Discriminação, Feminicídio, Feminismo negro, Invisibilidade, Mulher Negra, Racismo, Violência

“Dororidade … o que é? Ou o que pretende ser?

Seria a Dor e a nem sempre Delícia de se Saber ou de não se Saber

Quem Somos….

Nossa História Importa…Nosso Turbante Importa…. Nossa Vida

Importa…Dororidade…”

 

Por Vilma Piedade*

 

Entendo que todo conceito carrega um mundo de significados e significantes…não é estático e pressupõe… Reflexão… Crítica… Discursos… Significar.. . Ressignificar… Multiplicidade.. .Transformação… tudo junto . esse complexo conceitual parece funcionar como norteadores da questão. Logo, o conceito não é algo acabado, pronto, imutável e descolado do seu tempo. É circular.

E estou aqui inaugurando um conceito – Dororidade – e convidando vocês para participar dessa história e escutar o texto..

A Filosofia aponta que não há conceitos simples. Tudo isso para afirmar que não existem conceitos sozinhos, pois todo conceito tem sempre um componente e este sempre nos remete a outro conceito. Circularidade.

Mas, qual a finalidade, no nosso caso, de ter um novo conceito – Dororidade? Será que como Mulheres Feministas, Sororidade não nos basta? E Sororidade não é o conceito que ancora o Feminismo?

O lugar de fala é um lugar de pertencimento. Falo desse lugar como Mulher Preta. Ativista. Feminista. De Axé. Mas também falo de um lugar das minhas Ancestrais, marcado pela ausência histórica. Lugar- ausência marcado pelo Racismo. E, é desse lugar digo que Não. Sororidade une, irmana, mas não basta.

O que parece nos unir na Luta feminista é a dor. A dor da violência que sofremos no cotidiano. Seja física, emocional, patrimonial, moral. No nosso caso, ainda temos a violência racial. Dororidade quer falar das sombras. Da fala silenciada, dentro e fora de Nós. Da dor causada pelo Racismo. E essa Dor é Preta.

Dororidade carrega, no seu significado ,a dor provocada em todas as Mulheres pelo Machismo. Contudo, quando se trata de Nós, Mulheres Pretas, tem um agravo nessa dor, agravo provocado pelo Racismo. Racismo que vem da criação Branca para manutenção de Poder… Aí entra a Raça. E entra Gênero. Entra Classe. Sai a Sororidade e entra Dororidade.

Como nos alerta Ângela Davis in Mulheres, Raça e Classe – “Raça, Classe e Gênero entrelaçados, juntos, criam diferentes tipos de opressão. Classe informa a Raça; Raça informa a Classe”.

Já Lorde fala que não há Hierarquia de Opressão. Mas aqui , prefiro ficar com Djamila Ribeiro, em seu prefácio no livro de Ângela Davis – Mulheres, Raça e Classe – há uma hierarquia de Gênero no tocante a Nós, Mulheres, Jovens, Meninas Pretas – somos mais vulneráveis à violência sexual, ao Feminicídio.

Voltando, sabemos que o Machismo Racista Classista inventou que , Nós – Mulheres Pretas -somos mais gostosas, quentes, sensuais e lascivas. Aí, do abuso sexual, estupros, naturalizados na senzala até hoje, foi um pulo. Pulo de 129 anos e passamos a ser estatística. Os dados oficiais sobre violência sexual falam disso. Estamos na frente, morremos mais nas garras desse Machismo do que as Mulheres Brancas… A equação é simples- Mulher Preta é Pobre; Mulher Pobre é Preta…pelo menos na sua grande maioria. Nesse ponto, recorro mais uma vez ao pensamento de Ângela Davis,

“…precisamos pensar o quanto o Racismo impede a mobilidade social da População Negra…”

Foi-se a Abolição Inconclusa e a Carne Preta ainda continua sendo a mais barata do mercado…

Dororidade. Sororidade. Não há dor maior ou menor. Dor não se mede. É de quem sente. Há dor. Dor dói e ponto. E a nossa dor é Preta.. E a Pele Preta ainda nos marca e nos mata na escala inferior da sociedade.

Tem uma dor constante que marca as Mulheres Pretas no cotidiano – a dor diante de uma perda. E nesse jogo cruel do Racismo quem perde mais? Quem está perdendo seus filhos filhas? Todos Pretos. Todas Pretas. A resposta tá estampada nos dados oficiais- IPEA- sobre o aumento do genocídio da Juventude Preta. Dororidade.

É, no nosso caso , a história é diferente, ou , parafraseando Lélia Gonzalez…”…Cumé qui é…” Por que é o Racismo que nos dilacera. Não há dor maior ou menor. Dor não se mede. É de quem sente. Há dor.

Dor dói e ponto. E a nossa dor é Preta. É assim que entendo o Racismo. Dororidade.

A Dororidade se instaura desde que que nossas Ancestrais foram escravizadas aqui. Nossa história, nossos valores civilizatórios foram extirpados, violentados, assim como Nós.

Opressão e Privilégios. E deixo com vocês essa questão… Dororidade.

 

Vilma Piedade – autora do conceito de “Dororidade

*Vilma Piedade é professora de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira formada pela UFRJ com pós-graduação em Ciência da Literatura. É mulher Preta. Ativista. Feminista. De Axé. Integrante da RENAFRO. PartidA RJ. Articulação de Mulheres Brasileira (AMB). Revisora/Relatora da Conferência de Durban.

 

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Mulheres, não esperem sentadas!

Ou sobre as mulheres entre a violência e o poder

Márcia Tiburi (escritora, filósofa e ativista da PartidA)

Na equação política de Aristóteles, Pólis é a cidade-Estado e Óikos o território da casa. O primeiro é reservado aos homens e o segundo às mulheres, aos escravos e aos animais. Economia é um termo que tem na origem a palavra Óikos, do mesmo modo que política vem de pólis.

As bases da separação entre público e privado estão dadas aí e correspondem à diferença entre gêneros e classes, bem como entre cultura e natureza. No mundo da pólis se exerce a voz que leva à expressão e à partilha das ideias. Assim se constitui o reino da democracia ocupado pelos homens na ágora que é, justamente, o espaço público do encontro entre cidadãos. No espaço da casa, há o trabalho, a procriação e a sustentação organizada da vida.

Gostaria de propor algumas considerações sobre a importância dessa separação entre público e privado que coloca homens e mulheres (e escravos e animais) em mundos separados. Essa separação rege o pensamento e as práticas ético-políticas da história humana. Público e privado correspondem a mundos habitados por homens e mulheres (e escravos e animais).

Antes de seguir, devemos saber que o reino do público se define pela ordem do poder e o reino do privado pela ordem da violência.

É um fato que a violência contra as mulheres é uma constante cultural e que ela continua a crescer em todas as sociedades. A violência doméstica sempre foi assunto levantado pelas mulheres que fazem sua politização defendendo-se da violência, que vem dos homens dentro e fora de casa.

A questão da violência doméstica é até hoje uma das principais bandeiras dos movimentos feministas. A violência contra as mulheres é principalmente violência doméstica. A desigualdade do trabalho doméstico, o papel da maternidade e toda uma lógica do próprio casamento como submissão da mulher ao homem tem muito de violência. Em um tom mais radical, poderíamos até nos perguntar se a ordem doméstica não é, ela mesma, aquela que instaura as condições de possibilidade da violência doméstica. Guardemos essa hipótese que pode nos ajudar a refletir sobre a sustentação e avanço da violência doméstica. Talvez ela nos faça entender que a violência doméstica é a mesma que a violência extra-doméstica. A questão que proponho é que pensemos na intimidade conceitual e prática que há entre mulheres, vida doméstica e violência.

Ao mesmo tempo, precisamos ter em vista um dado que nos permitirá avançar em nossas considerações. É curioso que o lugar das mulheres no parlamento, nos poderes executivo e legislativo, seja hoje em dia tão pequeno e, em certos países, como o Brasil, continue a diminuir. As mulheres concernem bem mais ao mundo da violência do que ao mundo do poder, não é verdade?

A equação política continua evidente: de um lado estão as mulheres e a violência doméstica, de outro estão os homens e o poder público. A equação mostra o nexo mais profundo entre seus fatores no momento em que observamos a oposição que estrutura essa relação: enquanto a violência é “sofrida” por mulheres, o poder é “exercido” pelos homens.

Vamos deixar claro que a violência sofrida por mulheres é exercida certamente por homens, mas também por toda uma sociedade que produz esses mesmos homens como seres de privilégios contra outros seres que, não sendo homens, não teriam privilégios. Muitas mulheres que se sentem naturalmente parte do Patriarcado ajudam a confirmar a ordem vigente e a tendência dominante machista porque aproveitam alguma coisa do sistema de privilégios.

Não quero reduzir a questão da violência à questão dos privilégios, mas esse é um fator importante já que os privilégios são a forma imediata do poder, ele mesmo infinitamente mais complexo. E verdade que, de um modo geral, quem tem mais poder, tendo mais privilégios, sofre menos violência.

Vamos deixar claro que nem todos os homens exercem violência, e que alguns poucos conseguem romper com o privilégio. Há exceções a qualquer regra.

Por privilégios, entendemos as vantagens provenientes de posições sociais, políticas, econômicas, de gênero, raciais, etárias. Sabemos que o capitalismo é, ele mesmo, a versão econômica do que o machismo é em termos de gênero. Ele é um sistema de favorecimentos. Natural que no machismo elevado à Razão de Estado, como vemos no Brasil de hoje, os auto-favorecidos sejam homens e suas mulheres colocadas debaixo de jargões tais como o conhecido “bela-recatada-do lar”. Verdade que essa construção é violenta de um ponto de vista simbólico, mas quem se submete a ela não está preocupada com isso.

Evidentemente não se está sustentando que não haja violência para homens, que não haja violência entre eles e também contra eles. Certamente há opressões para todos em uma sociedade capitalista que administra privilégios e opressões de raça e classe, além de gênero e sexualidade, para todos. O que está em jogo é entender o padrão, no mínimo curioso, que implica que as mulheres estejam do lado da violência e os homens do lado do poder, que haja muita violência contra mulheres e pouco poder administrado por elas.

A quantidade e a qualidade da violência contra mulheres são atravessadas por fatores diversos. Se for verdade, como dizia Theodor Adorno, que a vítima desperta o desejo de proscrever, então, tanto mais violência sofrerá aquele que menos poder tiver. Isso nos leva a algumas considerações necessárias: 1- que há um nexo entre violência e poder que não permite confundi-los simplesmente, portanto, que poder não é simplesmente violência e que a violência não é simplesmente poder. 2 – Que onde não há poder há violência, que a violência é o que resta para aqueles que não tem poder.

Podemos considerar também que a violência é usada para evitar o poder daqueles que são marcados pela violência. Nesse sentido, uma pergunta deve ser feita por todas: haveria para os seres heterodenominados “mulheres”, alguma chance de fazerem parte da humanidade que não fosse sob o jugo daqueles que, como algozes, as heterodenominaram? É possível fazer parte da democracia quando se está ainda confinada ao lar ou às suas regras heterodefinidas? As regras do poder impostas à vida feminina – entre elas o “ficar em casa” como “bela-recatada-do lar” – não seriam simplesmente repetidas na ordem pública para auto-sustentação do poder masculino?

Nessa linha podemos nos perguntar: quando o atual presidente da República fez seu comentário infeliz no último dia 8 de março relacionando mulheres e economia doméstica num tom que transitava do desconhecimento de economia ao desconhecimento da vida das mulheres, podemos pensar que ele falava como um homem muito antigo, como um ignorante quanto à luta das mulheres por direitos, quanto à vida das mulheres como trabalhadoras, como profissionais, artistas, etc. As mulheres vivem em nossa época apenas como donas de casa na visão daquele homem antigo. Contudo, não se trata apenas disso.

Como representante do culto da ignorância machista, a fala do presidente do Golpe é estratégica. Se, de uma lado, podemos supor uma tentativa de mistificação das massas de mulheres que de fato são donas de casa, fingindo que elas são principalmente isso, que não são trabalhadoras e profissionais nas mais diversas áreas, de outro lado vemos ressurgir a velha esperança do machismo: de que as mulheres fiquem em casa a esperar sentadas, que não entrem na política, muito menos com consciência política à qual damos o nome de feminismo.

O fim da violência doméstica depende de levarmos a sério a ideia de que poder é ação conjunta e de que violência é a destruição do poder (lembremos da definição de poder e violência de Hannah Arendt), tal como tem sido perpetrada contra mulheres.

Enquanto convocamos às mulheres do mundo para que se unam à luta feminista, essas mulheres que trabalham o dia inteiro em seus empregos, realizando várias jornadas de trabalho que envolvem também suas casas como oficinas da desigualdade doméstica, podemos sugerir aos machistas que esperem sentados em seus tronos de privilégios. Eles não perdem por esperar.

Às mulheres, sugerimos que não façam o mesmo.

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Quem ama não mata, 40 anos depois

Adriana Mota (socióloga, feminista e ativista da partidA)

30 de dezembro de 1976. O Brasil inteiro se prepara para a virada do ano. Em Búzios, no Estado do Rio de Janeiro, a mineira Ângela Diniz, 32 anos, é morta com três tiros no rosto e um na nuca. O assassino, Doca Street, seu namorado, enciumado e inconformado em não poder ter Ângela somente para si. Ela, uma mulher bonita e encantadora, era conhecida como a “Pantera de Minas”. O argumento usado pela defesa do autor dos disparos foi o de que ele agiu em legítima defesa de sua honra.

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No primeiro júri popular, em 1979, o réu foi condenado a dois anos de prisão, a serem cumpridos em liberdade. Na porta do Fórum em Cabo Frio, uma multidão aguardava pelo julgamento, sedenta de justiça. Qual justiça? A audiência dava apoio ao assassino expresso em gritos e cartazes: “Doca, Cabo Frio está com você”. A população entendia que Doca tinha feito algo legítimo. Afinal, Ângela era a mulher sedutora, uma “Vênus lasciva”, que enlouqueceu um homem com suas condutas e o levou ao ato extremo de matar por amor. Doca merecia ser punido ou a verdadeira culpada era Ângela?

31 de dezembro de 2016, 40 anos depois da morte de Ângela Diniz, mais um feminicídio acontece no Brasil. Dessa vez em Campinas, com 12 vítimas fatais, entre elas a ex-mulher do atirador, Isamara Filier, e seu filho, o pequeno João Victor, de oito anos. Em cartas, o assassino nomeia todas as mulheres mortas com um adjetivo comum: vadias. E ele iria matar o maior número possível delas. Foram 9 mulheres mortas na noite de Réveillon. O autor dos disparos também escreveu que amava o filho. João Victor foi sua 11a vítima. Em seguida, suicidou-se.

Nos 40 anos que separam um assassinato do outro, o que aprendemos sobre o feminicídio, crime  que tira a vida de dezenas de mulheres diariamente em nosso país? Muito pouco… Somos hoje o 5o país do mundo com mais mortes violentas de mulheres, num ranking com 84 países. Mesmo tendo altas taxas de mortes violentas de mulheres em todo o território nacional, somente em 2015 a lei do feminicídio foi sancionada, Lei 13.104. E ainda hoje há quem acredite que mulheres são as responsáveis pelos seus assassinatos, porque não agiram de forma adequada.

No caso de Ângela Diniz, o primeiro julgamento foi anulado e em 1981 houve novo julgamento, num contexto bastante diferente. Em apenas 2 anos houve uma grande mobilização dos movimentos feministas e de mulheres que não aceitaram o argumento da legítima defesa da honra e do crime passional para justificar a morte violenta de mulheres. Não era apenas por Ângela Diniz, mas por várias mulheres que estavam sendo mortas em crimes de repercussão nacional. Se a defesa dos agressores dizia que eram mortes por amor, as feministas devolviam: Quem ama não mata! Esse era o clamor das muitas vozes que se levantaram sobre o caso de Ângela Diniz no segundo júri. Essas vozes pressionaram a opinião pública e a nova condenação foi de 15 anos.

Os feminicídios de Ângela e Isamara têm alguns aspectos em comum, típicos dessa forma de crime. Um desses aspectos é o contexto de desigualdade de gênero que permeia o fato violento. Relacionamentos abusivos e violência doméstica e familiar são contextos em que essa desigualdade se expressa.  Se uma mulher morre em decorrência de um relacionamento abusivo, não há dúvidas de que se trata de um feminicídio.

Outro aspecto em comum é a reação de uma parcela da sociedade, imputando às vítimas a responsabilidade pelo ocorrido. Para isso, desqualifica-se a vítima, de todas as formas possíveis, para justificar sua morte: não eram boas esposas; não eram boas mães; mentiam; tinham comportamento sexual condenável; não deixavam os ex-maridos serem pais; eram vadias… O linchamento moral de Ângela Diniz foi tão forte que provocou a reação de Carlos Drummond de Andrade em uma crônica “Aquela moça continua sendo assassinada todos os dias e de diferentes maneiras”, disse ele.

No caso de Isamara Filier, não será possível julgar o assassino pois ele também está morto. Se houvesse um julgamento, dificilmente não haveria uma condenação justa, com pena de pelo menos 20 anos de reclusão, dada a repercussão do crime. Mas cabem algumas perguntas. A atuação do sistema de justiça é suficiente para evitar os feminicídios? O Estado brasileiro também é agente desse e de outros feminicídios ao se omitir da tarefa de dar às mulheres as condições para viver suas vidas livres de violência?

Quando não estrutura adequadamente a rede de serviços de atendimento a mulheres em situação de violência de gênero, o Estado se torna incapaz de nos oferecer as condições adequadas para vivermos em paz. Quando se exime da tarefa de concretizar uma política de enfrentamento à violência contra as mulheres que reconheça a desigualdade de gênero como um dos seus pilares, o Estado se omite em sua função. Quando refuta a educação livre de estereótipos de gênero ou proíbe a discussão sobre gênero e seus padrões de relação no ambiente escolar, o Estado abre mão da possibilidade de prevenir a violência entre homens e mulheres. Quando o Estado se omite, ele não se livra das responsabilidades, ao contrário, assume os riscos de sua omissão. Um Estado que não tem políticas públicas sólidas e sérias para enfrentar a violência contra as mulheres não é um Estado  Democrático para todos e todas.

Reconhecer que a violência contra as mulheres é uma grave questão em nossa sociedade é urgente. Ter políticas públicas que possam dar resposta à essa questão é a contra partida desse reconhecimento que ainda estamos aguardando. Desde a década de 70, o movimento de mulheres tem sido um incansável motor das políticas públicas, pressionando para que medidas sejam tomadas no sentido de prevenir, punir e erradicar a violência contra as mulheres. Alcançamos conquistas importantes, mas não atingimos os pilares da violência de gênero, que sustentam uma sociedade marcada pelo machismo e a misoginia. Se feminicídios continuarem a serem vistos como crimes de amor, é porque precisamos aprender mais sobre feminicídios. E sobre amor também.

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Encarceramento de Mulheres, guerra às drogas e Feminismo

Luciana Boiteux – Professora Associada de Direito Penal e Criminologia da UFRJ, Coordenadora do Grupo de Pesquisas Política de Drogas e Direitos Humanos da mesma instituição.

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Prisão feminina    cred. Coletivo Maria

O número de mulheres encarceradas, apesar de representar apenas 5,8% do total de presos brasileiros, foi o que mais aumentou nos últimos 15 anos (567%), sendo o dobro do masculino[1]. A grande maioria delas responde por tráfico de drogas (64%, dados de dez/14), enquanto boa parte dos homens responde por delitos de roubo (26%) e furto (14%)[2]. Sem qualquer resultado positivo na redução do tráfico ou do consumo, a política repressiva de drogas tem especial efeito sobre as mulheres.

Pode-se dizer que o perfil das mulheres privadas de liberdade no Brasil é ainda mais vulnerável do que dos homens: elas são, em sua maioria, jovens (50% tem até 29 anos), solteiras (57%), negras (68%), com baixa escolaridade (50% têm o ensino fundamental incompleto, sendo que apenas 10% delas completaram essa primeira fase de estudo). Acima de tudo, elas são pobres, condenada a penas entre 4 e 8 anos (35%), em regime fechado (45%).[3] Dados da América Latina[4] apontam que as detentas, em geral, são chefes de família e responsáveis pelo sustento dos filhos. 80% delas são mães, ou seja, quando privadas de liberdade, além de serem abandonadas por seus companheiros, são ainda privadas forçosamente do contato diário e do cuidado de seus filhos, os quais passam a ser criados por avós ou tias (sempre por mulheres). Apesar de condenadas por crimes sem violência, elas são facilmente selecionadas pelo sistema penal justamente por estarem em situação de extrema vulnerabilidade. Raramente ocupam posições superiores na hierarquia do tráfico e não lidam com grandes quantidades de droga, muitas delas são inclusive coagidas.

Muitas são presas grávidas, ou seja, ainda mais vulneráveis, são submetidas a condições perigosas de vida (e de saúde) na prisão, podendo ser algemadas no parto e dar à luz no camburão ou no próprio presídio.[5] Dados de grávidas e mães encarceradas no Rio de Janeiro, apontam para um perfil delas ainda mais dramático: 78% são jovens entre 18 e 22 anos, de cor negra (77%), com baixa escolaridade (75,6% não possuem o ensino fundamental completo), sendo que 9,8% declararam não saber ler nem escrever. Metade delas mantinha empregos precarizados (85% sem carteira assinada), a maioria era responsável pelo sustento do lar, além de ré primária (70%).[6] E grande parte delas é de presas provisórias.

Se o sistema penal é estruturalmente seletivo no geral, verifica-se a especial (e perversa) seletividade com que se encarceram mulheres mães, negras e pobres, justo aquelas que buscam no comércio ilícito de drogas, por necessidades de subsistência de sua família, uma melhor remuneração, quando não são coagidas ou ameaçadas para levar drogas a presídios. Essas mulheres, que rompem duplamente com seu papel social (por praticarem um crime, por serem “mulheres criminosas” que ousaram violar a lei dos homens e que destoam do padrão patriarcal da feminilidade dócil) estão sujeitas a alto nível de estigmatização e isolamento, são afastadas de seus filhos e abandonada por seus companheiros.

O seletivo encarceramento feminino (ainda mais forte do que o masculino), portanto, reforça a exclusão social dessas mulheres e dos filhos que delas dependem. Além disso, o machismo estrutural, que atravessa toda a sociedade, é marcante em relação às mulheres pobres e negras, que se tornam um fácil alvo da guerra às drogas, que é a causa desse grande aumento do encarceramento delas. Denunciar essa opressão, lutar contra o patriarcado e o proibicionismo, dando visibilidade e apoiando a causa das mulheres encarceradas é tarefa de todas as feministas.

 


[1] Infopen 2014.
[2] Dados do Infopen Mulher, referentes a junho de 2014.
[3] Infopen Mulher, junho de 2014.
[4] BOITEUX, Luciana (2015). Mujeres y Encarcelamiento por delitos de drogas. CEDD – Colectivo de Estudios Drogas y Derecho. Disponível em: http://www.drogasyderecho.org/publicaciones/pub-priv/Luciana_v08.pdf
[5] Como ocorreu com uma presa no Rio de Janeiro, portadora de transtornos mentais e usuária de crack, presa provisória acusada de tráfico de drogas, que deu à luz no Presídio Talavera Bruce no Rio de Janeiro, sozinha, numa solitária. Vide: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/10/1698826-presa-da-a-luz-sem-assistencia-medica-em-cela-de-penitenciaria-no-rio.shtml
[6] Boiteux e Fernandes (Coord.) 2015. Mulheres e crianças encarceradas: um estudo jurídico-social sobre a experiência da maternidade no sistema prisional do Rio de Janeiro. Disponível em: https://drive.google.com/file/d/0B6311AmqcdPVRmlXb25wakx2TVE/view
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Bola na trave: novos tempos, velhas práticas!

Liliane Brum Ribeiro Antropóloga e ativista feminista da partidA.

Dia 11 de dezembro de 2016, comandadas pela técnica Emily Lima, as meninas de nossa seleção brasileira de futebol dão um espetáculo ao golear a Russia por 4 X 0. Esse fato, tão comemorado no gramado pelas atletas, pela arquibancada e torcida, revestiu-se de tenebrosa cobertura pela mídia local, quando o Jornal Manaus Hoje resolveu colocar como manchete do feito: “Mulheres dão de quatro”, num trocadilho que expos o machismo que violenta diariamente meninas e mulheres no Brasil, desrespeitando nossas atletas e, simbolicamente, todas as mulheres.

Relatos não nos faltariam para ilustrar as constantes agressões que elas sofrem nesse esporte desde quando começam a se aventurar pelos gramados. Assédios de todos os tipos, mas principalmente o sexual e, muitas vezes, protagonizado pelo próprio técnico ou, então, como nesse caso de Manaus, pela mídia brasileira.

O violento preconceito e machismo que envolve o futebol feminino tem uma história bastante peculiar, remetendo à sua proibição nos anos de 1940, quando muitos times femininos faziam sucesso: “… O movimento que se esboçou nesta capital, para a formação de vários quadros femininos de futebol, e que tomou corpo com o apoio que alguns jornais cariocas deram, é desses que merecem a reprovação das pessoas sensatas, já pelo espetáculo ridículo que representa a prática do “association” pelas mulheres, como também pelas razões de ordem fisiológicas, que desaconselham sumariamente um gênero de atividade tão violento, incompatível mesmo com as possibilidades do organismo feminino”. Foi com essas palavras que, em 17 de maio de 1940, a Subdivisão de Medicina Especializada do Ministério da Educação e Saúde emitiu parecer positivo à carta de José Fuzeira, cidadão brasileiro que escrevera ao então Presidente da República, Getúlio Vargas as seguintes palavras: “Que V. Ex. Snr. Presidente acuda e salve essas futuras mães, do risco de destruírem a sua preciosa saúde; e, ainda, a saúde dos futuros filhos delas… e do Brasil”.

Com isso, o processo higienista e intervencionista, que tinha como grande aliado a ciência médica – sempre autorizada a definir com bases na biologia o destino moral das mulheres -, atinge em cheio a alegre prática do futebol que elas vinham protagonizando. Não demorou muito e, em 14 de Abril de 1941, pleno Estado Novo, o Presidente Vargas publica o Decreto 3.199 que, em seu Art.54 afirmava “Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país”. Assim, muitos jornais que antes, exaltavam as aventuras futebolísticas dos times femininos que despontavam com entusiasmo pelo Brasil, começam a advogar pela boa conduta das “moçoilas” da época, que deveriam ser melhor controladas por seus pais. Para elas, restava voltarem para dentro de casa e serem as “belas, recatadas e do lar”!

E chegamos ao Século XXI, novos tempos e com velhas práticas! A revolução da nanotecnologia mudou o mundo e o feminismo já revolucionou tantas práticas, mas muito temos que fazer para conseguiu mudar o machismo que envolve nossas atletas. No país que tem o futebol como símbolo de identidade nacional, o lugar destinado às mulheres não pode ser apenas as arquibancadas, „embelezando‟ os estádios, como muitos comentaristas esportivos dizem quando se referem a elas. Arriscar-se a pisar nos gramados é para poucas e bravas guerreiras! Sem times de base para jogar, sem altos salários (e, muitas, nem ao menos um salário), sem carteira assinada pela CBF, sem carrões, sem grandiosos patrocinadores, sem reconhecimento, sem mídia construindo sua imagem, sem respeito pelo seu trabalho, sem investimentos e com muito machismo envolvido. Esse é o retrato do futebol feminino brasileiro.

As Olimpiadas do Rio 2016 nos rendem inúmeros exemplos dessa “misoginia futebolística‟. Lembro que estava assistindo uma partida da seleção feminina brasileira e o “famoso” locutor, comentando a assistência feita por jogadora brasileira e que resultou em um lindo gol, disse algo como: elas são boas de assistência, pois são capazes de encontrar rapidamente uma camisa no armário para você. Pior ainda foi o que disse outro, num post que rendeu muitos comentários no twitter e que reproduzo abaixo:

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O preconceito é tão naturalizado que é possível encontrar alguém como ele, se expondo sem o mínimo senso crítico. Algo semelhante é apontado pela edição do jornal El País de 10 de agosto de 2016, na interessante matéria que analisa os 9 títulos mais machistas usados para referir-se às mulheres atletas olímpicas, nos Jogos Olímpicos do Rio, afirmando que muitos meios de comunicação se recusaram a reconhecê-las como “algo mais que um pedaço de carne”. E, nesse campo esportivo, as mulheres são, de fato, “a carne mais barata do mercado”. Entre as expressões mais usadas ao se referirem a elas encontram-se: “mulher de fulano”, “vencedora graças a seu marido”, “nada como um homem”, “idade”, “gostosa”, “linda”, “boneca”, “solteira”, entre outras tantas absurdas. Já, para eles, conforme o mesmo jornal, as palavras mais usadas foram: “rápido”, “forte” e “fantástico”, entre outros viris e atléticos. Ou seja, o preconceito dirige-se a todas e em qualquer modalidade. O futebol é apenas a ponta da lança dessa misoginia, que atinge, fere e mata sonhos de tantas que buscam seu lugar ao sol.

Aliás, durante essas Olimpíadas, ainda outro fato inusitado: enquanto os meninos, com todos os holofotes em cima, iniciaram pifiamente a competição, as meninas arrebentaram, mostrando muita garra e determinação, chegando ao ponto dos estádios gritarem em alto em bom tom, seguidos por locutores: “Marta é melhor que Neymar!!”. Reconhecimento pelo trabalho delas? De jeito nenhum! Verificou-se logo em seguida que era apenas uma forma de desqualificar o futebol masculino, pois indiretamente estavam dizendo: “ei garotos, vocês estão jogando pior que mulherzinhas”. Aos que duvidarem dessa minha afirmação, busquem referencias na mídia e na fala dos homens para ver onde colocam o futebol feminino, ou leiam a matéria do Jornal de Manaus. É suficiente para se convencerem do quanto elas são desqualificadas nesse esporte e perceberem o quanto as dificuldades encontradas por meninas (em larga maioria, negras e de origem humilde) ainda são exorbitantes.

Soma-se à luta das atletas por busca de reconhecimento, inúmeras inciativas de organizações que fortalecem o enfrentamento ao machismo, já protagonizado em diversos campos pelas feministas brasileiras desde os tenros anos do século XX. O facebook tem sido uma das principais ferramentas para romper tais barreiras, como demonstraram as campanhas de mobilização nacional lançadas por organizações feministas como o #TemMulherNaJogada, iniciativa da Rede de Desenvolvimento Humano – Redeh, em parceria com a street football Brasil – sfw e a campanha #QueroTreinarEmPaz, das ONGs Think Olga e AzMina, entre outras. Ambas se somam à luta das atletas brasileiras por igualdade e equidade no mundo dos esportes, mas também das meninas que sonham em um dia ser atletas profissionais.

O mesmo Brasil que se orgulha de ter o futebol como símbolo da paixão nacional, de seus craques espalhados pelo mundo inteiro, da classe e ginga que caracterizam o drible de seus jogadores discrimina suas jogadoras. Quando as mulheres fazem uma opção de vida pelo futebol, encontram um caminho tortuoso, tendo que driblar preconceitos de uma sociedade que teima em não enxergar que a paixão nacional por esse esporte vai muito além de um espaço reservado para que apenas os homens o ocupem. Nesse campo, a igualdade de gênero e raça ainda tem vários troféus a conquistar. Por enquanto, a bola continua batendo na trave.

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