência à questão dos privilégios, mas esse é um fator importante já que os privilégios são a forma imediata do poder, ele mesmo infinitamente mais complexo. E verdade que, de um modo geral, quem tem mais poder, tendo mais privilégios, sofre menos violência.

Vamos deixar claro que nem todos os homens exercem violência, e que alguns poucos conseguem romper com o privilégio. Há exceções a qualquer regra.

Por privilégios, entendemos as vantagens provenientes de posições sociais, políticas, econômicas, de gênero, raciais, etárias. Sabemos que o capitalismo é, ele mesmo, a versão econômica do que o machismo é em termos de gênero. Ele é um sistema de favorecimentos. Natural que no machismo elevado à Razão de Estado, como vemos no Brasil de hoje, os auto-favorecidos sejam homens e suas mulheres colocadas debaixo de jargões tais como o conhecido “bela-recatada-do lar”. Verdade que essa construção é violenta de um ponto de vista simbólico, mas quem se submete a ela não está preocupada com isso.

Evidentemente não se está sustentando que não haja violência para homens, que não haja violência entre eles e também contra eles. Certamente há opressões para todos em uma sociedade capitalista que administra privilégios e opressões de raça e classe, além de gênero e sexualidade, para todos. O que está em jogo é entender o padrão, no mínimo curioso, que implica que as mulheres estejam do lado da violência e os homens do lado do poder, que haja muita violência contra mulheres e pouco poder administrado por elas.

A quantidade e a qualidade da violência contra mulheres são atravessadas por fatores diversos. Se for verdade, como dizia Theodor Adorno, que a vítima desperta o desejo de proscrever, então, tanto mais violência sofrerá aquele que menos poder tiver. Isso nos leva a algumas considerações necessárias: 1- que há um nexo entre violência e poder que não permite confundi-los simplesmente, portanto, que poder não é simplesmente violência e que a violência não é simplesmente poder. 2 – Que onde não há poder há violência, que a violência é o que resta para aqueles que não tem poder.

Podemos considerar também que a violência é usada para evitar o poder daqueles que são marcados pela violência. Nesse sentido, uma pergunta deve ser feita por todas: haveria para os seres heterodenominados “mulheres”, alguma chance de fazerem parte da humanidade que não fosse sob o jugo daqueles que, como algozes, as heterodenominaram? É possível fazer parte da democracia quando se está ainda confinada ao lar ou às suas regras heterodefinidas? As regras do poder impostas à vida feminina – entre elas o “ficar em casa” como “bela-recatada-do lar” – não seriam simplesmente repetidas na ordem pública para auto-sustentação do poder masculino?

Nessa linha podemos nos perguntar: quando o atual presidente da República fez seu comentário infeliz no último dia 8 de março relacionando mulheres e economia doméstica num tom que transitava do desconhecimento de economia ao desconhecimento da vida das mulheres, podemos pensar que ele falava como um homem muito antigo, como um ignorante quanto à luta das mulheres por direitos, quanto à vida das mulheres como trabalhadoras, como profissionais, artistas, etc. As mulheres vivem em nossa época apenas como donas de casa na visão daquele homem antigo. Contudo, não se trata apenas disso.

Como representante do culto da ignorância machista, a fala do presidente do Golpe é estratégica. Se, de uma lado, podemos supor uma tentativa de mistificação das massas de mulheres que de fato são donas de casa, fingindo que elas são principalmente isso, que não são trabalhadoras e profissionais nas mais diversas áreas, de outro lado vemos ressurgir a velha esperança do machismo: de que as mulheres fiquem em casa a esperar sentadas, que não entrem na política, muito menos com consciência política à qual damos o nome de feminismo.

O fim da violência doméstica depende de levarmos a sério a ideia de que poder é ação conjunta e de que violência é a destruição do poder (lembremos da definição de poder e violência de Hannah Arendt), tal como tem sido perpetrada contra mulheres.

Enquanto convocamos às mulheres do mundo para que se unam à luta feminista, essas mulheres que trabalham o dia inteiro em seus empregos, realizando várias jornadas de trabalho que envolvem também suas casas como oficinas da desigualdade doméstica, podemos sugerir aos machistas que esperem sentados em seus tronos de privilégios. Eles não perdem por esperar.

Às mulheres, sugerimos que não façam o mesmo.

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Violência contra mães: sobre as articulações invisíveis

Cristiane Brasileiro

Em sua luta contra o resto do mundo, aconselho que você se coloque ao lado do resto do mundo.

(Franz Kafka)

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Nas últimas semanas eu já tinha me proposto a escrever especificamente sobre o tema que o título deste artigo anuncia – sabendo que o blog da #partidA seria inaugurado com 16 dias de ativismo intenso em torno da violência contra as mulheres, havia me chamado a atenção o fato de o assunto não ter aparecido antes numa lista coletiva que vinha sendo feita.

Por isso mesmo, nas últimas semanas, eu andei perguntando pra muita gente próxima e também em vários grupos mais ou menos organizados de mulheres nas redes sociais: que tipo de violência você acredita que atinja mais as mães?

Se eu fosse resumir as respostas, poderia dizer: foram relativamente tímidas e hesitantes. Algumas pessoas falaram de mulheres que sofrem violência doméstica – o que poderia se confundir com uma queixa mais comum a todas as demais mulheres. Outras falaram de violência obstetrícia – um problema que se concentra em momentos mais pontuais da vida das mães.  Poucas chegaram a relacionar o tema à própria solidão e ou à sobrecarga de trabalho que enfrentam – e, nesses casos, o ressentimento tinha alvos ou muito pessoais ou muito difusos.

E aí, de repente, ontem me caiu nas mãos um vídeo amador feito ainda pela manhã, no qual uma mulher gritava: “Vou procurar meu filho agora! Meu filho está dentro do mato, morto! O sangue é meu! Eu sou mãe!” Ali na Cidade de Deus, na zona oeste do Rio de Janeiro, aquela mulher enfrentava aos berros a proibição dos policiais que tentavam impedir a busca dos corpos de 7 jovens que haviam sido mortos numa aparente vingança contra a queda de um helicóptero da PM no dia anterior. Pois os corpos foram resgatados e reunidos no chão de uma praça pública. E as mães daqueles jovens foram ficando ali em volta deles, reunidas. Naquele exato ponto em que tudo o que poderia se relacionar com algum sistema de proteção social havia falhado.

Posso apenas imaginar o que elas teriam respondido, se eu tivesse repetido ali aquela minha pergunta. A violência que estão sofrendo extrapola o que pode ser dito.

E, não por acaso, as articulações entre o que tem sido vivido como tragédia pessoal e as estruturas sociais nas quais estamos imersas seguem ainda muito pouco notadas.

Porque antes de rapazes como aqueles serem mortos, seria preciso lembrar que as mulheres que são mães são jogadas numa cilada: ou a maternidade ou o trabalho. E quanto mais pobre a mulher, mais chances há de se cair no abismo em que aquelas mães estão.

É como se tivéssemos de fato a chance de escolher ficar só em casa cuidando dos filhos sem que isso signifique em geral um esquema de isolamento social, dependência econômica e subordinação nas relações amorosas; como se se tivéssemos a chance de escolher o trabalho fazendo desaparecer as demandas relacionadas ao cuidado dos filhos e da casa, que ainda recaem quase que exclusivamente sobre nós. É como se isso não determinasse que as mulheres que são mães sejam tão mais propensas a se verem fora do mercado formal de trabalho ou cansadas demais pra dar conta de todos os cuidados que seriam necessários pra proteger os filhos de um mundo curvado à lógica cada vez mais predatória encarnada em práticas machistas, racistas, classistas.

De modo que as mães daqueles rapazes não são a exceção, mas os casos extremos da regra que nos atinge a todas: o que vivemos e fazemos como mães é ao mesmo tempo completamente fundamental e invisibilizado, idealizado e desprezado.

De fato, esse território feito de cuidado, compromisso e vínculo afetivo convive diariamente com uma lógica que nos diz que as pessoas que se dedicam a isso “não trabalham” e, por isso, merecem ir sendo jogadas em formas variadas de miséria (e, nesses casos, não deveria gerar estranheza que tantas mães que sofrem violência doméstica continuem reféns de casamentos indesejados em função da dependência financeira). E, se por acaso as mães insistem em trabalhar fora de casa pra ganhar o próprio sustento e/ou buscar alguma inserção mais pública na sociedade, também convivem com uma cultura que as medirá pela capacidade que tiverem se esconder ou abafar o mais completamente possível essa outra esfera da vida (ainda que isso signifique mentir nas entrevistas, esconder as fotos dos filhos dos empregadores ou suportar insones uma jornada extra de trabalhos domésticos de mais de 30h por semana).

Nesse contexto, nossa legislação trabalhista, por exemplo, parece entender que a maternidade é uma função que se cumpre integralmente em três ou quatro meses de licença para as trabalhadoras com carteira assinada, e sequer considera qualquer auxílio para as demais (tem sido sempre muito mais fácil garantir apoio governamental para banqueiros e grandes empresários). Ao mesmo tempo, o abandono paterno é altamente naturalizado, e ainda é combatido quase que só pela obrigatoriedade de algum desconto de pensão (deixando os homens de fora de toda uma vida de responsabilidades que não se traduzem apenas em números e fotos mal posadas, mas em compromisso ético de criação e manutenção de vínculos afetivos). E repare: não estou falando, aqui, de azares pessoais ou de “escolhas erradas” dessas mulheres. Estou falando de um país no qual cerca de 19% dos bebês nascem de meninas que têm entre 10 e 19 anos, estou falando de um universo de 67 milhões de mães no qual 31% delas são solteiras, e no qual mesmo as casadas contam com pouca ou nenhuma “ajuda” de seus companheiros na criação dos filhos. Estou falando de uma ordem social, econômica e política que é complacente com esse quadro – pra dizer o mínimo.

Como expoentes de um certo “resto do mundo” que se rege por uma lógica fundamentalmente refratária às voracidade cega do capital, as mães tendem a viver desconsideradas, sufocadas e vencidas. Por mais que façam, nada parecerá digno de nota. E por outro lado, se algo der errado na criação dos filhos, serão elas as únicas ou principais culpadas diante da sociedade.

Pra todos os efeitos, a necessidade humana de conciliar trabalho e vida familiar tem sido vista como um problema só delas – delas, que de algum modo, com suas existências mesmas tão discretas, ainda resistem na prática a uma pressão violenta pra que estejamos todos conformados a um modelo de “vida” que só teria valor na medida da sua disponibilidade pra ser completamente consumida pelos mais variados patrões.

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